Capítulo 3

Colaboração e cálculo



O período entre 1968 e 1973, quando o Brasil ostentava taxas de crescimento de mais de 10% ao ano, ficou conhecido como a época do “milagre econômico”. Desde o golpe de 1964, a integração mais intensa do Brasil ao mercado mundial e o seu desenvolvimento rumo a um país emergente semi-industrializado ocorreu paralelamente à expansão de estruturas de poder burocráticas e ditatoriais no plano da política interna. Para muitas empresas, foi uma fase de lucros enormes, enquanto a maioria dos brasileiros sofria com o arrocho salarial e o poder público não atacava os problemas básicos do subdesenvolvimento. Muitas empresas quiseram se beneficiar do “milagre”, enquanto os abusos aos direitos humanos eram percebidos apenas como um desagradável efeito colateral. Nunca tantas empresas alemãs fundaram subsidiárias no Brasil — principalmente na Grande São Paulo — como na primeira metade dos anos 1970.


O que se sabia nos círculos de esquerda já naquela época é que muitas delas não apenas se beneficiavam dos baixos salários praticados no país como colaboravam explicitamente com o regime militar. O relatório final da Comissão Nacional da Verdade (
CNV), apresentado em dezembro de 2014, lista nominalmente trezentos servidores públicos do Exército, da esfera política e dos serviços secretos que, entre 1964 e 1985, cometeram crimes atrozes. O documento aponta ainda oitenta empresas — entre elas Chrysler, Ford, General Motors, Toyota, Scania, Rolls Royce, Kodak, Caterpillar, Johnson & Johnson, Brastemp, Telesp, Petrobras, Embraer, Volkswagen, Mercedes-Benz e Siemens — que teriam prestado apoio direto ou indireto ao governo ditatorial.1 A CNV foi instituída em 2011 com base em uma lei promulgada pela presidente Dilma Rousseff, ela própria detida e torturada em 1970. A partir de maio de 2012, os integrantes do colegiado e seus assistentes conduziram mais de 1.200 entrevistas com vítimas e familiares de assassinados e desaparecidos políticos, bem como pessoas que ocuparam cargos no governo militar e nos aparatos de repressão, fazendo interrogatórios e pesquisando nos arquivos sobre o destino de oposicionistas perseguidos. Constatou-se que, além de intelectuais, estudantes, advogados e jornalistas, os militares também mantinham na mira numerosos trabalhadores organizados. O regime militar infiltrava informantes nas fábricas a fim de vigiar operários e sindicalistas.


As acusações contidas no relatório final da
CNV contra empresas brasileiras e filiais de conglomerados estrangeiros vão da espionagem de trabalhadores e da entrega de informações aos órgãos da repressão à confecção das chamadas “listas negras” de trabalhadores indesejados por suas atividades políticas ou sindicais. Nos interrogatórios, testemunhas relatam detenções e torturas dentro das instalações de empresas alemãs, como a Volkswagen, sob os olhos dos agentes de segurança da própria empresa. Ao longo das investigações, surgiram indagações sobre se essas empresas também haviam colaborado com o golpe militar de março de 1964, que, apoiado pelos Estados Unidos, derrubou o governo de João Goulart, que desde 1961 implementara diversos projetos de distribuição de renda e de reforma, como a reforma eleitoral e reforma agrária. A CNV acusa diversas empresas, entre elas as subsidiárias da Volkswagen, Mercedes-Benz e Siemens, não apenas de haver cooperado com os serviços de informação e segurança dos militares, mas também de ter ajudado a financiar os aparelhos da repressão — entre eles, os centros de tortura.


A difícil transição da ditadura civil-militar


No curso das investigações e de suas conclusões pelos especialistas da Comissão Nacional da Verdade, ficou claro que a designação “ditadura militar” era imprecisa, uma vez que a colaboração de amplas parcelas da sociedade — do setor econômico, dos esportes e da cultura — aponta mais para uma “ditadura civil-militar”. O adjetivo “civil” não é utilizado para atenuar a truculência do regime, e sim para designar que atores não militares exerceram papel ativo na sustentação da ditadura. Depois da redemocratização, muitas pessoas que haviam apoiado o regime prosseguiram com suas carreiras, ocupando — até hoje — importantes posições no governo e na sociedade civil. Esse fato tem se revelado um grande obstáculo para que os crimes cometidos pelo Estado durante a ditadura fossem devidamente investigados e os responsáveis, julgados. Nesse quesito, o Brasil fica muito atrás de outros países latino-americanos.


Para compreender a relevância e a função da
CNV, é preciso saber que até hoje está em vigor a Lei da Anistia assinada em 28 de agosto de 1979 pelo então presidente militar João Baptista de Oliveira Figueiredo. De um lado, a lei permitiu que os militantes clandestinos reassumissem suas identidades e os exilados voltassem para a casa, mas, por outro, assegurou a impunidade para as torturas, sequestros, assassinatos, ocultação de cadáveres e outros crimes cometidos pelos militares. Com isso, a legislação impede o processamento jurídico das maciças violações dos direitos humanos e civis cometidas antes e durante a ditadura. Há anos, associações de vítimas e de familiares, bem como grupos de direitos humanos e muitos procuradores e procuradoras, lutam pela revogação da Lei de Anistia, a fim de poder levar os agentes do regime aos tribunais. Nesse sentido, a Ordem dos Advogados do Brasil apelou em 2008 ao Supremo Tribunal Federal para examinar a constitucionalidade do texto de 1979. Em 2010, a Corte Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos condenou o Estado brasileiro a finalmente esclarecer o sequestro e a morte de 62 membros da Guerrilha do Araguaia, que agira entre 1972 e 1974 como braço militante do Partido Comunista, que então havia sido banido do país. O Estado deveria responsabilizar os criminosos, esclarecer onde ficaram o corpo de ao menos 62 pessoas assassinadas nos operativos militares e, finalmente, rever e anular a Lei da Anistia.


No mesmo ano, porém, o Supremo Tribunal Federal confirmou a constitucionalidade da lei. Assim, até segunda ordem, todos os caminhos para a elucidação jurídico-penal das violações cometidas pelo Estado naquele então ficaram bloqueados. Há vítimas que não se conformam e que, ao mesmo tempo, são ativistas engajadas. Entre elas está a família Teles, de São Paulo.


Amélia Teles, a Amelinha, foi detida em 1972 junto com o marido César e a irmã Criméia Schmidt de Almeida. Ficou presa e foi severamente torturada entre 1969 e 1970 no centro de torturas do
DOI-Codi, em São Paulo, que se chamava Operação Bandeirante (Oban). O nome do torturador é conhecido: o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, que viria a falecer em 2015 sem jamais pagar por seus atos nem passar um dia sequer na prisão. Tudo isso graças à Lei de Anistia, que garantia proteção a ele e a seus comparsas. Mas a família Teles conseguiu, ao menos, levá-lo aos tribunais.


Em 2006 […] não entramos com processo penal, e sim com uma ação civil pública de responsabilização”, relata a filha de Amélia e Carlos Teles, a historiadora Janaína Teles. A família queria, mas havia desistido de pedir a punição de Ustra. Tampouco estavam requisitando indenização pelo sofrimento de Amélia. O que a família Teles pediu foi que o Estado brasileiro declarasse oficialmente o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra como “torturador”.


Em 2008, a família Teles ganhou em primeira instância o processo na 23ª Vara Cível de São Paulo. Em agosto de 2012, o Tribunal de Justiça de São Paulo confirmou a sentença, fundamentando sua decisão na seguinte lógica: embora a Lei de Anistia impeça a criminalização de atos dos tempos da ditadura, isso não vale para casos do direito civil. Além disso, crimes como tortura não prescrevem no Brasil.


Esta não é uma vitória da família Teles, mas do Brasil inteiro”, disse Criméia Schmidt de Almeida pouco depois da promulgação da sentença. “É uma decisão inédita e histórica”, afirmou Amélia Teles, vítima do recém-declarado torturador. “A partir deste momento podemos afirmar de cabeça erguida que Carlos Alberto Brilhante Ustra é um torturador, um assassino, responsável pela perseguição e pelo sequestro de mulheres, homens e crianças que se rebelaram contra a ditadura no Brasil.”


Houve outros processos contra Ustra. Em 2012, o
Ministério Público Federal em São Paulo entrou com denúncia contra o coronel reformado pelo crime de sequestro qualificado. Em 1971, enquanto ele comandava o DOI-Codi, o preso político Edgar de Aquino Duarte desapareceu. O corpo nunca foi encontrado. Ustra também foi apontado como responsável pelo desaparecimento do estudante de medicina Hirohaki Torigoe, em 1972. Aos 27 anos, Torigoe era membro da Ação Libertadora Nacional (ALN). Segundo testemunharam outros presos políticos, ele foi levado vivo ao centro de torturas do DOI-Codi. Seu corpo também continua desaparecido. O Ministério Público Federal usa o mesmo argumento nos dois casos: se o corpo permanece oculto, então permanece o elemento constitutivo do crime. E um crime perpetrado em outra época ou agora, diz a lógica, precisa ser punido. Mas, em ambos os processos, os tribunais julgaram, em 2014, que as vítimas provavelmente foram assassinadas. Assim, seus algozes seriam protegidos pela Lei da Anistia e não poderiam ser criminalizados.

Moradores do Araguaia abordados durante operação do Exército no período da Guerrilha do Araguaia


Procuradores lançaram mão de um expediente semelhante no caso de Sebastião Rodrigues de Moura, mais conhecido como Major Curió. Em 1972, o famigerado militar fora enviado para uma missão secreta na região amazônica, disfarçado de agrônomo do
Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) para combater a guerrilha no rio Araguaia, no sul do Pará. Os cerca de 70 a 80 membros do grupo, bem como um número desconhecido de moradores da região, acusados de “colaboração com os subversivos”, estão desaparecidos até hoje. Em 2010 foram encontrados os restos mortais de dez pessoas na região do Araguaia, porque membros do Exército deram indicações em entrevistas sobre possíveis locais em que estariam enterrados.

No caso do Major Curió, que no final da carreira foi promovido a coronel, a argumentação da acusação foi a mesma: como os restos mortais de cinco membros da guerrilha jamais foram encontrados, o crime de sequestro permanece caracterizado. “
Não se encerrou, uma vez que o paradeiro das vítimas não foi localizado. A ação do Ministério Público Federal não contraria a lei. A Lei da Anistia não beneficia, neste caso, o coronel Curió”, explicou o procurador Sérgio Gardenghi Suiama, ao encaminhar a denúncia contra Curió em março de 2012. “É fundamental que a justiça investigue os casos, possibilite encontrar provas e traga as histórias das vítimas à luz do dia.”


Mas o juiz encarregado do caso tem outra visão, e disse ser bastante duvidoso que, depois de mais de trinta anos, os desaparecidos ainda estivessem sendo mantidos em cativeiro pelo acusado. E que era alta a probabilidade de estarem mortos, assassinados naquela mesma época. Portanto, o crime teria prescrito. Assim, também este processo de 2012 foi arquivado.


Diante deste pano de fundo é preciso considerar o engajamento e as vitórias, mas também as limitações da Comissão Nacional da Verdade. Sem sombra de dúvida, foi parte de uma longa luta pela revisão de episódios tenebrosos da história brasileira. O relatório final tem mais de duas mil páginas. Nas conclusões, a
CNV constata que, durante a ditadura, o Estado brasileiro torturou e assassinou sistematicamente opositores ao regime.

Os assassinatos, sequestros e torturas não foram atos isolados, tampouco decorrentes de excessos cometidos individualmente por alguns agentes do regime. Não foi uma ação conduzida por meia dúzia de psicopatas, e sim uma política de Estado, planejada, operacionalizada a partir de organismos criados especificamente para a repressão e dirigidos pelo Serviço Nacional de Informações (SNI), que por sua vez era comandado pelo presidente da República. Havia uma cadeia de comando. Essa política estatal funcionou de forma organizada e sistêmica”, disse o coordenador da CNV, Pedro Dallari. As torturas sistemáticas e execuções ilegais constituem crime contra a humanidade, continua Dallari. A Lei da Anistia de 1979 é, portanto, “incompatível com a lei brasileira e a ordem jurídica internacional”, pois, de acordo com a lei internacional, crimes contra a humanidade não podem ser isentados de investigação e punição. É precisamente o caso no Brasil.2


O trabalho da Comissão da Verdade, porém, não mudou em nada esta circunstância, e a Lei da Anistia continua impedindo processos contra fatos ocorridos durante a ditadura. O colegiado fez uma ampla investigação, revelou fatos novos e os divulgou para a opinião pública. Mais do que isso, deu ensejo à formação de mais de oitenta outras comissões da verdade estaduais e municipais. Até algumas instituições, como a Universidade de
São Paulo, instituíram um grupo próprio para tentar rever o passado. Mas, com a entrega dos relatórios finais, sua missão oficial acabou. Numerosas organizações de direitos humanos criticam esse mandato curto e limitado, enquanto muitos conhecidos torturadores e assassinos caminham livremente, concedem entrevistas e até se gabam de seus atos desumanos.


Arquivos destruídos, desaparecidos e secretos


Com a Lei de Acesso à Informação, sancionada em de maio de 2012, pouco depois da nomeação da
CNV, o Estado brasileiro prometeu liberar arquivos e documentos dos tempos da ditadura. Desde 2005, o Arquivo Nacional funciona como local central de coleta de todos os documentos relativos àquele período. São mais de vinte milhões de páginas.3 Todas as instituições públicas foram instadas a entregar ao Arquivo Nacional seus documentos relacionados com a repressão e a perseguição política ocorrida no país entre 1964 e 1985. Consta que, na transição para a democracia, o SNI ordenou a destruição de pelo menos quatro milhões de documentos. Mas muita gente tem a firme convicção de que essa informação serve apenas para encobrir o fato de que boa parte do material incriminador ainda está em poder dos criminosos, ou de instituições a eles ligadas.4 Dessa forma, existem alguns indícios de que, resistindo frontalmente às ordens oficiais do Arquivo Nacional, parte dos militares — ou militares aposentados — nem sonham em entregar os “seus” documentos. É quase certo que inúmeros registros importantes dos tempos do regime continuam guardados em quartéis, em outras instituições militares ou mesmo na casa de ex-militares.


