Capítulo 7

Lavoura para o mercado mundial


Quinta-feira, 11 de agosto de 2016. Enquanto atletas do mundo inteiro se enfrentam na disputa por medalhas nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, uma multidão se reúne para lutar pela própria vida em frente ao prédio da embaixada alemã em Brasília, a 1.150 quilômetros de distância. São duzentos indígenas das etnias Pataxó Hã-Hã-Hãe, Tupinambá, Kaingang, Guarani Mbya, Gavião, Gamela, Krikati, Macuxi, Mura, Kambeba e Maraguá, além de quilombolas e pequenos pescadores de várias regiões do Brasil. O recado é claro: “Viemos até a embaixada da Alemanha […] para manifestar o nosso entendimento de que, ao importar esses produtos oriundos do agronegócio do Brasil, a Alemanha está contribuindo para fortalecer esse setor agressivo e violento contra nossos direitos, nossas lideranças, nossas vidas”, escrevem os povos indígenas na carta aberta entregue à embaixada. “Muitos países, de modo particular a Alemanha, importam as
commodities produzidas por esse setor extremamente agressivo aos direitos humanos e, em especial, agressivo e violento contra nós, indígenas, quilombolas, pescadores e pescadoras artesanais, dentre outras comunidades tradicionais”, diz o texto. “Por isso, pedimos que o senhor embaixador leve ao conhecimento das demais autoridades políticas da Alemanha a informação desta nossa visita à embaixada e as preocupações e angústias que nos motivam a fazer esta visita e lhe entregar este documento. Com o devido respeito, sugerimos que o senhor convide os representantes do Instituto Pensar Agropecuária (IPA), das associações de produtores das respectivas commodities importadas do Brasil pela Alemanha, da Frente Parlamentar Agropecuária (Bancada Ruralista), da Confederação Nacional da Agricultura (CNA) para conversar, e manifeste a eles a preocupação da Alemanha com o respeito aos direitos humanos dos povos originários, quilombolas, populações tradicionais. Sugerimos ainda que a Alemanha indique aos setores exportadores do Brasil a perspectiva de proceder a revisão e suspensão de contratos de importação de commodities agrícolas oriundas do Brasil como medida concreta para nos ajudar a promover a necessária mudança de postura e atuação desses setores exportadores em relação aos nossos direitos, aos nossos povos e às nossas lideranças. Entendemos que essa iniciativa demonstraria a intencionalidade da Alemanha em não compactuar e não colaborar com a morte de nossas lideranças.”1


Ações semelhantes já tinham sido realizadas no mês anterior, também por representantes de povos indígenas, em frente às embaixadas de Portugal, Rússia, Estados Unidos, Holanda, Canadá, França e China.
2 “Os territórios indígenas continuam sem ser demarcados, grilados por fazendeiros, e isso vem criando um transtorno e uma tristeza muito grandes”, disse a liderança indígena da Bahia Nailton Pataxó diante da embaixada, acrescentando: “Há muitos assassinatos em muitas comunidades, muitos estão morrendo por não ter sua alimentação garantida.” Iracema Kaingang, liderança da Terra Indígena Borboleta, no Rio Grande do Sul, também participou da manifestação,3 e fez um apelo dramático aos diplomatas alemãos: “A soja que plantam, com aquele que nós chamamos de passarinho grande [avião], que larga aquele pó em cima e cai na nossa água, isso já envenena a gente. Eu trabalho com meus chás, meus remédios. Eles nos curam, mas não curam o veneno. Então, para vocês, que são conhecidos desses aí, fazemos um apelo por nossa vida. A gente gosta muito de viver. A gente luta pelos nossos filhos.”4


De acordo com estatísticas da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação
(FAO), o país é o maior produtor e exportador de açúcar, café e suco de laranja.5 No caso de aves e etanol derivado da cana-de-açúcar, é o maior exportador. No ranking da produção e exportação de soja e carne bovina, ocupa o segundo lugar. É o terceiro maior exportador de cereais. O maior produtor de minério de ferro do mundo é a Vale. As potenciais reservas de urânio do país são as segundas maiores do planeta. No caso do nióbio, um metal raro, o Brasil tem uma fatia de 92% do mercado mundial. Na costa brasileira, no pré-sal, foram descobertas grandes reservas petrolíferas, e em camadas geológicas antes inacessíveis dormitam — de acordo com estimativas da Secretaria de Estado de Energia dos Estados Unidos — sete trilhões de metros cúbicos de gás de xisto.6


