Introdução

A importância deste livro

Ex-presidente Walter Scheel e ex-ditador Ernesto Geisel, em 1978. Local: Bonn, Alemanha.


A Alemanha é um país especialmente importante para o Brasil, e isso há bem mais tempo do que quando seus governos assinaram o Plano de Ação da Parceria Estratégica, em maio de 2008. São Paulo é a cidade com a maior concentração de indústrias alemãs em todo o mundo. Subsidiárias de montadoras germânicas se estabeleceram no Brasil nos anos 1950 e, na primeira metade dos anos 1970, quase toda a indústria do país já havia inaugurado filiais em território brasileiro. Químicas, farmacêuticas, fabricantes de autopeças e metalúrgicas: todos queriam fazer parte do mercado consumidor brasileiro. Com isso, os bancos alemães também aumentaram sua atuação no Brasil, assim como o ramo de seguros e, nos últimos anos, de resseguros. Todos os atores globais da economia alemã estão ativos no Brasil: hoje, só no setor da indústria, cerca de mil e trezentas empresas empregam cerca de 250 mil pessoas, gerando entre 10% e 12% do
PIB industrial brasileiro.1


Nas últimas décadas, por outro lado, grupos sindicais, redes de solidariedade e meio ambiente e associações religiosas e de direitos humanos dos dois países vêm firmando e consolidando relações, cooperando e auxiliando-se mutuamente em campanhas políticas e informativas, em um ativo intercâmbio que ocupa lugar especial no cenário internacional.


Esta é uma das razões pelas quais os conglomerados alemães ativos no Brasil se veem mais expostos à observação crítica do que empresas transnacionais de outros países. Em grande medida, é a essa vigilância que se deve o fato de as empresas alemãs terem, desde a década de 1980, uma grande preocupação em projetar uma reputação pública como “bons parceiros”. Quando se referem às atividades que exercem no Brasil, não há empresa alemã que não se orgulhe de sua “responsabilidade social” e de sua grande relevância em assuntos de “sustentabilidade”, “proteção ambiental” e “fomento ao desenvolvimento”.


Mas até que ponto esse discurso resiste a um confronto com a realidade? O monitoramento da sociedade civil resultou — e continua resultando — em escândalos. Quando os investimentos, as participações ou a cadeia de fornecedores das empresas alemãs entram em conflito (direto ou indireto) com os direitos humanos ou ambientais, campanhas informativas podem ajudar a levar esses problemas aos meios de comunicação. Com uma frequência cada vez maior, os atingidos e os ativistas expressam seu descontentamento nas assembleias anuais dessas empresas, em que altos executivos precisam se posicionar publicamente.


No entanto, considerando as relações de poder, ainda é ilusório achar que o comportamento das grandes companhias possa mudar da noite para o dia — ou, ainda, acreditar que se possa responsabilizá-las judicialmente. Para isso, faltam instrumentos legais, seja um conjunto de leis empresariais em nível nacional, sejam regulamentações jurídicas internacionais que possam responsabilizar os conglomerados pela ação no exterior. No entanto, poucas situações são tão dolorosas para executivos de grandes empresas como quando eles precisam justificar suas atitudes perante a opinião pública — e, principalmente, perante os próprios acionistas. Acontece, embora raramente, de eles repensarem o planejamento e começarem a rever gradualmente suas ações futuras.


No entanto, as companhias alemãs nunca estiveram sozinhas nessa disputa. Quando se trata de assuntos econômicos, de fomento à exportação e de investimentos externos, o poder público alemão sempre foi muito mais ativo que a maioria dos outros governos. Há muito tempo, os interesses econômicos e políticos alemãos cooperam nas relações teuto-brasileiras, e a política muitas vezes, e de diversas maneiras, serve aos interesses econômicos.


O foco desse livro está, portanto, na ação das companhias alemãs no Brasil. Num primeiro momento, a obra investiga as parcerias amorais entre os dois países, expressas no comércio de armas e no treinamento militar (capítulo 1) e na tecnologia nuclear (capítulo 2), nas quais as violações de direitos humanos têm sido consideradas uma espécie de dano colateral inevitável de importantes negócios.