A incineração de arquivos na Base Aérea de Salvador, em dezembro de 2004, prova que algumas autoridades públicas não levaram tão a sério a obrigatoriedade de entregar os documentos. O programa
Fantástico, da Rede Globo, mostrou imagens da destruição parcial de mais de setenta metros quadrados de papéis na instalação militar. Antes disso, as autoridades responsáveis sempre haviam negado a existência de documentos dos tempos da ditadura, uma vez que todos teriam sido destruídos num incêndio em 1998 no aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro. Em sua investigação inicial, a Polícia Federal não achou aquilo estranho. Declarou não ter encontrado nenhum indício de qualquer “queima de material secreto”. Mas a investigação do Instituto de Criminalística da Polícia Civil do Distrito Federal concluiu que documentos devem ter sido levados para a Base Aérea, “vindos, provavelmente, de uma fonte externa”. A Polícia Federal alegou não poder comprovar nenhum ato equivocado dos servidores de mais alta patente da Base Aérea.


Familiares de desaparecidos políticos e organizações de direitos humanos duvidam, no entanto, que grande parte dos documentos incriminadores tenha sido eliminada. E com razão. Em julho de 2007, o jornal
Correio Braziliense apurou a existência de um arquivo até então desconhecido nos porões do Itamaraty, com documentos e dossiês importantes dos tempos da ditadura, produzidos por diplomatas brasileiros no exterior e funcionários de embaixadas. O Centro de Informações do Exterior (Ciex) do Itamaraty funcionou entre 1966 e 1985 como “agência de informação e supervisão dos adversários do regime militar no exterior”. Por ordem do Ciex foram redigidos mais de oito mil relatórios sobre potenciais “inimigos”. Vitória Grabois, filha de Maurício Grabois, desaparecido em 1973 na região do Araguaia, afirmou enfaticamente em 2008 que a descoberta daquele arquivo secreto permitia supor a existência, até hoje, de outros arquivos da Marinha, do Exército e da Aeronáutica, ou até mesmo da Polícia Federal, supostamente destruídos ou perdidos.


Em março de 2008, o jornal
O Estado de S. Paulo publicou um documento que estava em propriedade particular de um ex-tenente da reserva. Tratava-se de uma ordem de busca e apreensão contra supostos apoiadores da guerrilha do Araguaia, com os nomes de dezessete camponeses acusados de apoiar a luta armada. José Vargas Jiménez, detentor do documento, foi o primeiro militar a falar sobre o combate à guerrilha e o destino dos guerrilheiros. Em entrevista, contou ter sido o responsável pela execução de 32 militantes, esclarecendo: “A ordem era atirar primeiro e perguntar depois. Entramos para matar, destruir. E não para prender.”


O surgimento deste documento fortalece a suspeita de familiares das vítimas sobre a existência dos arquivos da repressão. Graças à Lei de Anistia, os perpetradores estão em segurança. Alguns, como o Major Curió, ironizam publicamente as vítimas. Em entrevista a
O Estado de S. Paulo, ele esclareceu que sua unidade não executou 25 guerrilheiros, como até então se supunha, e sim 41.5 Ele próprio teria atirado. Curió mostrou aos jornalistas o “arquivo particular” que mantém sobre a guerrilha do Araguaia, com documentos militares e policiais, que há 34 anos está guardado em uma mala de couro vermelha. Quando a ditadura acabou, ele simplesmente levou os documentos para casa. Ninguém nunca os requisitou de volta. E, assim, uma parte das informações sobre o que aconteceu com a guerrilha do Araguaia ficou armazenada na casa de Curió, um dos perpetradores do regime.


Familiares dos desaparecidos da guerrilha do Araguaia e organizações de direitos acreditam que o Estado tem o dever de investigar os arquivos e argumentam que o caminho do “bom diálogo” com os militares, escolhido pelos governos Lula e Dilma, é insuficiente. Eles reivindicam livre acesso a todos os documentos. Elisabeth Silveira, diretora do grupo Tortura Nunca Mais do Rio de Janeiro, considera essencial a abertura completa dos arquivos: “Quando receberemos as informações às quais temos direito? Somos o país mais retrógrado da América do Sul quando o assunto é encarar o passado.”


Financiamento de centros de tortura por empresas

Vista aérea das instalações onde era operado a Operação Bandeirantes. Reparem o número de fuscas e kombis no pátio.


O relatório final da Comissão Nacional da Verdade menciona três empresas alemãs associadas aos centros de tortura: Volkswagen, Mercedes-Benz e Siemens. Na página 320 do volume
II, lê-se: “Além de banqueiros, diversas multinacionais financiaram a formação da Oban, como os grupos Ultra, Ford, General Motors, Camargo Corrêa, Objetivo e Folha. Também colaboraram multinacionais, como a Nestlé, General Eletric, Mercedes-Benz, Siemens e Light”. Na mesma página, consta que a Volkswagen teria colocado veículos à disposição da Oban, onde, segundo as últimas informações, foram assassinadas 66 pessoas, das quais 39 morreram em consequência de torturas. Sabe-se que outras 19 pessoas foram detidas e levadas para as dependências da Oban ou para o DOI-Codi, e até hoje continuam desaparecidas.6


Em São Paulo, centro econômico do Brasil, a repressão foi muito mais cruel do que em outros lugares. Ali, a preocupação dos executivos das empresas com “a agitação comunista” escancarou-se no final dos anos 1960 e início dos anos 1970. Nos órgãos de segurança e no governo, havia a expectativa de que o empresariado paulista pudesse colaborar na luta contra o “perigo” vermelho. Pedia-se apoio financeiro, porque faltavam ao Estado brasileiro os recursos para a necessária supervisão e aniquilamento dos “elementos subversivos”, como reconstituiu o jornalista e cineasta Chaim Litewski em seu documentário
Cidadão Boilesen, de 2009, para o qual também entrevistou ex-militares.7




Nesse contexto, o empresário dinamarquês Henning Albert Boilesen surge como personagem central. Nascido em Copenhague em 1916 e emigrado para o Brasil nos anos 1930, tornou-se presidente da Ultragaz, que fornecia botijões aos lares brasileiros. A Comissão da Verdade apelidou Boilesen de “tesoureiro da Oban”.
8 Segundo o relatório, o empresário frequentava a Oban e costumava assistir pessoalmente a sessões de tortura.9 Ele oferecera uma recompensa pela cabeça de Carlos Marighella, autor do Manual da guerrilha urbana e líder da Ação Libertadora Nacional (ALN). Consta que o empresário aperfeiçoou um instrumento desenvolvido pela cia para a Guerra do Vietnã, que emitia choques elétricos a partir de combinações de teclas pressionadas pelos torturadores num tipo de teclado musical. O método foi batizado nos porões da tortura como “piano Boilesen”.10 A fim de vencer a “subversão comunista“, Boilesen quis fundar um braço paramilitar constituído de pessoas da sociedade civil e que deveria apoiar efetivamente a ditadura.11 Mas esses planos não puderam se concretizar. Em 15 de abril de 1971, Boilesen foi assassinado por membros da ALN e do Movimento Revolucionário Tiradentes na Alameda Casa Branca, em São Paulo, a mesma rua em que, dois anos antes, Carlos Marighella sofreu uma emboscada e morreu a tiros disparados pelo delegado e torturador Sérgio Paranhos Fleury.

Hoje não restam dúvidas de que Henning Albert Boilesen arrecadou fundos para financiar o aparato de repressão em nome da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).12 “Na Fiesp, convidavam-se empresários para reuniões em cujo término se passava o quepe. A Ford e a Volkswagen forneciam carros, a Ultragaz emprestava caminhões e a Supergel abastecia a carceragem da Rua Tutoia com refeições congeladas. Segundo Paulo Egydio Martins, que em 1974 assumiria o governo de São Paulo, ‘àquela época, levando-se em conta o clima, pode-se afirmar que todos os grandes grupos comerciais e industriais do estado contribuíram para o início da Oban’”.13 O jornalista Elio Gaspari chegou à conclusão de que, entre 1968 e 1974, “sempre que solicitado, o empresariado de São Paulo dava dinheiro”. No caso da Oban, ou seja, do DOI-Codi, tratava-se de quantias de cerca de cem mil dólares por ano, utilizadas para equipar o centro de torturas, uma vez que os salários eram pagos pelo orçamento das Forças Armadas e do Estado.14


O apoio do empresariado na criação da Oban foi confirmado no início dos anos 1990 em entrevista de dois ex-militares — os generais aposentados Cyro Guedes Etchegoyen e Gustavo Moraes Rego Reis — a historiadores do Centro de Pesquisa de História Contemporânea (
cpdoc) da Fundação Getúlio Vargas.15


Outro acusado de ter arrecadado fundos para os centros de tortura é João Baptista Leopoldo Figueiredo,
16 primo de João Baptista de Oliveira Figueiredo, chefe do SNI entre 1974 e 1978 e último ditador do regime militar.17 Nascido em 1910, em Santos, o banqueiro João Baptista Leopoldo Figueiredo chegou a ser presidente da Câmara Teuto-Brasileira de Comércio e Indústria de São Paulo em 1948. A organização fundada em 1916 é conhecida hoje como Câmara de Comércio e Indústria Brasil-Alemanha. Leopoldo Figueiredo deixou o cargo em 1966 para se tornar presidente da sueca Saab-Scania no Brasil. De 1963 até meados dos anos 1970, também integrou o Conselho Fiscal da Volkswagen no país.18 Os repórteres José Casado e Chico Otávio, do jornal O Globo, afirmam que “não existem dados exatos, mas sabe-se que foi expressivo o fluxo de dinheiro para a repressão”, e que este partia de uma arrecadação de fundos entre os empresários paulistas. Os jornalistas citam algumas pessoas. Um dos que organizavam essas campanhas de arrecadação teria sido Leopoldo Figueiredo, membro do conselho fiscal da Volkswagen do Brasil. Como morreu em 1989, já não pode ser questionado sobre suas atividades na época.


Em outubro de 2016, a Câmara de Comércio e Indústria Brasil-Alemanha de São Paulo resolveu homenagear seu presidente-fundador no livro comemorativo dos cem anos da instituição. A publicação lembra que Leopoldo Figueiredo se tornou sócio honorário após deixar a direção, carregando uma distinção em função do “sucesso” de seu trabalho. Não há menções à sua participação na arrecadação de recursos junto à Fiesp para financiar a repressão.
19 Depois, a menção a Figueiredo nos anais da câmara foi discretamente retirada.


O jornalista Elio Gaspari cita ainda o banqueiro Gastão Bueno Vidigal, ex-dono do Banco Mercantil de São Paulo. Segundo Gaspari, Vidigal teria se referido em uma entrevista a um encontro entre quinze empresários e banqueiros paulistas em 1969, durante o qual o então ministro da Fazenda, Antônio Delfim Netto, pedia apoio financeiro para a Oban.
20


Delfim Netto ocupou cargos em todos os governos militares entre 1964 e 1984. De 1975 a 1978, no governo Ernesto Geisel, foi embaixador do Brasil em Paris. No final de 1968, votou a favor do “golpe no golpe”, o
ai-5, que, como já comentamos, suspendeu os direitos civis no Brasil. De 1968 a 1973, durante o “milagre econômico”, ocupou o Ministério da Fazenda.21 Falecido em 2001, Vidigal contou a Elio Gaspari sobre os encontros no Club Paulistano, que presidiu de fins dos anos 1960 a início dos anos 1970. Toda quinta-feira havia reuniões com comes e bebes, às quais também comparecia o ministro da Fazenda. Delfim Netto costumava fazer palestras espirituosas sobre a conjuntura econômica. Em seguida, passava-se o chapéu para coletar doações em dinheiro para a Oban.22


Em junho de 2013, a Comissão da Verdade de São Paulo convidou Delfim Netto a prestar depoimento e o confrontou com as acusações. Delfim negou ter arrecadado fundos e disse que nunca soube nada sobre o centro de torturas da Oban. Admitiu ter se encontrado uma vez com o empresário Henning Albert Boilesen, ocasião em que teria conversado brevemente sobre o regime tributário para as empresas no país. Delfim afirmou ainda jamais ter se encontrado com o famigerado torturador do Departamento de Ordem Política e Social (Dops), o delegado Sérgio Paranhos Fleury, e que jamais teria conversado sobre questões de segurança com o ex-governador de São Paulo, Paulo Maluf. Admitiu, porém, ter assinado o
ai-5. “Se as condições fossem as mesmas e o futuro não fosse opaco, eu repetiria. Eu não só assinei o Ato Institucional número 5 como assinei a Constituição de 1988.”23


Em 1979, Antônio Carlos Fon, jornalista e ex-integrante da ALN
, publicou um livro24 em que trata das estruturas financeiras dos órgãos brasileiros de repressão. Segundo suas pesquisas, duas firmas arrecadavam dinheiro junto ao empresariado carioca e paulista para os centros brasileiros de tortura: a Consultores Industriais Associados, que cujas iniciais ironicamente formam a sigla cia, e a Intelligence Assessoria Integral. Segundo Fon, essas empresas pertenciam a quatro pessoas: os militares aposentados Hélio Viana e Álvaro Galvão, o ex-jornalista Robert Lentz Plassing e o economista, empresário e assessor do ministro Delfim Netto, Paulo Henrique Sawaya Filho.25 Segundo o livro de entradas e saídas da portaria do centro de tortura do Dops em São Paulo, um certo “Dr. Paulo Sawaia” adentrou o prédio às 17h50 do dia 22 de março de 1979. Não constam a data e a hora da saída. Ao entrar, Sawaya foi registrado primeiro como “delegado”, anotação riscada posteriormente e substituída por “Ministério da Fazenda”.26 Delfim Netto nega que Sawaya tenha sido seu assessor no ministério e diz que o conheceu na condição de “empresário do setor de biotecnologia”.27 Segundo investigações do presidente da Comissão Municipal da Verdade de São Paulo, vereador Gilberto Natalini, entre 1971 e 1979, Sawaya entrou no prédio do Dops 47 vezes.28 Na segunda-feira, 28 de fevereiro de 1972, “Dr. Paulo Sawaya” adentrou o prédio do Dops às 15h25, tendo saído às 16h. Logo depois do seu nome foi feita a anotação de que Sawaya era da “Op. Bandeirante” e, na rubrica “cargo”, consta a abreviatura “doi”.29 Assim, o jornal O Globo também concluiu que Sawaya estava ligado ao centro de torturas.30 O relatório final da Comissão Nacional da Verdade também qualifica “Paulo Henrique Sawaya Júnior” como um dos coordenadores do centro de torturas da Oban.31 O escritor Bernardo Kucinski — autor do livro K., Relato de uma busca, que trata da história de seu pai à procura da irmã, Ana Rosa Kucinski, desaparecida em 1974 — conta que soube da boca de Sawaya, em primeira mão, que sua irmã fora sequestrada pela polícia secreta.32


Em 1979, em entrevista a Antonio Carlos Fon, Paulo Henrique Sawaya Filho negou todas as acusações. “Eu nunca torturei. Não conheço nenhum delegado ou diretor de serviço secreto.” Sawaya nunca foi convocado a depor em nenhuma das comissões da verdade. Portanto, só o que existe são as superficiais afirmações registradas em 1979 pelo jornalista: “Conheço o Lentz Plassing, de quem fui sócio, mas não arrecadei dinheiro para a tortura, nem sei se ele arrecadou.”
33

Sigamos, pois, os traços de Robert Lentz Plassing. Antes da criação das empresas Consultores Industriais Associados e Intelligence Assessoria Integral, ele trabalhara como jornalista. “O movimento brasileiro de direitos humanos o conhece como um dos líderes de organizações clandestinas que sumiam com sindicalistas, arrancavam confissões à base de tortura e, ao lado dos serviços secretos públicos, alimentavam aparatos próprios para sequestros e repressões. Nos arquivos do Exército e da Aeronáutica, seu nome consta como terrorista de direita. Por causa de sua atuação clandestina, foi demitido pela revista britânica The Economist, com a qual colaborava havia algum tempo.”34 É o que noticia o informativo Lateinamerika Nachrichten no fim de 1979.