Depois da China, dos Estados Unidos e da Argentina, a Alemanha é o quarto maior parceiro comercial do Brasil. Já para a Alemanha, o Brasil está no 26º lugar.
7 O setor agrícola é responsável por 7% do PIB do país, ao passo que os produtos agrícolas constituem 40% de suas exportações. Segundo as estatísticas mais recentes, os produtos agropecuários perfazem 46,63% de tudo o que o Brasil exportada para a Alemanha, entre os quais se destacam a soja, café em grãos, chá, açúcar e etanol, óleo de palma, celulose, carne bovina, suco de laranja, tabaco e algodão.


O lado sombrio do agronegócio


Um em cada dois sucos de laranja consumidos no mundo tem origem no Brasil. O uso intenso de pesticidas traz danos à saúde dos trabalhadores, que sofrem com duras condições de trabalho durante a colheita do cítrico, cuja produção se concentra no estado de São Paulo. Salários baixos, períodos de até doze horas de trabalho sem descanso, dependentes de intermediários duvidosos e à mercê de pesticidas tóxicos, sem qualquer proteção: esse é o panorama traçado por um estudo das
ongs Christliche Initiative Romero de Münster, da Alemanha, e Global 2000, da Áustria.8 O estudo analisou a cadeia produtiva do suco de laranja desde o plantio, passando pela colheita, processamento e exportação, até a venda final nos supermercados europeus, topando, no fim da cadeia, com as redes de hipermercados alemãs Aldi, Lidl, Kaufland e outras.


Os empregos na indústria da carne bovina também se caracterizam por condições de trabalho catastróficas que atingem os chamados “boias-frias” e os funcionários de empresas terceirizadas contratadas para os serviços de abate e transporte de animais.
9 Nas fazendas de gado do Brasil — que, com duzentos milhões de cabeças, possui o maior rebanho do mundo —,10 frequentemente são flagrados trabalhadores empregados em condições análogas à escravidão. No caso da carne bovina, um relatório do Greenpeace constatou em 2009 que as cadeias varejistas Aldi, Lidl e outras vendiam carne procedente de “fazendas ilegais” da Amazônia. Segundo o relatório, a fabricante de carros de luxo bmw e fábrica de materiais esportivos Adidas utilizam couro de procedência duvidosa.11


Entre 2001 e 2010, os principais importadores da soja brasileira e de seus derivados (farelo, bolo e óleos) foram a China (98,9 milhões de toneladas), a Holanda (65,4 milhões de toneladas), a França (30,5 milhões de toneladas), a Espanha (23 milhões de toneladas) e a Alemanha (21,8 milhões de toneladas).
12 A soja foi o produto de exportação mais rentável para o Brasil em 2015,13 quando o país plantou 33 milhões de hectares da leguminosa, colheu 95 milhões de toneladas e faturou 28 bilhões de dólares. Mais de 50 milhões de toneladas foram vendidos em grãos, 15 milhões de toneladas em farelo e 1,7 milhão de toneladas em óleo. A soja, sozinha, foi responsável por 14,6% da totalidade das exportações brasileiras, medidas por seu valor em dólares americanos.14 A China importou do Brasil 41 milhões de toneladas de grãos de soja — ou seja, 75% das exportações de soja do Brasil — e os Estados Unidos, 10%. Enquanto a China importa principalmente soja em grão, os países europeus estão mais interessados no farelo, usado como proteína para os rebanhos de animais. Em 2015, a União Europeia comprou 8,3 milhões de toneladas de farejo de soja do Brasil, ou seja, 56,3% do total.15 Na mesma época, havia na Alemanha 39,6 milhões de galinhas poedeiras, 27,5 milhões de suínos, 12,6 milhões de bovinos e 1,6 milhão de ovinos.16