Os políticos alemães não quiseram se dar o “luxo de sentimentalismos” quando os negócios com o Brasil começaram a decolar, no final dos anos 1960, no auge da ditadura. Àquela altura, a Volkswagen do Brasil já era a maior multinacional da América Latina. Neste sentido, juntando as fontes de informação conhecidas até agora — assim como aquelas que até hoje não mereceram a devida atenção — e ouvindo também vítimas da tortura e da repressão, o capítulo 3 tenta fazer um retrospecto histórico para elucidar até que ponto a montadora colaborou com os órgãos do regime militar.


Em seguida, o livro examina as atuais relações econômicas dos dois países e tenta apurar a falta de responsabilidade empresarial nas cadeias de abastecimento. Terceiro maior fabricante de veículos do mundo, ao lado do Japão, e depois da China e dos Estados Unidos, a Alemanha importa muita matéria-prima do exterior — entre ela, o minério de ferro do Brasil. As reportagens no Maranhão (capítulo 4) e no Rio de Janeiro (capítulo 5) tratam das pessoas atingidas pela extração e pelo processamento desse circuito primário-exportador, marcado pela violação de direitos humanos e pela destruição ambiental, mazelas que andam de mãos dadas com a extração de recursos naturais. Os consumidores têm parcela de responsabilidade nesse cenário, o que inclui as grandes empresas e os consumidores na Alemanha.


O capítulo 6 aborda o caso de empresas que participam do jogo aparentemente de maneira indireta, vendendo seguros para projetos de barragens na Amazônia, por exemplo, e que, no passado, jamais consideraram os efeitos danosos dos projetos que auxiliam.


A partir do exemplo brasileiro, nos capítulos 7 e 8, o livro também analisa as consequências ambientais e sociais da agroindústria: a concentração fundiária no campo, a expulsão de camponeses de suas terras, a falta de acesso à propriedade rural e a contaminação da água e do solo por agrotóxicos. O livro também questiona o chamado
double standard, o famoso “dois pesos e duas medidas”, evidenciado pela baixa qualidade dos produtos que as indústrias químicas alemãs, como BASF e Bayer, oferece aos consumidores brasileiros quando comparados à mercadoria que comercializam na Alemanha.


Relatamos ainda as reações dos executivos das multinacionais ao prestar contas às assembleias de acionistas, reagindo às acusações concretas de abuso aos direitos humanos e destruições ambientais em que as suas empresas tiveram responsabilidade direta ou indireta.


No capítulo 9, por fim, analisamos o comportamento das empresas diante da insuficiência da responsabilidade social corporativa, e abordamos as recentes tendências que, futuramente, pretendem responsabilizar as grandes companhias que falhem nesse intento. Debatemos as dificuldades, as limitações e os desafios associados às futuras regulações por meio de leis nacionais e internacionais, e evocamos os atores da sociedade civil brasileira e alemã, cujos tradicionais trabalho em rede, resistência, solidariedade e auto-organização apontam para um promissor “podemos fazer de outro jeito”.

Sobre o nosso subtítulo, o 7×1 na economia, o que menos pretendemos é evocar sentimentos de humilhação nos leitores brasileiros. Como o livro mostra nos primeiros sete capítulos, que são exemplares e de nenhuma forma exaustivos, as empresas estão “goleando” os direitos humanos e a natureza do país. É evidente que as reações “de baixo”, esboçadas em toda a obra, mas especialmente no último capítulo, ainda não são suficientes. E resta saber se teremos condições de virar o jogo.


Ontem e hoje, o que sempre falou mais alto a esses conglomerados empresariais foi o dinheiro. Na época do réis, do cruzeiro, do cruzeiro novo, do cruzado, do cruzado novo, do cruzeiro real ou do real, a política alemã sempre se apressou em prestar seu “apoio” à economia brasileira.


É sintomático que a “relação especial” entre os países tenha se iniciado com a venda de armas, como em uma paródia do Evangelho de São João, em que se deixa o Verbo de lado e se decreta: “No princípio, eram os canhões.” E aqui estamos.

1Ver o relatório do ministério alemão para Alimentação, Agricultura e Defesa do Consumidor. Länderbericht Brasilien. Atualizado em abril de 2013. Disponível em <www.bmel.de/SharedDocs/Downloads/Veranstaltungen/04-06-AUWITAG-LaenderberichtBrasilien.pdf?__blob=publicationFile>.