É inquestionável35 que Plassing, já falecido, mantinha excelentes contatos com os executivos de multinacionais ativas no Brasil. Dessa maneira, em novembro de 1979, as ongs suíças Arbeitsgruppe Dritte Welt e Erklärung von Bern enviaram uma carta aberta ao conselho federal suíço, condenando o “comportamento inescrupuloso das subsidiárias brasileiras de multinacionais suíças”. Uma das companhias acusadas era a multinacional suíça do ramo eletroeletrônico Brown, Boveri & Cie., cujo conselho de administração no Brasil era então presidido por Oswaldo Ballarin. O jornal Neue Zürcher Zeitung de 22 de novembro de 1979 confrontou a executiva da Brown Boveri com a acusação das ongs de que Oswaldo Ballarin “ajudou a financiar uma organização de fachada que promovia comandos de sequestro, esquadrões da morte e torturadores e, em uma espécie de justiça com as próprias mãos, perseguiu críticos de empresas, sindicalistas e gente de esquerda”. Prossegue o texto do jornal: “Concretamente, o presidente do conselho de administração da Brown Boveri no Brasil, Oswaldo Ballarin, foi acusado de ter proporcionado contratos especiais de relações públicas a uma empresa dirigida por Robert Plassing (segundo a ong, ‘líder de uma organização clandestina de extrema direita’). Acusou a empresa de Plassing, a Consultores Industriais Associados, de realizar o trabalho sujo da repressão, fantasiada de empresa financeira e de marketing”.36

A direção da Brown, Boveri & Cie. admitiu ao jornal Neue Zürcher Zeitung que de fato houve contatos entre Ballarin, Plassing e a empresa. E que, entre outras companhias, Ballarin também trabalhava para a Nestlé, a Sandoz e o grupo Schmidheiny. “No âmbito de um processo administrativo do Cade [Conselho Administrativo de Defesa Econômica] sobre a indústria eletrônica no Brasil, Ballarin afirmou que a Consultores Industriais Associados era uma empresa de consultoria para relações públicas e marketing, de cujos serviços ele se utilizara algumas vezes entre 1971 e 1974, a preços normais praticados no mercado. Não se compreende como se pode concluir a partir desta afirmação […] que houve apoio a esquadrões da morte e especialistas em tortura. Só pode ser má-fé”. Ainda assim, a Brown Boveri disse que não pretendia processar as ONGs, “já que essas organizações só querem mesmo visibilidade junto à opinião pública”, como disse o porta-voz da Brown Boveri ao jornal Neue Zürcher Zeitung.37


A historiadora Martina Spohr descobriu como a direção do
DOI-Codi, ligado ao Segundo Exército, manifestava gratidão ao empresariado.38 Na terça-feira, 9 de dezembro de 1970, o chefe do Estado Maior do Comando Militar do Sudeste, general Ernani Ayrosa, convidou alguns de seus “apoiadores mais destacados” para uma recepção em que expressou aos presentes o agradecimento explícito pelo apoio prestado ao regime. Entre personalidades mais ou menos famosas dos círculos empresariais paulistas estavam também Henning Boilesen e Pery Igel, da Ultragaz, e Sebastião Camargo, da construtora Camargo Corrêa, bem com Oswaldo Ballarin, a serviço de Brown, Boveri & Cie, Nestlé, Sandoz e Schmidheiny.39


A advogada e professora universitária Rosa Maria Cardoso, integrante da Comissão Nacional da Verdade, afirma nem ela nem seus colegas no colegiado puderam saber efetivamente o que houve. “Há muitos pedaços da realidade que estão totalmente encobertos por uma névoa. É claro que os partícipes dessa história não vão revelar nada. Militares não vão acusar empresários. Essas revelações e confissões são muito difíceis. O que nos ajudaria seria encontrar essa documentação, mas essa documentação dos empresários foi efetivamente destruída.”
40 Sem uma busca sistemática pelos arquivos desaparecidos ou supostamente destruídos que ainda se encontram em mãos dos criminosos ou de seus sucessores, será impossível fazer um balanço definitivo do passado sombrio das empresas. Mesmo assim, Rosa Cardoso enfatiza que diversas companhias, entre as quais a Volkswagen, apoiaram os centros de tortura. Existem provas contra um conjunto de empresas e, muito especificamente, contra a Volkswagen, onde a colaboração com os órgãos repressivos se materializava no financiamento e na cessão de veículos para serem usados pelos agentes do Estado da Operação Bandeirante, depois o DOI-Codi, em São Paulo.”41


O que revelam os livros de controle de entradas e saídas do Dops?


O nome de Robert Lentz Plassing aparece na página 11 da lista de torturadores elaborada pelos perseguidos políticos entre 1979 e 1980. Segundo depoimento dos torturados, seu codinome no DOI-Codi era Samuca.42 Já no Dops, ele usava o próprio nome. No dia 20 de abril de 1971, “doutor” Robert Plassing entrou no centro de torturas acompanhado de um oficial da Marinha. Segundo o livro de controle de visitação do Dops,43 ele permaneceu no local até depois de terminado o expediente do porteiro, que deixava seu posto às dez horas da noite. Depois disso, como o funcionário já havia ido para casa, não há mais nenhum registro.


Os membros da Comissão da Verdade Rubens Paiva, organizada pela Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, mandaram examinar estes livros de controle de visitação. Ali estão registradas minuciosamente as entradas e saídas de todos os delegados e visitantes conhecidos e desconhecidos do Dops. Uma pesquisa das certidões de óbito das vítimas de tortura poderia dar pistas sobre quem estava no centro de repressão naquele momento. Encontram-se nos documentos representantes de empresas como Petrobras, PanAm e Rede Globo. Mas os livros da portaria também registram membros de consulados dos Estados Unidos, da Bélgica, do Canadá, da Coreia do Sul, de Israel, da Grã-Bretanha, do Peru, da Iugoslávia, da Espanha e da Alemanha. Isso pode não ter um significado relevante, pois “o Dops também fazia o papel de polícia de estrangeiro”,44 o que poderia explicar as diversas visitas de diplomatas consulares. Mesmo assim, alguns dos registros despertam desconfiança. Cônsul norte-americano no Brasil entre 1971 e 1974, Claris Rowley Halliwell teria estado 31 vezes no Dops, muitas delas depois do expediente, segundo o livro da portaria. O coordenador da Comissão da Verdade do estado de São Paulo, Ivan Seixas, foi preso político na época da ditadura. O pai dele, Joaquim Alencar de Seixas, participou do assassinato de Henning Albert Boilesen. Poucos dias depois do atentado, Joaquim foi detido com Ivan, à época com apenas 16 anos de idade. Ambos foram torturados. Joaquim foi assassinado no DOI-Codi. Em fevereiro de 2013, Ivan afirmou que as torturas no Dops costumavam ocorrer à noite, uma vez que os gritos podiam ser ouvidos no prédio inteiro. Ele compara a presença dos convidados com os períodos em que comprovadamente se torturava. E pergunta: por que um representante diplomático estaria em um lugar onde se tortura? No mínimo, supõe Seixas, este convidado ouviu e decidiu ficar em silêncio. Quem sabe, foi até pior.45 Seixas não gosta de falar disso, mas fica claro a que se refere. Ele acredita que cônsules estrangeiros ou representantes de empresas assistiram pessoalmente às sessões de tortura no Dops.


No próprio departamento, a visita dos “convidados” era vista com evidente satisfação, já que se tratavam de apoiadores da repressão. A historiadora Mariana Joffily encontrou um documento no Arquivo do Estado de São Paulo que admite abertamente o financiamento do Dops por meio do empresariado paulista: “O êxito da repressão à subversão e ao terrorismo em São Paulo reside, em síntese, no apoio das elites civis e autoridades civis e militares, no trabalho integrado que soma esforços e multiplica resultados e na motivação dos órgãos de segurança”.
46


Talvez isso ajude a explicar por que o nome de uma certa pessoa surge com mais frequência no livro de controle de visitação da portaria do Dops. Trata-se de Geraldo Rezende de Matos, que aparece como diretor da Fiesp. Segundo o livro da portaria, ele teria frequentado o Dops quarenta vezes. Em abril de 1972, teria permanecido no local das 18h20 do dia 24 às 12h35 do dia 25. O que um dos maiores representantes da maior associação industrial do país fazia durante toda a noite em um reconhecido centro de torturas? Ivan Seixas acredita ter encontrado uma resposta a essa pergunta: Geraldo Rezende de Matos teria se ocupado da entrega das chamadas “listas negras” feitas pelos serviços de segurança de diversas empresas com os nomes de trabalhadores que deveriam ser detidos.
47 A Fiesp tem o desplante de afirmar que não possui nenhum documento a respeito do ex-diretor.48


Nem mesmo o jornal conservador
O Globo quis aceitar isso. Em uma matéria minuciosamente apurada,49 os repórteres José Casado e Chico Otavio reconstituem a trajetória profissional de Matos na Fiesp com datas precisas, lugares e funções, bem como suas conexões, que vão fundo até os porões mais sombrios da ditadura.50


Pelo menos três empresários afirmaram ter se recusado a contribuir financeiramente com os órgãos de repressão: José Mindlin, Antônio Ermírio de Moraes e Kurt Mirow. José Mindlin foi fundador e proprietário da empresa de autopeças Metal Leve. Segundo o jornalista Hélio Contreiras, Mindlin e Antônio Ermírio, da companhia Votorantim, não quiseram dar dinheiro para órgãos de repressão.
51 Em 1977, o empresário teuto-brasileiro Kurt Mirow publicou o livro A ditadura dos cartéis. Enquanto, em agosto de 1977, foi instaurado um inquérito contra Kurt Mirow em um tribunal militar brasileiro por atentado contra a segurança nacional, na Alemanha empresas como a Siemens exigiram da editora Rowohlt que não publicasse seus escritos.52 Mas o livro saiu, e diz: “Em São Paulo há rumores de que companhias de renome europeias e americanas, membros do cartel elétrico do IEA, do cartel de fertilizantes da Nitrex, empresas do setor de alimentos, empreiteiras e outros grupos interessados no chamado milagre econômico ajudaram a financiar as ações de terror da Operação Bandeirante, a contraparte política do famigerado Esquadrão da Morte. Os salários de cargos intermediários da polícia teriam sido melhorados. No âmbito do combate à subversão, intelectuais rebeldes ou concorrentes indesejados foram silenciados. O terror teria se tornado um meio eficiente de política empresarial”.53 Mirow relata ainda que também teria sido pressionado por Robert Lentz Plassing a financiar os órgãos de repressão por meio de uma contribuição mensal — uma espécie de mesada para evitar “coisas piores”. O empresário se recusou a cooperar e tornou pública a chantagem. Em consequência, houve diversos assaltos a sua casa, documentos foram extraviados, ele foi crivado de processos e denúncias e recebeu ameaças.54


Se as multinacionais nomeadas no relatório da Comissão Nacional da Verdade como financiadoras da repressão realmente não deram nenhum apoio aos agentes do Estado durante a ditadura, por que não tornaram tal fato preventivamente público em 1979, como fizeram José Mindlin, Antônio Ermírio de Moraes e Kurt Mirow? Quarenta anos depois, é bastante cômodo negar as acusações e alegar a inexistência de documentos que as comprovem.


Seja como for, não é trivial levar luz às trevas deste passado, ainda mais quando vítimas, algozes e testemunhas se contradizem em suas versões ou se acusam mutuamente de mentir, e quando as evidências documentais permanecem bloqueadas mesmo depois de tanto tempo, graças à falta de rigor e critério em seu armazenamento ou à falta de colaboração dos militares.


Por isso, o depoimento das testemunhas ganha ainda mais relevância, como no caso de Lúcio Bellentani, que trabalhou entre 1964 e 1972 como ferramenteiro na fábrica da Volkswagen no
ABC paulista e acusa a empresa de ter colaborado com a repressão durante a ditadura.