Presos na armadilha dos agrotóxicos


A agricultura industrial praticada no Brasil se baseia no uso intensivo de pesticidas e herbicidas. Desde 2008, o país é o maior consumidor mundial de agrotóxicos. Em 2009, um bilhão de litros foram pulverizados sobre os cultivos brasileiros. O volume total de agrotóxicos utilizados no país equivale a 5,2 litros por habitante por ano.
17 Cientistas da Universidade de São Paulo calcularam que, nos últimos sete anos, 1,25 milhão de brasileiros foram envenenados por pesticidas e herbicidas. As consequências são graves. Em um estudo abrangente, realizado em 2013, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) encontrou resíduos de agrotóxicos em um terço dos alimentos pesquisados, classificando este estado como “não satisfatório”. Em 2011 foi feita uma pesquisa universitária sobre vestígios de pesticidas no leite materno no estado do Mato Grosso18, na zona do boom da produção de soja. Foram encontrados resíduos de agrotóxicos no leite de todas as mulheres investigadas. Em alguns casos havia resíduos de até seis substâncias químicas diferentes, entre elas o veneno DDE (dicloro-difenil-etileno), um derivado do DDT, proibido há anos no Brasil.


Resíduos de pesticidas, inseticidas e herbicidas também estão disseminados por um dos maiores reservatórios de água doce do mundo, o Aquífero Guarani, que se estende pelo Sul e Sudeste do Brasil, pelo leste do Paraguai, pelo Uruguai e pelo norte da Argentina. Com uma área total de 1,2 milhão de quilômetros quadrados e profundidades de até 1.500 metros, é uma das três maiores reservas de água doce no mundo. No início dos anos 2000, os governos da região ficaram em alerta com a notícia de que resíduos de agrotóxicos haviam contaminado o aquífero,
19 e elaboraram um plano estratégico de ação conjunta para combater a disseminação da poluição por produtos químicos e pesticidas no subsolo, bem como regulamentar e controlar seu uso desenfreado. O programa, que recebe financiamento do Banco Mundial, está em vigor desde 2003.20 Mas o uso de agrotóxicos só fez aumentar na última década, no rastro do boom galopante da soja. São perspectivas nem um pouco animadoras.


O herbicida mais empregado, no Brasil e em outros países, é o glifosato, fabricado pela Monsanto. Todo ano o país aplica 180.000 toneladas do veneno.
21 Só na cultura da soja, são cerca de trinta milhões de hectares pulverizados com o herbicida. Em março de 2015, a Agência Internacional para a Pesquisas sobre o Câncer, vinculada à Organização Mundial da Saúde (oms), assinou artigo na revista médica The Lancet Oncology dizendo que estudos recentes classificavam o glifosato “provavelmente é cancerígeno”.22 Depois dessa advertência, o Ministério Público Federal23 recomendou à Anvisa a banir a substância do Brasil.24


As reações da indústria não tardaram: o Brasil teria de importar cereais em vez de exportar, empregos na indústria e na agricultura correriam risco, a segurança alimentar estaria ameaçada, disseram. A filial brasileira do gigante alemão da indústria química e de produtos agrícolas,
basf, também se mostrou preocupada. Em meio ao debate sobre o risco de câncer causado pelos derivados de glifosato, o diretor de inovação, pesquisa e desenvolvimento, Ademar de Geroni, rechaçou o pedido do Ministério Público Federal. Em entrevista à revista Globo Rural,25 disse que o veto ao glifosato traria graves prejuízos ao agronegócio e à economia do país: “Creio que na área de dessecação é difícil achar uma solução que auxilie o produtor, e seria uma situação de impacto na agricultura, de não controlar as plantas daninhas de forma eficiente, gerando uma queda drástica na produtividade. Não tem como voltar [para a capinação]: só na soja são 31 milhões de hectares”, disse Geroni. “Tirando um produto como o glifosato do mercado, a produtividade vai cair cerca de 40%, dependendo do nível de infestação. Sem dúvida, é bastante significativo, inviabilizaria muitas áreas.”