A Volkswagen do Brasil no banco dos réus


Funcionários da Volkswagen foram detidos nas instalações da empresa, surrados e torturados durante os chamados “anos de chumbo”, quando a repressão no Brasil assumiu características mais brutais. Segundo o depoimento das vítimas, as detenções e torturas ocorriam debaixo das vistas do pessoal de segurança da fábrica. O nome de Adhemar Rudge, coronel das Forças Armadas durante o regime e chefe da área de segurança da Volkswagen do Brasil entre 1969 e 1991, é citado nominalmente por Lúcio Bellentani. “
Quem comandou a prisão foi o [coronel] Rudge. O Rudge estava encostado em uma coluna com vários policiais, e mais gente da segurança da Volks, e encostaram uma metralhadora nas minhas costas. Levaram-me para o departamento de pessoal, onde havia outros agentes do Dops. Ali levei porrada e cascudo. Dali fui para o Dops, onde fiquei 45 dias totalmente incomunicável”.55


No dia 28 de julho de 1972,
Bellentani foi detido no pátio da fábrica da Volkswagen em São Bernardo do Campo. Eram onze horas da noite, disse ele em 19 de julho de 2012 para a Comissão Municipal da Verdade de São Paulo. “Na hora em que cheguei à sala de segurança da Volkswagen, já começou a tortura, já comecei a apanhar ali, comecei a levar tapa, soco.” No dia seguinte, foi levado a um dos torturadores mais conhecidos e inescrupulosos do Brasil: Sérgio Paranhos Fleury, o delegado Fleury, chefe do Dops, fanático caçador de opositores do regime e líder dos famigerados esquadrões da morte. Fleury, que matava gente a tijoladas. Fleury, que enriqueceu com dinheiro arrecadado junto ao empresariado paulista para financiar a repressão. Fleury, que morreu em 1º de maio de 1979 em circunstâncias nunca esclarecidas, e cuja notícia de morte foi comemorada por cem mil trabalhadores do Sindicato dos Metalúrgicos com palavras de ordem e cantoria durante os festejos do Dia do Trabalho no estádio de Vila Euclides, em São Bernardo do Campo.

Lúcio Bellentani, que trabalhou entre 1964 e 1972 como ferramenteiro na fábrica da Volkswagen no ABC


Bellentani relata: “No dia seguinte, me passaram para a equipe do delegado Fleury, que me colocou numa sala enorme no terceiro andar do Dops. Tinha uma escrivaninha e uma cadeira ali no meio, sentei ali e o Fleury ficou uns quinze minutos quieto, olhando para mim, e uma meia dúzia de torturadores lá atrás.” Então começou o interrogatório. “A partir dali começou a pauleira, quer dizer, pau-de-arara, arrebentaram algumas daquelas palmatórias na minha cabeça, nas mãos, nos pés; perdi alguns dentes. Isso daí foi assim por uns 45 dias.”

Um dia, continua o ex-operário, os torturadores disseram: “‘Hoje vamos ter mais um presunto em Sapopemba’. Eu pensei: ‘Acho que sou eu’. Era o único que estava ali. Eles me pegaram e queriam saber onde morava um rapaz que trabalhava na Mercedes, em São Bernardo do Campo.” Bellentani foi colocado em um carro e levado até um local próximo da fábrica. “Naquele período, em 1972, ali atrás da Mercedes era um varjão só, não tinha nada, era só a Mercedes. Aí me levaram para lá, me algemaram com as mãos atrás, botaram a corda no meu pescoço, amarraram atrás da Veraneio e começaram a dar umas voltas, me arrastando ali pelo chão, querendo saber onde era a casa do rapaz. Levantei, deram uma rajada de metralhadora, não tinha bala, era só bala de festim. Aí me botaram na viatura de volta, aí chegou um deles e me disse assim: ‘Olha, o pessoal está lá atrás conversando. Aproveita e dá no pé’. Eu disse: ‘Se vocês quiserem me matar, vocês me matam aqui dentro do carro, porque correr eu não vou.’ Aí me algemaram e me levaram novamente para o Dops.”

Eles sabiam que a base do partido dentro da Volkswagen era grande, mas durante esses 45 dias só estávamos o meu delator e eu, e ele não conhecia a organização como um todo, porque a gente se organizava em grupos pequenos, e eu, apenas eu, tinha conhecimento de todos eles.” Bellentani foi confrontado com colegas. Apesar de toda a tortura, não entregou ninguém. “Felizmente consegui manter a mesma linha de depoimento desde o primeiro momento até o fim, e a coisa parou por ali.”

Durante várias semanas, a esposa de Bellentani não soube o paradeiro do marido e nem o que lhe ocorrera. Todos os dias ia até a fábrica da Volkswagen e perguntava no portão, no departamento de pessoal, no setor, aos chefes e aos colegas: “Vocês viram o Lúcio? Sabem onde está? O que houve?”. Só depois de várias semanas, tendo ameaçado acionar o seguro de vida por supor que o marido morrera, recebeu uma resposta. Mandaram que ela perguntasse no Dops, onde Fleury, o comandante dos esquadrões da morte, torturava e assassinava.

Lúcio Bellentani sobreviveu. Passou vários meses no Dops e alguns dias no DOI-Codi. Depois, foi levado ao Presídio Tiradentes, em São Paulo, onde passou um ano até o processo, ao fim do qual foi sentenciado a mais um ano de detenção. Segundo Bellentani, o torturador Fleury fizera uma anotação em seu processo, dizendo que ele havia sido o único preso que jamais colaborou. Por isso, recebeu o ano adicional.

Além de Bellentani, principal testemunha no caso da acusação de colaboração da Volkswagen do Brasil com a repressão, outros funcionários da empresa foram presos e torturados. Bellentani já não se lembra dos nomes de todos os colegas de trabalho também levados para o Dops e esfolados no pau-de-arara. Um documento do então chefe da segurança da Volkswagen, o coronel Adhemar Rudge, reproduzido na denúncia contra corporação, menciona — além de Lúcio Bellentani — as seguintes pessoas: Amauri Dagnoni, Annemarie Buschel, Antonio Torini, Geraldo Castro del Pozo e Heinrich Plagge.56 É legítimo supor que, pesquisando os documentos no departamento de pessoal da Volkswagen, seria possível identificar outras vítimas e seus familiares. Deveria ser relativamente fácil descobrir quem desapareceu por um período de tempo mais longo naquela época, porque todos os funcionários que não iam trabalhar por mais de trinta dias geralmente eram demitidos por justa causa, e porque isso deveria estar registrado nos processos internos dos trabalhadores, documentos que, para fins de aposentadoria, precisam por lei ficar guardados a vida inteira. Por isso, teria sido fácil para a direção da empresa permitir que os arquivos fossem investigados, a fim de constatar a identidade de outras vítimas da ditadura. Mas isso não ocorreu até agora.

Depois do caso de Lúcio Bellentani, o mais conhecido é o de Heinrich Plagge. Sindicalista ativo, Plagge era metalúrgico na Volkswagen. Por volta das duas horas da tarde de 8 de agosto de 1972, foi chamado para o escritório do diretor Ruy Luiz Giometti, onde já esperavam dois desconhecidos que o declararam preso. Levaram-no ao Dops, onde durante trinta dias foi duramente torturado, para depois ser transferido para o Presídio Tiradentes. Foi solto em 6 de dezembro de 1972 e, dezesseis dias depois, em 22 de dezembro, recebeu a carta de demissão. Plagge nunca mais encontrou emprego fixo. Foi obrigado a viver de bicos até ser novamente preso, em 2 de setembro de 1974. Dessa vez, precisou esperar mais tempo pela liberdade: até 3 de junho de 1975. No dia 23 de setembro de 2008, a Comissão de Anistia julgou que a demissão de 1972 teve “motivação política”.57


Denúncia contra a Volkswagen do Brasil por colaboração com a ditadura


Em 22 de setembro de 2015, o Fórum de Trabalhadores por Verdade, Justiça e Reparação entrou com uma denúncia contra a Volkswagen do Brasil junto ao Ministério Público de São Paulo.
58 A entidade, composta por vítimas, sindicalistas, advogados, movimentos sociais e grupos de defesa dos direitos humanos, queria dar andamento a processos de civis a fim de esclarecer todo o envolvimento da empresa com as estruturas dos órgãos de repressão. A denúncia, que correu sob o processo de número 1.34.001.006706/2015-26, baseia-se em depoimentos de vítimas como Lúcio Bellentani diante das comissões da verdade, assim como em outras provas que revelam a colaboração estreita da corporação alemã com os órgãos da repressão.

Muitas acusações pensam contra a Volkswagen do Brasil. Funcionários teriam sido detidos com a colaboração ativa ou passiva do pessoal armado da divisão de segurança da própria empresa, sendo agredidos ou torturados no pátio da própria fábrica por agentes dos órgãos de repressão. A denúncia reivindica ainda que se esclareçam as acusações segundo as quais, a exemplo de outras multinacionais ativas no país, a Volkswagen teria apoiado o famigerado centro de torturas Oban/doi-Codi. A denúncia menciona o oferecimento, pela empresa, de veículos para serem usados pelos agentes da repressão em São Paulo.

Além disso, a segurança interna da Volkswagen teria coletado e repassado aos órgãos da repressão informações sobre funcionários e sindicalistas politicamente ativos, dentro e fora das instalações da empresa. Isso é confirmado, por exemplo, pelos documentos publicados em 2014 pela agência de notícias Reuters, bem como pelas chamadas “listas negras” de funcionários que foram demitidos e nunca mais conseguiram outro emprego, ou então relatórios sobre sindicalistas redigidos internamente pela Volkswagen e colocados à disposição do Dops.59 Entre os metalúrgicos que foram espionados nos anos 1970, consta, entre outros, o nome do então ativista sindical e futuro presidente Luiz Inácio Lula da Silva.60 Um documento de 1980 — o ano da greve dos metalúrgicos na Grande São Paulo — traz uma lista com os nomes de 436 funcionários da Brastemp, Chrysler, Ford, Scania, Toyota, Toshiba, Inox e Mercedes-Benz, entre outras. Com 66 nomes, o grupo de funcionários da Volkswagen é o mais numeroso. Os nomes aparecem com endereço e informações detalhadas sobre local de trabalho e função na empresa, tudo meticulosamente anotado a lápis. Segundo Sebastião Neto, membro do Fórum de Trabalhadores por Verdade, Justiça e Reparação, as informações só poderiam ter origem na própria Volkswagen.

A direção da montadora se defende dizendo que se trata de “uma lista de centenas de trabalhadores de muitas empresas, e que apresenta algumas dezenas de ex-trabalhadores da Volkswagen. É uma informação, portanto, que foi reunida por alguém, em algum contexto, e algumas dessas informações que teriam sido supostamente fornecidas pela Volkswagen estão incorretas”.61


Por que é tão importante saber se o documento contém informações que só poderiam ter saído da própria Volkswagen? Porque ele foi encontrado nos arquivos do Dops e porque é importante esclarecer de que maneira esses documentos confidenciais internos da empresa caíram nas mãos da repressão. Segundo a denúncia do Fórum de Trabalhadores, a Volkswagen teria produzido e passado aos agentes do Estado mais de duzentos documentos. Os documentos provam que funcionários eram espionados dentro e fora da fábrica.


Um documento, em especial, se destaca: está datado em 6 de julho de 1983, porta a anotação “confidencial” e leva o carimbo do Ministério da Aeronáutica.
62 Historicamente, muitas indústrias se assentaram na região do Vale do Paraíba, entre os estados do Rio de Janeiro e São Paulo. Nos tempos da ditadura, criaram uma rede denominada Centro Comunitário de Segurança do Vale do Paraíba (Cecose). O documento revela que as empresas deste grupo trocavam informações sobre os trabalhadores e suas atividades sindicais e políticas, e se comunicavam mutuamente sobre quem era demitido e porquê. Na reunião do Cecose ocorrida em 6 de julho de 1983, participaram os representantes dos setores de segurança de 25 empresas. Amanda Menconi Hornhardt, Antonio Brunheira e Richard Martins, pesquisadores do grupo de trabalho da Comissão da Verdade dos Metalúrgicos de São José dos Campos e Região, examinaram detalhadamente este e outros documentos relacionados àquele encontro. O relatório que produziram, também entregue à Comissão Nacional da Verdade, chega à conclusão de que enviaram representantes para participar do encontro 13 empresas multinacionais (Caterpillar, Cebrace, Embrape, Ericsson, FiEl, Ford, General Motors, Johnson & Johnson, Kodak, National, Philips, Rhodia e Volkswagen), oito empresas privadas brasileiras (Avibras, Confab, Engesa, FNV, Mecânica Pesada, Tecelagem Parayba, Vibasa e Villares), quatro empresas estatais (Cosipa, Embraer, Petrobras e Telesp), bem como membros do Exército, da Aeronáutica e das polícias Militar, Civil e Federal.63


A ata da reunião contém um anexo que diz: “O representante da empresa (Volkswagen) expôs os assuntos mais importantes, cuja agenda segue em anexo, em forma de ‘lembretes’.”
64 É provável que o representante da Volkswagen tenha sido o único participante do encontro a oferecer um detalhado relatório de oito páginas com informações sobre atividades sindicais e políticas de funcionários da empresa, assim como o nomes, o CPFs e até o nome dos pais de trabalhadores recém-demitidos, que assim poderiam ser identificados sem problemas pelas outras empresas. “A Volkswagen, pelo que mostra o documento, funcionava como uma espécie de órgão de inteligência nesse grupo”, explica Sebastião Neto, do Fórum de Trabalhadores pela Verdade, Justiça e Reparação.65 A advogada Rosa Cardoso, membro da Comissão Nacional da Verdade, também acredita que esses documentos revelam o protagonismo da corporação em espionar trabalhadores com atividades políticas e sindicais.66


Some-se a isso a circunstância de que a Volkswagen, com sua dimensão e importância,
67 era uma das poucas empresas no Brasil com condições organizacionais, logísticas e financeiras para desempenhar tal papel. Só na fábrica de São Bernardo — segundo informou em 17 de outubro de 1980 o jornal semanal O São Paulo, editado pela Arquidiocese de São Paulo —, havia trezentos funcionários da divisão de segurança incumbidos de supervisionar quarenta mil trabalhadores.

A direção da montadora negou sistematicamente todas as acusações. Em depoimento à Assembleia do Legislativa do Estado de São Paulo, o diretor jurídico Rogério Varga esclareceu, em 27 de fevereiro de 2015, que “o Cecose continua existindo e nunca teve nenhuma finalidade de contribuição para violação de direitos humanos. Ele é uma troca de caráter mais técnico de informações sobre segurança em geral”.68


Tanto a Volkswagen quanto a empresa sueca Scania são acusadas nessa denúncia de haver confeccionado listas de trabalhadores passíveis de demissão e que, depois de demitidos, geralmente não encontrariam mais emprego, provavelmente devido a essas mesmas listas. Os respectivos depoimentos e os documentos encontrados se referem aos de 1978 e 1979, quando já se desenhava no horizonte o fim da ditadura. Em 1978 e 1980 houve importantes greves de metalúrgicos na Grande São Paulo.


O historiador Rodolfo Machado foi atrás das acusações contra a Volkswagen e examinou os arquivos a mando da Comissão Nacional da Verdade. Sua conclusão: os sindicalistas eram vistos como “caso de polícia”. “Essa aliança nada santa, com a Volkswagen do Brasil entregando seus trabalhadores ao regime, pode ser comprovada por uma grande quantidade de documentos. Existem listas sujas. Enquanto essa colaboração garantia lucros mais elevados à Volkswagen e a outras companhias, os trabalhadores tinham seus direitos cortados e eram explorados.”
69


Na denúncia, a Volkswagen e outras empresas são acusadas de ter colaborado no processo de militarização do Estado e do setor privado depois do golpe militar de 1964. Em 2013 foram encontrados documentos nos arquivos do antigo Serviço Nacional de Informações que apontam para a colaboração do setor privado com os órgãos brasileiros de repressão. Esses documentos, classificados como estritamente confidenciais, indicam que o chamado Grupo Permanente de Mobilização da Indústria
(GPMI) da Fiesp funcionava como mediador entre o setor industrial e os militares. O objetivo era a expansão da indústria de armamentos no mercado interno, a fim de se equipar melhor contra supostas tentativas de golpe comunistas. Para isso, se arrecadava dinheiro junto ao empresariado, e as empresas eram convidadas a converter seu portfólio de produtos civis em produtos militares. Junto com a Escola Superior de Guerra, a meta principal do gpmi era construir um “complexo militar-industrial” no Brasil, explica o jornalista Antônio Carlos Fon, citando o exemplo de fábricas de embalagens de batom que, de acordo com a proposta, poderiam passar a produzir cápsulas de munição.70


As pesquisas do historiador Jean-Claude Silberfeld apontam que os representantes da indústria e do setor privado — entre eles, Volkswagen do Brasil
71 e a Scania — teriam patrocinado financeiramente o gpmi na época da ditadura. A Volkswagen, no mínimo, prometeu transferir recursos ao gpmi.


O Fórum de Trabalhadores por Verdade, Justiça e Reparação parte do pressuposto que as empresas já prestavam apoio financeiro antes do golpe militar de 1964, um recurso que ajudou a derrubar o governo João Goulart. Um papel central neste esquema foi desempenhado pelo Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (Ipes), suspeito de ter angariado fundos junto ao empresariado de São Paulo para um golpe entre 1961 e 1964. Um de seus cofundadores — e primeiro presidente, de 1961 a 1964 — foi João Baptista Leopoldo Figueiredo, então também presidente da Câmara Teuto-Brasileira de Indústria e Comércio e membro do conselho fiscal da Volkswagen do Brasil entre 1963 e 1975.
72 Mesmo assim, a responsabilidade da Volkswagen, nesse contexto, é questionável. O historiador Luiz Alberto Moniz-Bandeira cita uma das várias entrevistas que fez com Hermann Görgen, durante décadas o presidente da Sociedade Teuto-Brasileira (Deutsch-Brasilianische Gesellschaft), para quem a direção da montadora não comungava com as intenções do Ipes. “Algumas poucas empresas alemãs no Brasil, como Mannesmann ou Volkswagen, mantiveram-se solidárias com o governo Goulart ou então assumiam uma postura ambivalente.”73 Por que essa afirmação é interessante? Porque não foi dita por alguém interessado em defender empresas como a Volkswagen retrospectivamente. Ao contrário, Hermann Görgen era um defensor convicto da tese de que havia efetivamente um perigo comunista no Brasil antes de 1964. Além disso, ele denunciou e difamou exilados na Alemanha junto ao consulado brasileiro em Bonn como “brasileiros que sujam a imagem do Brasil no exterior”, o que está evidenciado em documentos do Itamaraty.74 Além disso, ele tendia a banalizar a ditadura, tendo dito reiteradas vezes que nunca houve torturas sistemáticas naquela época. Essa foi, durante anos, a linha editorial dos Cadernos Teuto-Brasileiros ou Deutsch-Brasilianische Hefte, editados por Görgen. Por tudo isso, a afirmação de que a Mannesmann e a Volkswagen mantiveram-se “solidárias com o governo Goulart” ou assumiram uma “postura ambivalente” deve ser levada a sério, uma vez que ela quase desfaz o tom de lamúria de quem apoiou a ditadura.


Tanto mais interessante se torna a segunda afirmação de Görgen, a de que “poucas empresas alemãs no Brasil” se comportaram assim. Se, de um lado, ele inocenta parcialmente as duas corporações, ao mesmo tempo lança todas as demais empresas alemãs ativas no Brasil na condição de cúmplices do golpe militar de 1964.


Antes da queda de João Goulart, houve outra organização que conspirava ativamente contra o governo democrático: o Instituto Brasileiro de Ação Democrática
(ibad). Uma comissão parlamentar de inquérito de 1963, presidida pelo deputado Ulysses Guimarães, descobriu que o ibad, fundado em 1959 por empresários nacionais, intelectuais de direita e companhias transnacionais, interferia na política brasileira com somas milionárias a fim de banir o “perigo comunista”. Em dezembro de 1963, o ibad foi proibido devido a atividades ilegais. Segundo fontes da Câmara dos Deputados, entre as multinacionais que apoiavam o instituto estavam Texaco, Esso, Coca-Cola, ibm e Bayer.75 A Volkswagen não aparece nessa lista.

O andamento das audiências no caso Volkswagen do Brasil em 2015 e 2016


O Ministério Público acolheu a denúncia contra a Volkswagen em 22 de setembro de 2015 e iniciou as audiências algumas semanas mais tarde. A primeira foi realizada em meados de dezembro de 2015. A principal testemunha de acusação foi Lúcio Bellentani.
76 O depoimento dele correspondeu ao anterior, de 19 de julho de 2012, registrado pela Comissão Municipal da Verdade de São Paulo. No dia 27 de abril de 2016 foi colhido o segundo depoimento,77 em que três ex-trabalhadores foram interrogados sobre o dia a dia na fábrica durante a ditadura. Tarcísio Tadeu, Expedito Soares e Brás Sobrinho afirmaram que naquela época reinava um “ambiente de terror”, que a equipe sofria fortes pressões e que era obrigada a manter um “ritmo de trabalho louco”. Os três disseram que um complexo sistema de supervisão e controle impedia qualquer tentativa de organização dos trabalhadores e das atividades sindicais. As testemunhas confirmaram ainda que em reiteradas ocasiões houve militares e policiais estiveram presentes dentro da fábrica. No dia 18 de maio de 2016 realizou-se a terceira audiência. A depoente foi Tarcília Antonia Dagnoni, viúva de Amauri Dagnoni, preso em 1972. Segundo Tarcília, o marido foi torturado e teve lesões permanentes por causa dos golpes na região dos rins. Dagnoni ficou preso durante dois anos e nunca mais conseguiu um emprego regular.


No início de maio de 2016, o Ministério Público do Trabalho em São Bernardo do Campo anunciou que também participaria das investigações contra a Volkswagen do Brasil. O foco da instituição seria dimensionar como a montadora violou os direitos dos trabalhadores com suas medidas de controle e supervisão e com a perseguição de trabalhadores e suas associações, e em que medida deveria pagar indenizações por isso. A procuradora do Trabalho Andrea da Rocha Carvalho Gondim, que conduziu a apuração, declarou que “
é de extrema importância a atuação colaborativa entre os diversos ramos do Ministério Público com o fim de apurar conduta tão abominável, principalmente quando tem relação ou ocorre no ambiente do trabalho, local em que o trabalhador se sente fragilizado em razão da subordinação que é peculiar nesse ambiente”.78


O que fez a divisão de segurança da Volkswagen? 
O papel do coronel Adhemar Rudge


As vítimas da repressão contam que detenções e torturas ocorreram sob os olhos do pessoal da divisão de segurança da própria Volkswagen. Segundo Lúcio Bellentani, o coronel Adhemar Rudge acompanhou sua detenção. Bellentani diz ainda que, quando o colega Amauri Dagnoni foi levado de volta à fábrica a fim de entregar companheiros que pertencessem ao Partido Comunista, foi acompanhado por Rudge.
79 Como, à época, Bellentani estava detido no Dops e só poderia ter ouvido falar que o coronel Rudge acompanhou Dagnoni à fábrica, outras testemunhas teriam de ser ouvidas a fim de confirmar a versão.


O então sindicalista e futuro presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que, como vimos, também foi vigiado,
alertou os trabalhadores explicitamente sobre o chefe da segurança: “Dentro da Volks, alguns setores que vocês trabalham, a segurança fica de olho em vocês através de um circuito de televisão e o coronel Rudge fica o dia inteiro vendo televisão e vendo vocês trabalhando. Tomem cuidado porque o coronel Rudge e os tenentes do Exército que trabalham aí dentro, eles têm um circuito fechado de televisão onde conseguem ver vocês dentro da seção.”80



Segundo a denúncia encaminhada ao Ministério Público, a empresa vigiava os funcionários também fora de suas instalações. Rudge teria produzido relatório interno para a direção da Volkswagen em 1972 sobre o julgamento de Lúcio Bellentani e outros funcionários pelo Superior Tribunal Militar.
81


Adhemar Rudge foi convidado a depor no dia 18 de maio de 2016 pelo Ministério Público Federal em São Paulo. Segundo seus advogados, Rudge se submeteria naquele dia a uma intervenção médica no hospital e, por isso, estaria impedido de comparecer ao depoimento. Mas, em 23 de junho de 2016, a testemunha-chave apresentou-se aos procuradores e negou todas as acusações. Disse que era apenas
um funcionário subalterno. “Nós éramos subordinados ao diretor de relações industriais”, explicou Rudge, citando os nomes dos três diretores aos quais prestava contas: Admon Ganem, Jacy Mendonça e Mário Garnero. Com isso, a pergunta sobre a colaboração da empresa com os órgãos de repressão ganhou uma nova dimensão: uma espécie de quem é quem dos poderosos da economia brasileira, pois a trajetória profissional dos diretores da Volkswagen foi meteórica. Admon Ganem, depois de sair da empresa, se tornou diretor do Banco do Brasil. Jacy Mendonça ascendeu à diretoria da holding Autolatina e ocupou a vice-presidência da Fiesp. Mário Garnero continuou diretor da Volkswagen e cultivou fortes laços de amizade com o presidente da empresa, Wolfgang Sauer. Foi Garnero quem deu a Sauer a ideia de fundar a Brasilinvest. Sauer gostou da sugestão de convidar um grupo de transnacionais para capitalizar a empresa com dinheiro que depois seria investido no Brasil. A cerimônia de criação da Brasilinvest foi realizada em Salzburgo, na Alemanha, em 1975. Participaram oitenta empresas de dezesseis países. Sauer era membro do conselho administrativo da Brasilinvest. Garnero pediu várias vezes que as empresas participantes aumentassem o capital, até a iniciativa começar a adernar, o que atingiu também o presidente da Volkswagen do Brasil, que foi obrigado a renunciar ao cargo e teve seu patrimônio pessoal congelado.82


Outra vertente é a suposta perseguição e a espionagem de atividades sindicais. Em seu depoimento, Adhemar Rudge declarou que não tinha contatos com trabalhadores e que os sindicalistas podiam se movimentar livremente pela empresa. Como evidência, afirmou que, “se
havia uma greve, o pessoal da greve se reunia com o pessoal de relações trabalhistas, não com a gente”, e “o pessoal que era do sindicato, empregado da fábrica, eles tinham livre acesso, tinham liberdade de andar lá dentro”.83 A que período Rudge se referia com esta afirmação? Certamente não ao período que compreende os anos 1969 e 1974, a pior época da repressão no Brasil, em que atividades sindicais eram maciçamente oprimidas, e as greves, proibidas. A primeira greve na empresa ocorreria apenas em 1978.84


Rudge também negou que houvesse “listas negras” ou espionagem de atividades sindicais dentro ou fora da empresa. Quando o
procurador regional dos Direitos dos Cidadãos do Estado de São Paulo, Pedro Antônio de Oliveira Machado, mostrou a ele um documento com sua assinatura, Rudge respondeu: “Essa aqui não é a minha assinatura, essa rubrica não é minha, não.” E acrescentou, indignado: “Ninguém tem autorização para assinar com o meu nome.”


Rudge também negou a existência dos chamados “chiqueirinhos” na Volkswagen, pequenas salas para onde — segundo depoimento das vítimas — trabalhadores e trabalhadoras eram levados para interrogatórios individuais. “
Tudo era livre. Lá não tinha prisão para nada, não, senhora, a única coisa era que o sujeito era ouvido em uma sala grande, depois mandava a comunicação para o setor trabalhista.” Questionado pelo procurador se ele se lembrava das idas da esposa de Lúcio Bellentani à Volkswagen para obter informações sobre o paradeiro do marido e, depois, para pedir os documentos a fim de pedir o seguro de vida, Rudge respondeu secamente: “Nunca veio família pedir coisa nenhuma.” Sobre a prisão de Lúcio Bellentani no pátio da empresa, o coronel declarou: “Nunca foi preso ninguém. Nunca entrou um órgão de repressão lá. Nunca teve lá na empresa. Se prenderam, devem ter prendido o camarada lá fora. Eu teria conhecimento e não iria permitir.”85


Segundo carimbo de entrada na sede do Dops, em São Paulo, no dia 12 de setembro de 1974 chegou uma carta marcada como “confidencial”, datada de 10 de setembro de 1974 e endereçada ao diretor-geral do órgão repressivo, Lúcio Vieira. O remetente era Aluysio Simões de Campos, delegado regional do Ministério do Trabalho em São Paulo.
86 Na carta, Campos menciona as “informações prestadas pelo departamento de segurança industrial da Volkswagen do Brasil”. Ao que parece, a seção chefiada por Adhemar Rudge entre 1969 e 1991 redigira um relatório — datado de 9 de setembro de 1974 — caracterizado como “comunicação interna” e endereçado ao diretor de produção, ao departamento jurídico, ao departamento de produção e ao diretor do departamento de pessoal. O relatório estava assinado por Adhemar Rudge. Neste relatório, Rudge informa que “os ex-empregados desta empresa — Amauri Dagnoni, Annemarie Buschel, Antonio Torini, Geraldo Castro del Posso,87 Heinrich Plagge e Lúcio Antonio Bellentani — foram, conforme anexo, condenados pelo Superior Tribunal Militar por prática de subversão”.88 No parágrafo seguinte do documento, Rudge menciona que a empresa cuida da obtenção e transmissão de informações sobre metalúrgicos que não trabalham na Volkswagen.89


Até hoje não ficou esclarecido como este relatório chegou às mãos do delegado regional do Trabalho de São Paulo, que o repassou ao Dops. “
Não recebi e nem fazia comunicação”, explicou Rudge. “O nosso setor não era político, era só para tomar conta do patrimônio.” No entanto, alguns anos antes, o chefe de segurança dissera outra coisa. “Nos preveníamos, eventualmente com alguma troca de informações com o Dops.”90


Depois do depoimento de Adhemar Rudge, o procurador Pedro Antônio de Oliveira Machado declarou que, num primeiro momento, solicitara documentos somente à Volkswagen do Brasil, mas que, para esclarecer todas as acusações, faria um pedido oficial para o envio de todos os documentos eventualmente existentes na matriz da empresa, na Alemanha.