A
basf e a questão dos pesticidas e herbicidas


Foi como uma bomba no jornalismo econômico — até porque talvez ninguém houvesse imaginado que um dia aquilo pudesse acontecer: em abril de 2011, a
basf e a Shell foram condenadas em terceira instância pelo Tribunal Superior do Trabalho a pagar indenizações no valor total de 1,1 bilhão de reais (naquela época, equivalentes a cerca de 480 milhões de euros) pela contaminação que seus pesticidas ao meio ambiente e a trabalhadores e moradores na região de Paulínia, em São Paulo.26 A basf e a Shell eram os donos de uma antiga fábrica da cidade que produziu pesticidas até 2002. Até os anos 1970, a unidade pertencia à Shell. Em 1995, foi comprada pelo conglomerado americano Cyanamid. A basf adquiriu o complexo em 2000, e logo depois uma ordem judicial obrigou seu fechamento. Os trabalhadores se queixam de terem sido intoxicados por produtos químicos, e dizem que as águas do subsolo teriam sido contaminadas com substâncias cancerígenas. Foram contabilizadas pelo menos 61 mortes, além de casos de câncer, doenças cardiovasculares e outras enfermidades, segundo os funcionários. Na unidade eram fabricadas substâncias altamente tóxicas, como aldrina, endrina e dieldrina. Somente os teores do pesticida aldrina encontrados no solo da fábrica superam em 860 vezes os valores máximos permitidos. A aldrina é um inseticida empregado contra cupins e gafanhotos. Desde 2014, é proibido no mundo inteiro.


Em seu relatório anual de 2011, na rubrica sobre “riscos por processos judiciais”, a
basf informou que havia processos individuais e um processo coletivo “para reparação de danos à saúde de antigos funcionários (inclusive terceirizados), seus familiares e filhos”.27 Por causa da ameaça do pagamento de indenizações no valor “de cerca de 490 milhões de euros, além de juros”, tudo devido às operações da fábrica de pesticidas, a basf processou a Shell em 20 de março de 2011, reivindicando que a antiga proprietária indenizasse a totalidade dos prejuízos, que, conforme argumentou, foram “originados de poluição causada pela Shell na planta de Paulínia”,28 isentando a si mesma de qualquer responsabilidade pela contaminação.


A argumentação, porém, não ajudou a empresa. Segundo determinaram as decisões judiciais, a nova proprietária é tão responsável quanto a antiga. Os departamentos jurídicos das duas companhias resolveram firmar um acordo com as vítimas. Assim, em 2013, tanto
basf quanto Shell aceitaram a sentença do Tribunal Superior do Trabalho, pela qual concordaram em pagar uma indenização coletiva de 200 milhões de reais (utilizada para financiar a construção de dois hospitais: um na área rural de Paulínia e outro dedicado ao tratamento do câncer infantil). As empresas pagaram ainda indenizações individuais para 1.068 trabalhadores e trabalhadoras e seus familiares no valor médio de 360 mil reais, com juros e correção monetária. Por fim, as duas multinacionais foram condenadas a pagar o tratamento médico vitalício dos trabalhadores atingidos.


Um pequeno sindicato de trabalhadores da indústria química conseguiu, portanto, vencer dois grandes conglomerados transnacionais. Os sindicalistas obtiveram indenizações individuais para cerca de quinhentos atingidos e seus filhos, além da constituição de um fundo projetos de atenção e tratamento a doenças laborais.


Aos 62 anos, Francisco Tavares Gomes, conhecido como Tavares, ainda tem saúde. Mas isso pode mudar, pois trabalhou por mais de vinte anos em contato com pesticidas cancerígenos. “Desde 1977, a Shell vinha nos expondo a doze substâncias químicas muito perigosas, que continuavam a ser empregadas na fábrica de Paulínia, apesar de já terem sido banidas no mundo inteiro”, explicou, durante visita a Berlim, em novembro de 2016. A empresa não prestou informações suficientes aos trabalhadores sobre os riscos, diz Tavares. À primeira vista, as medidas de proteção pareciam suficientes. “Recebíamos treinamentos e tomávamos vários banhos por dia, trocando sempre de roupa. Mas isso pode até ter piorado tudo, porque a água também estava contaminada. Com a mesma água contaminada cozinhava-se e se fazia café para os trabalhadores. Por isso, era indiferente trabalhar na produção ou na administração.” Durante 25 anos, todos os trabalhadores estiveram expostos. Com o passar dos anos, vários adoeceram. Sofriam de conjuntivite crônica ou vômitos constantes. Outros se queixavam de pânico e insônia. Mulheres tiveram filhos com deficiências. Mais de sessenta trabalhadores morreram de câncer.