Reações diferentes: Volkswagen, Daimler e Siemens


Desde que o grupo de Acionistas Críticos começou a reivindicar da diretoria da Volkswagen esclarecimentos sobre o envolvimento com a ditadura na assembleia geral de acionistas, em maio de 2014,
91 solicitando que assumisse sua responsabilidade histórica, a empresa se mexeu bastante. Num primeiro momento, a reação dos diretores foi defensiva. O então diretor de produção, Michael Macht, alegou que as perguntas diziam respeito a processos muito antigos.92 Macht disse que a Volkswagen foi uma das primeiras companhias a tentar esclarecer sua responsabilidade na época do nazismo, ordenando a uma comissão de historiadores que examinasse sua atuação naquele período, e que esse seria o padrão para todas as suas subsidiárias. Se a Comissão Nacional da Verdade no Brasil encontrasse indícios sobre a cooperação de funcionários da Volkswagen com a ditadura, violando direitos humanos, a corporação se comprometeria a ajudar a esclarecer os fatos. E, se a cnv descobrisse provas quanto a violações de direitos humanos em que a Volkswagen do Brasil ou seus funcionários tivessem participado, faria tudo para esclarecer os fatos.93 Ele disse que a Volks não havia encontrado nada em seus arquivos e documentos, mas que colaboraria se o colegiado brasileiro tivesse informações a respeito.94 Não se passaram nem duas semanas até que a empresa apresentasse Manfred Grieger, professor de História na Universidade de Göttingen, como coordenador para comunicação histórica da Volkswagen, incumbido de estudar o passado da empresa e as possíveis conexões com a ditadura brasileira.


Em 27 de fevereiro de 2015, a Comissão da Verdade do Estado de São Paulo realizou pela primeira vez uma audiência pública sobre o envolvimento empresarial na repressão da ditadura civil-militar brasileira. Para essa sessão foram convidadas muitas das empresas mencionadas no relatório final da Comissão Nacional da Verdade por terem colaborado com os órgãos de repressão do regime. Participaram da audiência representantes da Cobrasma e da Volkswagen.


O representante da montadora alemã foi o diretor-executivo para assuntos jurídicos, Rogério Varga, quem esclareceu que a Volkswagen vinha analisando seus documentos e estava em um processo de aprendizado junto com a
cnv. “A Volks está aprendendo com esse processo de abertura. Nunca cogitamos não estarmos presentes aqui. Estamos analisando os documentos para entendê-los e contextualizá-los”, disse, informando, porém, que ainda não haviam encontrado documentos que comprovassem identificar de maneira inequívoca a empresa como colaboradora da ditadura. “A Volks não colaborou com órgãos de repressão. Não há documentos ou quaisquer evidências disso.”95


O então presidente da Comissão da Verdade do Estado de São Paulo, deputado estadual Adriano Diogo, criticou Rogério Varga e a empresa. “Quando eles vêm aqui, totalmente sem informações, sem admitir o papel das empresas, é como se continuassem rindo na nossa cara”, disse à agência Reuters. Diogo adiantou que a comissão repassaria todas as informações disponíveis ao Ministério Público. “A Volkswagen um dia vai explicar sua colaboração perversa com a ditadura.”
96


Apesar de todos os desmentidos do representante, é importante constatar que a abordagem do assunto na Volkswagen difere nitidamente da reação da Daimler e da Siemens — e a Daimler ainda tem mais autocrítica do que a Siemens.


Na assembleia de acionistas de 2015, a Daimler negou ter encontrado qualquer informação em seus arquivos. O presidente da empresa, Dieter Zetsche, disse que ex-funcionários teriam sido questionados, sem resultados concretos.
97 A Daimler também reagiu em comunicado por escrito ao grupo de Acionistas Críticos: “Até agora, a Daimler não foi procurada nem pelas autoridades brasileiras, nem pelas comissões da verdade que estão fazendo a revisão da época da ditadura militar. Acompanhamos o trabalho das comissões e já iniciamos pesquisas próprias. Até agora, nossas investigações não resultaram em nenhum indício sobre o apoio ao regime militar no Brasil. Tampouco encontramos provas para a afirmação de que a Mercedes-Benz do Brasil tenha apoiado financeiramente a organização paraestatal Oban, composta por militares e policiais. Tais provas também não podem ser encontradas no relatório final da Comissão Nacional da Verdade. O respeito e a atenção aos direitos humanos são de central importância para a Daimler. Naturalmente, estamos disponíveis para apoiar as autoridades e esclarecer os fatos.”98


Já a Siemens reagiu de maneira completamente diferente. Na assembleia de acionistas do dia 27 de janeiro de 2015, em Munique, o presidente da empresa, Josef Käser,
99 afirmou que a Siemens fizera buscas em seus arquivos, sem nada encontrar.100 O presidente do conselho de administração, Gerhard Cromme, não escondeu sua repulsa diante da responsabilidade histórica e não quis ouvir nada sobre o que eu, enquanto representante dos Acionistas Críticos, falava a respeito do envolvimento da companhia com a ditadura. Durante minha intervenção, Cromme simplesmente cortou o som do microfone:

Esses fatos aconteceram há quarenta anos, e nem eu nem o senhor sabemos direito o que aconteceu. As fontes não estão 100% claras. Por isso mesmo é preciso levar luz às trevas do passado… [O microfone é desligado.]

Senhor Russau, isso faz quarenta anos! O que nos interessa é a Siemens hoje, se tiver alguma pergunta a respeito da Siemens de hoje. [O microfone é religado.]101

Senhor Cromme, o senhor está difamando a memória das pessoas que morreram sob tortura! Isso é cinismo!


O que acontece com a causa Volkswagen e a ditadura brasileira?


A Volkswagen lamenta extraordinariamente o sofrimento infligido às vítimas durante a ditadura militar, eventualmente com a participação de funcionários da Volkswagen do Brasil”, declarou à imprensa o historiador da empresa, Manfred Grieger. Em setembro de 2015, depois da denúncia contra a Volks, ele garantiu que as vítimas seriam procuradas e convidadas a relatar suas experiências, e prometeu que os responsáveis pelas violações aos direitos humanos seriam “impiedosamente investigados”.102 “Trata-se de rever a injustiça que aconteceu à época”, disse.103


Em 1º de novembro de 2015, o jornal
O Estado de S. Paulo estampou a seguinte manchete: “Volkswagen negocia reparação judicial por apoio à repressão durante ditadura”. A notícia continuava: “Dirigente da matriz do grupo se reuniu com o MPF e disse ao jornal que pensa em ‘desenvolver memorial com outras instituições brasileiras’; montadora é a primeira empresa a admitir possibilidade após relatório da Comissão da Verdade”.104


A palavra “memorial” tem diversos significados — pode ser um museu ou mesmo uma placa afixada em um muro. O que permanece bastante incompreensível é como a agência de notícias France-Presse retraduziu a notícia de
O Estado de S. Paulo para o alemão: o provável “memorial” tornou-se um “escrito comemorativo”: “Uma ideia poderia ser desenvolver um escrito comemorativo junto com instituições brasileiras, como sindicatos”.105


Com relação às perguntas sobre indenizações da Volkswagen às vítimas detidas no local de trabalho com a cooperação do pessoal de segurança da empresa e, em seguida, levadas aos centros de tortura, ou que constavam das chamadas “lista negras”
106, a reportagem do jornal sugeria que a Volkswagen aceitara negociar. Um dia depois, no entanto, esta informação foi corrigida na imprensa alemã por Manfred Grieger. “Com relação à indenização que tem sido reivindicada reiteradas vezes, ainda não há avanços, porque não está claro de que forma seria feita.” Grieger enfatizou que seria importante ter outras conversas com as vítimas e garantiu que se poderia cogitar um pedido oficial de desculpas por parte de representantes da Volkswagen. Contudo, desmentiu que se houvesse aberto negociações sobre o pagamento de indenizações, como reportou o jornal.107 Novas conversas estavam programadas para 2016, segundo a agência de notícias alemã DPA. Mas, em outubro daquele ano, o historiador Manfred Grieger perdeu o cargo. A versão oficial dá conta de que houve um acordo, mas a imprensa alemã, brasileira e norte-americana levantaram a suspeita de que Grieger, um historiador internacionalmente respeitado, escolhera um caminho excessivamente crítico para a revisão do passado da Volkswagen. O motivo de sua saída teria sido a insatisfação de Grieger com a análise de um colega seu, também historiador, a pedido da Audi, subsidiária da Volkswagen, sobre o envolvimento do então executivo da empresa com o nazismo. Grieger criticara publicamente o trabalho, que julgou excessivamente acrítico. Assim, surgiram hipóteses de que a Volkswagen também engavetaria as tentativas de revisão histórica do envolvimento da empresa com a ditadura brasileira. Mas isso não ocorreu. Pouco depois da demissão, outro historiador igualmente bem reputado, Christopher Kopper, da Universidade de Bielefeld, assumiu a tarefa da revisão histórica da Volkswagen.

No final de julho de 2017, o consórcio de jornalismo investigativo formado pelas emissoras NDR e SWR e jornal Süddeutsche Zeitung publicou a análise de Kopper sobre o caso da seguinte maneira: “Volkswagen, cúmplice da ditadura militar no Brasil”. A investigação, veiculada pelo jornal108 e pelos canais de rádio109 e televisão,110 confirma que, durante a ditadura, a Volkswagen participou ativamente da perseguição política e da repressão a adversários do regime. Contratado pelo Ministério Público Federal em São Paulo especialmente para estudar o caso, o pesquisador Guaracy Mingardi confirmou: “A segurança interna agiu como um braço prolongado do Dops dentro da fábrica da Volkswagen”. Segundo as investigações, a Volkswagen do Brasil teria espionado os próprios funcionários, de acordo com suas inclinações políticas. O serviço de segurança da empresa funcionava como um serviço secreto interno, definiu um antigo trabalhador. “O esquema do serviço de segurança da fábrica era buscar as pessoas e prender por uma ou duas semanas ali mesmo, como num cárcere privado na própria fábrica.” A reportagem da ndr, swr e Süddeutsche Zeitung também ouviu o torturador José Paulo Bonchristiano, o “Mr. Dops”, nome pelo qual era chamado pelos próprios colegas. Sobre a colaboração da Volkswagen com o Dops, Bonchristiano disse: “A Volkswagen atendia rapidamente a qualquer demanda nossa. Se eu estivesse procurando algum elemento suspeito, por exemplo, eles diziam onde eu podia encontrá-lo. Éramos muito próximos.”

Membro do conselho de administração da Volkswagen do Brasil nos anos 1960 e, desde 1982, presidente da companhia em Wolfsburg, na Alemanha, Carl Hahn disse que nunca tinha ouvido falar das investigações do Ministério Público Federal em São Paulo. E desdenhou a relevância das investigações: “Não há mesmo nada mais importante para nós do que nos ocupar com o passado no Brasil?” Carl Hahn designou de “superdemocratas” aqueles que hoje se ocupam criticamente do passado. Disse que não foi nenhum problema para ele o fato de a democracia brasileira ter sido substituída por uma ditadura liderada pelos militares em meados dos anos 1960. “Isso não me tirou o sono na época. Não lembro ter chorado ao ver a democracia indo embora.”

Até hoje, Hahn enxerga a Volkswagen como o “salvador” que traz prosperidade. “Nós oferecíamos condições de trabalho que faziam as pessoas formarem fila”, afirma, sem se preocupar com frases politicamente incorretas. “Você precisa imaginar: sabe de onde vinham as pessoas? Do meio do mato.” E ainda: “Se você pensar a quantas repúblicas de bananas levamos a prosperidades… Somos hoje o maior empregador na Polônia, na República Tcheca, na Eslováquia, na Hungria, somos o maior pagador de impostos, o maior exportador. Contribuímos mais para o desenvolvimento na Europa Central com os nossos investimentos do que qualquer investidor estatal ou multiestatal. Ninguém fala disso.”

Jacy Mendonça trabalhou para a Volkswagen do Brasil entre 1969 e 1992. Inicialmente, chefiou o departamento jurídico, depois acumulou o cargo de diretor do departamento de recursos humanos. Na entrevista, explicou: “A economia crescia a 10% ao ano porque havia ordem no país”. E acrescentou: “Não gosto da expressão ‘ditadura militar’. Nunca tivemos uma ditadura no Brasil. Quem se queixa de ditadura é quem sentiu as consequências.” Sobre a acusação de prisões de funcionários dentro da fábrica da Volkswagen, Mendonça diz: “Nunca. Jamais algum militar sequer pisou na fábrica. Se alguém lhe contar isso, é mentiroso.” Alguns dias depois da entrevista, Jacy Mendonça enviou um livro a seus entrevistadores: “Para que você conheça o outro lado”, escreveu a mão, em um bilhete. O livro era A verdade sufocada: a história que a esquerda não quer que o Brasil conheça. O autor: Carlos Alberto Brilhante Ustra, o torturador.

O historiador Christopher Kopper disse à equipe de swr: “Posso afirmar que houve colaboração regular entre o serviço de segurança interna da Volkswagen do Brasil e os órgãos policiais do regime.” Kopper também responsabiliza a direção da Volkswagen pelas detenções dentro da fábrica: “A empresa permitiu as prisões. Possivelmente, ao informar suas observações sobre a distribuição de revistas comunistas, cooperou para que estes trabalhadores fossem detidos e levados pela polícia.” Kopper recomendou que a Volkswagen pedisse desculpas.

Como conclusão, a equipe de jornalistas investigativos da ndr, da swr e do Süddeutsche Zeitung dizem o seguinte: “A Volkswagen não foi apenas cúmplice, mas sim atora da repressão.” O relatório final de Christopher Kopper ainda não foi publicado.

Com a abertura da fase de coleta de provas pelo Ministério Público Federal em São Paulo, no final de 2015, a questão envolvendo eventuais pagamentos indenizatórios — sejam coletivos ou individuais, sendo que os últimos têm sido recusados pelas vítimas — depende dos tribunais. Nesse sentido, o procurador Pedro Machado disse que uma das soluções poderia ser um acordo entre as partes, mediado pelo Ministério Público Federal, e que resultaria, por exemplo, na criação de um fundo sob supervisão do mpf.111Queremos fazer um Termo de Ajustamento de Conduta. O objetivo é que o dinheiro da reparação seja depositado no Fundo de Interesses Difusos ou usado para a construção de um memorial ou museu sobre o período”, disse.112


Acordos extrajudiciais também são possíveis, mas não impedem automaticamente o andamento dos processos na justiça. As vítimas, assim como grupos de direitos humanos e ativistas, têm dito reiteradamente que, no atual estado das coisas, preferem que o Estado brasileiro examine, reconheça e puna as empresas pelo apoio que prestaram à repressão durante o regime militar, e fazem questão de que esse trâmite se dê através das instâncias judiciais, até chegar ao Supremo Tribunal Federal e, talvez, à Corte Interamericana de Direitos Humanos.

1Mais de 80 empresas colaboraram com a ditadura militar no Brasil”, em El País, 8 de setembro de 2014. Disponível em <http://brasil.elpais.com/brasil/2014/09/08/politica/1410204895_124898.html>.

2 “‘Comissão da Verdade acaba com qualquer nostalgia da ditadura’, diz Pedro Dallari”, em CartaCapital, 10 de dezembro de 2014. Disponível em <http://www.cartacapital.com.br/sociedade/comissao-da-verdade-acaba-com-qualquer-nostalgia-da-ditadura-diz-pedro-dallari-3513.html>.

3 Comissão Nacional da Verdade. Relatório, vol. i, p. 22.

4Livro revela pacto entre militares e civis para ocultar arquivos da ditadura”, em ihu Unisinos, 2 de outubro de 2015. Disponível em <http://www.ihu.unisinos.br/noticias/547369-livro-revela-pacto-entre-militares-e-civis-para-ocultar-arquivos-da-ditadura.>

5Curió abre arquivo e revela que Exército executou 41 no Araguaia”, em O Estado de S. Paulo, 20 de junho de 2009. Disponível em <http://politica.estadao.com.br/noticias/geral,curio-abre-arquivo-e-revela-que-exercito-executou-41-no-araguaia,390566>.

6 Marcelo Godoy. Casa da vovó: uma biografia do doi-Codi. São Paulo: Alameda, 2014.

7 O filme completo está disponível em <https://www.youtube.com/watch?v=37ixg7DencM>.

8 Comissão Nacional da Verdade: Relatório, vol. ii, p. 322.

9 Wolfgang s. Heinz & Hugo Frühling. Determinants of Gross Human Rights Violations by State and State Sponsored Actors in Brazil, Uruguay, Chile and Argentina: 1960–1990. Martinus Nijhoff Publishers: Haia, Boston & Londres, 1999, p. 167.

10 r. s. Rose. The Unpast: Elite Violence and Social Control in Brazil, 1954–2000. Ohio University Press: Athens, 2005, p. 183.

11 José Casado & Chico Otavio. “O elo da Fiesp com o porão da ditadura”, em O Globo, 9 de março de 2013. Disponível em <http://oglobo.globo.com/brasil/o-elo-da-fiesp-com-porao-da-ditadura-7794152>.

12 Idem.

13 Elio Gaspari. A ditadura escancarada. Companhia das Letras: São Paulo, 2002, p. 87.

14 Vasconcelos Quadros. “Ligação de empresários com a ditadura abre nova frente de indenização a vítimas”, em Último Segundo, 11 de maio de 2013. Disponível em <http://ultimosegundo.ig.com.br/politica/2013-05-11/ligacao-de-empresarios-com-a-ditadura-abre-nova-frente-de-indenizacao-a-vitimas.html>.

15 Celso Castro & Maria Celina D’Araujo. Os anos de chumbo: a memória militar sobre a repressão. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1994, p. 117, 154.

16 Sobre o currículo de João Baptista Leopoldo Figueiredo, ver verbete sobre ele na página do cpdoc-fgv. Disponível em <http://www.fgv.br/cpdoc/acervo/dicionarios/verbete-biografico/figueiredo-joao-batista-leopoldo>.

17 José Casado & Chico Otavio. “O elo da Fiesp com o porão da ditadura. Documentos revelam o ‘Dr. Geraldo’, que fez a ligação dos empresários paulistas com o Dops durante sete anos”, em O Globo, 9 de março de 2013. Disponível em <http://oglobo.globo.com/brasil/o-elo-da-fiesp-com-porao-da-ditadura-7794152>.

18 A Volkswagen do Brasil tinha uma diretoria, um conselho de administração e um conselho fiscal. Ver “VW do Brasil. Entwicklungshilfe im besten Sinne?” [Volkswagen do Brasil: ajuda ao desenvolvimento no melhor sentido?], em Brasilien Nachrichten, novembro de 1978, p. 120.

19 Christian Russau. “A cumplicidade da Câmara Brasil-Alemanha com a ditadura”, em Fundação Rosa Luxembirgo, 25 de outubro de 2016. Disponível em <http://rosaluxspba.org/a-cumplicidade-da-camara-brasil-alemanha-com-a-ditadura/>.

20Ligação de empresários com a ditadura abre nova frente de indenização a vítimas”, em Último Segundo, 11 de maio de 2013. Disponível em <http://ultimosegundo.ig.com.br/politica/2013-05-11/ligacao-de-empresarios-com-a-ditadura-abre-nova-frente-de-indenizacao-a-vitimas.html>.

21 Elio Gaspari. A ditadura escancarada. Companhia das Letras: São Paulo, 2002, p. 61; e João Paulo Stuart. “Delfim Netto ainda é aquele”, em Correio da Cidadania, 7 de fevereiro de 2013. Disponível em <http://www.correiocidadania.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=8083:politica070213&catid=25:politica&Itemid=47>.

22 Stuart, op. cit.

23Delfim Netto diz que não sabia de torturas na ditadura e defende o ai-5”, em Último Segundo, 25 de junho de 2013. Disponível em <http://ultimosegundo.ig.com.br/politica/2013-06-25/delfim-netto-diz-que-nao-sabia-de-torturas-na-ditadura-e-defende-o-ai-5.html>.

24 Antônio Carlos Fon. Tortura: a história da repressão política no Brasil. Global: São Paulo, 1979, p. 56.

25 Antônio Carlos Fon adota a grafia “Sawaia”, e assim seu nome aparece no livro da portaria. Outras fontes utilizam a grafia correta, “Sawaya”. Ver Fon, op. cit., p. 56. Ver ainda Heloisa Amélia Greco. Dimensões fundacionais da luta pela anistia. Departamento de História da fafich/ufmg: Belo Horizonte, 2003. Disponível em <http://www.bibliotecadigital.ufmg.br/dspace/bitstream/handle/1843/VGRO-5SKS2D/tese.pdf;jsessionid=97D89B184977313DEC9789B261695872?sequence=1#page=166>.

26 Livro de portaria do Dops, 28 de fevereiro de 1974 – 20 de junho de 1974, p. 22.

27Delfim Netto diz desconhecer financiamento de empresários a órgãos de repressão”, em Última Instância, 25 de junho de 2013. Disponível em <http://ultimainstancia.uol.com.br/conteudo/noticias/64189/delfim+netto+diz+desconhecer+financiamento+de+empresarios+a+orgaos+de+repressao.shtml>.

28 É preciso levar em conta que as entradas e saídas foram anotadas por porteiros diferentes. Isso explica, de um lado, a grafia divergente: “Savaia”, “Sawaia” e “Sawaya”. Por outro lado, significa uma potencial fonte de erros. “Delfim Netto diz desconhecer financiamento de empresários a órgãos de repressão”, op. cit.

29 Livro de portaria do Dops, 1º de fevereiro de 1972 – 22 de março de 1972, p. 24.

30 José Casado & Chico Otavio, op. cit.

31 Aqui também deve-se atentar para a evidente troca do aposto do sobrenome, de “Filho” para “Júnior”. Ver Comissão Nacional da Verdade: Relatório, v. i, tomo I, p. 170.

32 Comissão Nacional da Verdade. “Mortos e Desaparecidos. Junho de 1973 – abril de 1974”, em Relatório, p. 614.

33 Fon, op. cit., p. 56 e segs.

34 Lateinamerika Nachrichten, nº 77, dezembro de 1979. Disponível em <http://lateinamerika-nachrichten.de/wp-content/uploads/2014/12/LN77_Web.pdf#page=9>.

35 Para os processos referentes ao espólio, ver <http://www.jusbrasil.com.br/topicos/43935349/espolio-de-robert-carlos-lentz-plassing>.

36Rechtsterroristen im Dienst von Multis? Schweres Geschütz gegen den bbc-Konzern” [Terroristas de direita a serviço das multinacionais? Tiroteio cerrado contra o conglomerado bbc], em Neue Zürcher Zeitung, 22 de novembro de 1979, p. 26.

37 Idem.

38 Martina Spohr. “A relação empresarial-militar entre Brasil e Estados Unidos no golpe de 1964”, em Militares e Política, nº 9, julho-dezembro de 2011, p. 61.

39 José Casado e Chico Otavio, op. cit.

40Comissão da Verdade de sp começa investigar participação de empresas na ditadura”, em Agência Brasil, 27 de fevereiro de 2015. Disponível em <http://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2015-02/comissao-da-verdade-de-sp-comeca-investigar-participacao-de>.

41Ecos da ditadura: Advogados e sindicalistas entram na Justiça contra a Volkswagen”, em Sputnik News, 24 de setembro de 2015. Disponível em <https://br.sputniknews.com/brasil/201509242229378/>.

42 A lista completa dos torturadores cuja identidade foi revelada está disponível em <http://www.documentosrevelados.com.br/wp-content/uploads/2014/12/torturadorespdf.pdf#page=111>.

43 Os livros de controle de visitação da portaria do Dops foram encontrados no Arquivo de São Paulo. Estavam lá os volumes para os períodos de 30 de março de 1971 – 15 de outubro de 1971, 1º de fevereiro de 1972 – 22 de março de 1972, 7 de novembro de 1973 – 22 de fevereiro de 1974, 28 de fevereiro de 1974 – 20 de junho de 1974, 25 de abril 1975 – 14 de junho de 1976 e 29 de dezembro de 1977 – 8 de janeiro de 1979. Disponível em <http://www.arquivoestado.sp.gov.br/site/acervo/repositorio_digital/portaria_deops>.

44 Comissão Nacional da Verdade. Relatório, vol. i, 2014, p. 170.

45Indícios mostram ligação dos eua e Fiesp com tortura”, em Revista Fórum, 20 de fevereiro de 2013. Disponível em <http://www.revistaforum.com.br/rodrigovianna/plenos-poderes/novos-indicios-mostram-ligacao-dos-eua-e-da-fiesp-com-tortura/>.

46O relatório da Comissão da Verdade: o empresariado e a repressão”, em Correio da Cidadania, 11 de dezembro de 2014. Disponível em <http://www.correiocidadania.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=10324%3Asubmanchete111213&catid=72%3Aimagens-rolantes&>.

47 Ivan Akselrud de Seixas & Silvana Aparecida de Souza. “Comissão Nacional da Verdade e a rede de comissões estaduais, municipais e setoriais: a trajetória do Brasil”, em Estudos sociológicos Araraquara, vol. 20, nº 39, julho-dezembro. 2015, p. 356. Disponível em <http://seer.fclar.unesp.br/estudos/article/viewFile/7895/5627>.

48Fiesp e cia: os estranhos visitantes do Dops”, em Brasil de Fato, 15 de fevereiro de 2013. Disponível em <http://antigo.brasildefato.com.br/node/11968>.

49O elo da Fiesp com o porão da ditadura. Documentos revelam o ‘Dr. Geraldo’, que fez a ligação dos empresários paulistas com o Dops durante sete anos”, em O Globo, em 9 de março de 2013. Disponível em <http://oglobo.globo.com/brasil/o-elo-da-fiesp-com-porao-da-ditadura-7794152>.

50 Idem.

51O relatório da Comissão da Verdade: o empresariado e a repressão”, em Correio da Cidadania, 11 de dezembro de 2014. Disponível em <http://www.correiocidadania.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=10324%3Asubmanchete111213&catid=72%3Aimagens-rolantes&>.

52 Lateinamerika Nachrichten, nº 77, dezembro de 1979. Disponível em <http://lateinamerika-nachrichten.de/wp-content/uploads/2014/12/LN77_Web.pdf#page=8>.

53 Kurt Rudorf Mirow. A ditadura dos cartéis: anatomia de um subdesenvolvimento. Civilização Brasileira: Rio de Janeiro, 1977.

54 Lateinamerika Nachrichten, nº 77, dezembro de 1979. Disponível em <http://lateinamerika-nachrichten.de/wp-content/uploads/2014/12/LN77_Web.pdf#page=10>.

55Comissão da Verdade de SP começa investigar participação de empresas na ditadura”, op. cit.

56 Processo nº 1.34.001.006706/2015-26: vol. ii, p. 160, anexo 08, soz/341/1138, Dops/Apesp.

57 Maria José H. Coelho & Vera Rotta (org.). Livro dos votos da Comissão de Anistia: verdade e reparação aos perseguidos políticos no Brasil, p. 265. Disponível em <http://www.justica.gov.br/central-de-conteudo/anistia/anexos/livro-dos-votos-versao-final-20-08-2013.pdf#page=265>.

58 Processo nº 1.34.001.006706/2015-26.

59The ‘Black List’. Documents suggest foreign automakers aided Brazil’s dictators” [A ‘lista negra’: documentos sugerem que montadoras estrangeiras apoiaram ditadores brasileiros], em Reuters, 5 de agosto de 2014. Disponível em <http://www.reuters.com/investigates/special-report/brazil-dictatorship-companies/>.

60 Mario Schenk. “vw Brasilien beschattete späteren Präsidenten Lula” [Volkswagen do Brasil espionou futuro presidente Lula], em Amerika 21, 13 de setembro de 2014. Disponível em <https://amerika21.de/2014/09/106398/vw-brasilien-lula-diktatur>.

61 Processo nº 1.34.001.006706/2015-26, p. 15.

62 Processo nº 1.34.001.006706/2015-26, anexo i, p. 4.

63Empresariado e Ditadura Militar: repressão ao movimento operário”, em Convergência. Disponível em <http://blogconvergencia.org/?p=5067&print=print>.

64 Processo nº 1.34.001.006706/2015-26, anexo i, p. 4.

65Ao menos 70 empresas colaboraram com a ditadura”, em CartaCapital, 8 de setembro de 2014. Disponível em <http://www.cartacapital.com.br/politica/ao-menos-70-empresas-colaboraram-com-a-ditadura-5660.html>.

66 BrianWinter. “The ‘Black List’. Documents suggest foreign automakers aided Brazil’s dictators” [A “lista negra”: documentos sugerem que multinacionais de automóveis apoiaram os ditadores do Brasil], em Reuters, 5 de agosto de 2014. Disponível em <http://www.reuters.com/investigates/special-report/brazil-dictatorship-companies/>.

67 Em meados dos anos 1970, a Volkswagen do Brasil era a empresa de maior faturamento da América Latina.Ver “vw do Brasil. Entwicklungshilfe im besten Sinne?”, em Brasilien Nachrichten, novembro de 1978, p. 59.

68 Processo nº 1.34.001.006706/2015-26, s. 13.

69 Julio Segador. “Die umstrittene Rolle von vw während der Militärdiktatur” [O controverso papel da Volkswagen durante a ditadura militar], em Deutschlandfunk, 21 de março de 2015. Disponível em <http://www.deutschlandfunk.de/brasilien-die-umstrittene-rolle-von-vw-waehrend-der.799.de.html?dram:article_id=314919>.

70Diretoria da Fiesp foi ponto de partida de negócios entre indústria e ditadura em 64, diz ex-membro da aln”, em Última Instância, 29 de março de 2014. Disponível <http://ultimainstancia.uol.com.br/conteudo/noticias/70003/diretoria+da+fiesp+foi+ponto+de+partida+de+negocios+entre+industria+e+ditadura+em+64+diz+ex-membro+da+aln.shtml>.

71 René Armand Dreifuss. 1964: A conquista do Estado: ação política, poder e golpe de classe. Editora Vozes: Petrópolis, 1981, p. 249.

72 Diário Oficial do Estado de São Paulo, 9 de julho de 1963. Disponível em <http://www.jusbrasil.com.br/diarios/4615269/pg-84-poder-executivo-parte-1-diario-oficial-do-estado-de-sao-paulo-dosp-de-09-07-1963>.

73 Luiz Alberto Moniz-Bandeira. Wachstumsmarkt Brasilien: Der deutsche Wirtschafts- und Handelsbeitrag in Geschichte und Gegenwart [Mercado em crescimento no Brasil: a contribuição da economia e do comércio alemães no passado e no presente]. Springer Gabler: Wiesbaden, 2013, p. 155.

74 Luiz Ramalho. Carta à Deutsch-Brasilianische Gesellschaft, 8 de dezembro de 2013.

75Constituída cpi para apurar candidatos que teriam recebido financiamento do ibad e do Ipes”, em Câmara e história. Disponível em <http://www2.camara.leg.br/camaranoticias/radio/materias/camara-e-historia/336061-1963–%c3%89-constitu%c3%8dda-cpi-para-apurar-candidatos-que-teriam-recebido-financiamento-do-ibad-e-ipes-(07′-00%22).html>.

76 Ver transcrição da sessão de 16 de dezembro de 2015.

77 Ver transcrição da sessão de 27 de abril de 2016. Um resumo pode ser encontrado em “Ermittlungen gegen VW do Brasil wegen Verstrickung in brasilianische Militärdiktatur ausgeweitet”, em Kooperation Brasilien, 17 de maio de 2016. Disponível em <https://www.kooperation-brasilien.org/de/themen/menschenrechte-gesellschaft/ermittlungen-gegen-vw-do-brasil-wegen-verstrickung-in-brasilianische-militaerdiktatur-ausgeweitet>.

78 Idem.

79 Processo de nº 1.34.001.006706/2015-26, p. 38.

80 Processo nº 1.34.001.006706/2015-26, p. 29.

81 Processo nº 1.34.001.006706/2015-26, s. 30.

82Ascensão e queda de Wolfgang Sauer, o mais influente ceo do país”, em Jornal GGN, 1º de maio de 2013. Disponível em <http://jornalggn.com.br/blog/ascensao-e-queda-de-wolfgang-sauer-o-mais-influente-ceo-do-pais>.

83mpf requer documentos na Alemanha de crime na Volks”, em Diário do Grande abc, 24 de junho de 2016. Disponível em <http://www.dgabc.com.br/Noticia/1977815/mpf-requer-documentos-na-alemanha-de-crime-na-volks>.

84 Brasilien Nachrichten, nº 24, maio de 1978, p. 16.

85 mpf requer documentos na Alemanha de crime na Volks”, op. cit.

86 Ver o relatório histórico da Fundacentro, do Ministério do Trabalho. Disponível em <http://www.fundacentro.gov.br/resgate-historico/rbso40-anos>.

87 Adhemar Rudge cometeu um erro de grafia em seu relatório: o nome correto é Geraldo Castro del Pozo, nascido em 15 de setembro de 1957 em Madri, na Espanha. Um prontuário sobre sua vida está disponível em <http://www.arquivoestado.sp.gov.br/memoriapolitica/fichas.php?pesq=1&nome=Geraldo+Castro+del+Pozo&ano_inicial=&ano_final=&prontuario=&organizacao=&acervo=&Reset2=Buscar>.

88 Processo nº 1.34.001.006706/2015-26: vol. ii, p. 160, anexo 08, soz/341/1138, Dops/Apesp.

89 Processo nº 1.34.001.006706/2015-26, s. 30.

90 José Casado. “Operários em greve desafiaram perseguição”, em O Globo, 15 de maio de 2005. Disponível em <http://www2.camara.leg.br/atividade-legislativa/comissoes/comissoes-permanentes/cdhm/rede-parlamentar-nacional-de-direitos-humanos/perseguicao>.

91 Ver em detalhes o site dos Acionistas Críticos em <http://kritische-aktionaere.de/fileadmin/Dokumente/Reden_2014/Rede_Christian_Russau_Volkswagen_HV_2014.pdf> e <http://kritische-aktionaere.de/fileadmin/Dokumente/Gegenantraege_2014/KA-Gegenantrag_VW_2014.pdf>.

92 Christian Russau. “vw do Brasil und die Militärdiktatur. Was hat Volkswagen do Brasil während der Zeit der brasilianischen Militärdiktatur getan — oder nicht getan? [vw do Brasil e a ditadura militar. O que a Volkswagen do Brasil fez durante a era da ditadura militar brasileira — ou não fez?], em Kooperation Brasilien, 16 de julho de 2014. Disponível em <https://www.kooperation-brasilien.org/de/themen/menschenrechte-gesellschaft/50-jahre-militaerputsch/50-jahre-militaerputsch/vw-do-brasil-und-die-militaerdiktatur>.

93 Idem.

94Volkswagen diz que esclarecerá eventuais suspeitas sobre violação de direitos humanos durante ditadura”, Opera Mundi, 13 de maio de 2014. Disponível em <http://operamundi.uol.com.br/conteudo/noticias/35247/volkswagen+diz+que+esclarecera+eventuais+suspeitas+sobre+violacao+de+direitos+humanos+durante+ditadura.shtml>.

95 Christian Russau. “Wahrheitskommission São Paulo: Erste Befragung von vw wegen Militärdiktatur” [Comissão da Verdade de São Paulo: Primeiro interrogatório da vw sobre a ditadura militar], em Latinorama, 2 de março de 2015. Disponível em <http://blogs.taz.de/latinorama/2015/03/02/wahrheitskommission-sao-paulo-erste-befragung-von-vw-wegen-militaerdiktatur/>.

96Brazil probe of dictatorship period not satisfied by Volkswagen testimony”, em Reuters, 17 de fevereiro de 2015. Disponível em <http://www.reuters.com/article/brazil-dictatorship-companies-idUSL1N0W132020150228>.

97 Citada na cnv, dona da Mercedes é questionada por acionistas sobre elo com ditadura brasileira; empresa nega”, em Opera Mundi, 1º de abril de 2015. Disponível <http://operamundi.uol.com.br/conteudo/noticias/39998/citada+na+cnv+dona+da+mercedes+e+questionada+por+acionistas+sobre+elo+com+ditadura+brasileira+empresa+nega.shtml>.

98 Para detalhes das reconvenções e das respostas da diretoria da Daimler, ver “Stellungnahme der Verwaltung zu den Gegenanträgen zur Hauptversammlung am 1 April 2015”. Disponível em <http://www.daimler.com/dokumente/investoren/hauptversammlung/daimler-ir-hv-gegenantraegestellungnahmeverwaltung-2015.pdf>.

99 Usamos a grafia Josef Käser em vez de Joe Kaeser. Sobre isso, ver “Wenn aus Josef Käser plötzlich Joe Kaeser wird”, em Die Welt, 2 de agosto de 2013. Disponível em <http://www.welt.de/wirtschaft/article118626265/Wenn-aus-Josef-Kaeser-ploetzlich-Joe-Kaeser-wird.html.>

100Relatório da cnv: sócios alemães pedem que Siemens explique envolvimento com ditadura brasileira”, em Opera Mundi, 30 de janeiro de 2015. Disponível em <http://operamundi.uol.com.br/conteudo/noticias/39338/relatorio+da+cnv+socios+alemaes+pedem+que+siemens+explique+envolvimento+com+ditadura+brasileira.shtml.>

101Rede bei der Hauptversammlung der Siemens ag 27. Januar 2015” [Ata da assembleia de acionistas da Siemens em 27 de janeiro de 2015]. Disponível em <http://www.kritischeaktionaere.de/fileadmin/Dokumente/Reden_2015/Rede_Christian_Russau_Siemens_HV_2015.pdf>.

102Brasilien-Skandal gesellt sich zu Dieselgate” [O escândalo Brasil se irmana ao “dieselgate”], em dpa, 28 de setembro de 2015. Disponível em <http://www.rp-online.de/wirtschaft/brasilien-skandal-gesellt-sich-zu-dieselgate-aid-1.5427613>.

103 Verfolgung und Folter: vw will Verwicklungen in brasilianischer Diktatur aufarbeiten” [Perseguição e tortura: a Volkswagen quer investigar envolvimentos na ditadura brasileira], em Spiegel Online, 2 de novembro de 2015. Disponível em <http://www.spiegel.de/wirtschaft/unternehmen/volkswagen-in-brasilien-vw-will-diktatur-geschichte-aufarbeiten-a-1060622.html>.

104Volkswagen negocia reparação judicial por apoio à repressão durante ditadura”, em O Estado de S. Paulo, 1º de novembro de 2015. Disponível em <http://politica.estadao.com.br/noticias/geral,volkswagen-negocia-reparacao-judicial-por-apoio-a-repressao-durante-ditadura,1789314>.

105vw zu Ausgleich für Kooperation mit Brasiliens Diktatur bereit” [Volkswagen disposta a reparações pela cooperação com a ditadura do Brasil], em afp, 2 de novembro de 2015. Disponível em <http://www.zeit.de/news/2015-11/02/deutschland-vw-zu-ausgleich-fuer-kooperation-mit-brasiliens-diktatur-bereit-02011804>. Sobre o mesmo tema, ver Christian Russau. “Zeitung Estadão meldet: vw zu Entschuldigung und Entschädigung wegen Diktaturverstrickung bereit” [O jornal Estadão noticia: a Volkswagen está disposta a pedir desculpas e indenizar devido a envolvimentos com a ditadura], em Kooperation Brasilien, 1º de novembro de 2015. Disponível em <http://www.kooperation-brasilien.org/de/themen/menschenrechte-gesellschaft/zeitung-estadao-meldet-vw-zu-entschuldigung-und-entschaedigung-wegen-diktaturverstrickung-bereit>.

106 Trabalhadores de São Bernardo do Campo já falavam sobre essas chamadas ‘listas negras’ em 1978, ver “vw do Brasil. Entwicklungshilfe im besten Sinne?” [Volkswagen do Brasil: ajuda de desenvolvimento no melhor sentido?], em Brasilien Nachrichten, novembro de 1978, p. 96.

107Aufarbeitung in Brasilien vw geht auf Diktatur-Opfer zu” [Volkswagen do Brasil se aproxima de vítimas da ditadura], em n-tv, 2 de novembro de 2015. Disponível em <http://www.n-tv.de/wirtschaft/VW-geht-auf-Diktatur-Opfer-zu-article16267016.html>.

108Ohne Bedauern”, em Süddeutsche Zeitung, 23 de julho de 2017. Disponível em <http://www.sueddeutsche.de/politik/brasilien-ohne-bedauern-1.3599959?reduced=true>. Tradução para o português em “A Volks e a ditadura”, em Fundação Rosa Luxemburgo, 28 de julho de 2017. Disponível em <http://rosaluxspba.org/sem-arrependimentos/>.

109Komplizen? vw und Brasiliens Militärdiktatur”, em ndr, 10 de agosto de 2017. Disponível em <https://www.ndr.de/info/podcast4344.html>.

110Video: Komplizen? – vw und die brasilianische Militärdiktatur”, em Das Erste, 24 de julho de 2017. Disponível em <http://www.daserste.de/information/reportage-dokumentation/dokus/videos/komplizen-vw-und-die-brasilianische-militaerdiktatur-114.html>.

111Parceria entre Volks e ditadura abre novo campo de investigação para o Ministério Público Federal”, em Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias de Confecção e de Vestuário de Guarulhos, 23 de setembro de 2015. Disponível em <http://sindvestuario.org.br/novo/?p=19437>.

112Volkswagen negocia reparação judicial por apoio à repressão durante ditadura”, em O Estado de S. Paulo, 1º de novembro de 2015. Disponível em <http://politica.estadao.com.br/noticias/geral,volkswagen-negocia-reparacao-judicial-por-apoio-a-repressao-durante-ditadura,1789314>.