Antes de ver a fábrica sendo lacrada, em 2002, Tavares e seus colegas nem imaginavam as ameaças. Quando começaram a se multiplicar os casos de doença, os trabalhadores passaram a se organizar. Queriam ser indenizados, e sua luta por justiça foi apoiada pelo Sindicato dos Químicos Unificados de Campinas.


Mas vitória dos trabalhadores sobre duas gigantes transnacionais continua amplamente desconhecida pela opinião pública. Segundo Tavares, a imprensa chegou a distorcer informações, quando os trabalhadores compraram, com a indenização coletiva das empresas, um barco para levar atendimento médico a comunidades amazônicas. “Chegaram a dizer que o novo navio hospital da Shell havia chegado. Um total desvirtuamento dos fatos. A Shell pagou a indenização, os recursos vieram para o nosso fundo e nós financiamos o navio. Mas a mídia não investigou direito. Ouviu falar algo de ‘Shell’ e escreveu qualquer bobagem.”


A sindicalista alemã Beatrix Sassermann trabalhou por muitos anos na indústria farmacêutica e hoje é ativista na
ong Basisinitiative Solidarität. Junto com Tavares e a ativista sindical Gloria Nozella, Beatrix organizou uma turnê dos sindicalistas de Paulínia por várias cidades alemãs, no final de 2016. “A vitória judicial obtida pelo sindicato e pelos trabalhadores rompe com uma lei anterior que exigia provas de relação causal entre substâncias químicas e uma enfermidade para fins de indenização, o que muitas vezes é bastante difícil”, relata Beatrix. “O cerne da argumentação dos colegas brasileiros foi a exposição às substâncias. Ou seja: todos os trabalhadores expostos aos produtos químicos são beneficiados, não apenas aqueles que adoeceram”, disse Sassermann.


O pagamento da multa e das indenizações, porém, não parece ter mudado as práticas da
basf. Enquanto os trabalhadores de Paulínia ainda batalhavam na justiça com a empresa, em março de 2010, houve um grave escândalo na fábrica de pesticidas da basf em Guaratinguetá, também no interior paulista. Funcionários da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) promoveram uma investigação nas instalações da empresa com apoio da Polícia Federal. Além de não cooperar com a apuração, a basf atrapalhou o trabalho das autoridades. “Enquanto os nossos peritos estavam na fábrica, a luz foi desligada, as máquinas pararam de funcionar e os responsáveis se recusaram a assinar os formulários”, queixou-se o então diretor da Anvisa, José Agenor Álvares. Como resultado, oitocentos mil litros de herbicidas e pesticidas — incluindo o fungicida Opera, o produto mais vendido pela basf no Brasil — foram confiscados. Os peritos também constataram que a empresa estava reaproveitando lotes de substâncias vencidas ou sem data de fabricação, e não conseguiu provar que seus produtos haviam passado por controles de produção obrigatórios.29 Um ano depois, em 2011, os agentes públicos voltaram a multar a corporação pela venda de agrotóxicos com datas de fabricação erradas.30


Teriam sido apenas deslizes de um conglomerado normalmente fiel a seus próprios critérios de sustentabilidade, e cuja autopropagandeada missão é “criamos química para um futuro sustentável”?
31 Um olhar mais próximo sobre a carteira de produtos da basf no Brasil revela algumas surpresas. Em sua página na internet,32 a empresa apresenta os agrotóxicos que oferece ao mercado brasileiro, e esclarece sua composição. Nós cruzamos a lista das substâncias químicas que a basf afirma utilizar em seus produtos com a lista de substâncias químicas proibidas pela União Europeia.33 O resultado é que a basf vende no Brasil herbicidas, inseticidas e reguladores do crescimento em cuja composição podem ser encontradas as seguintes substâncias proibidas nos países europeus: imazetapir, tepraloxidim, imazapir, saflufenacil, imazapic, setoxidina, flufenoxuron, clorfenapir e cianamidas.


Solicitamos que a empresa se pronunciasse a respeito. Eis a resposta: “No caso das referidas substâncias que constam da nossa carteira de produtos, trata-se de substâncias não registradas na União Europeia. A exceção é a substância tepraloxidim; este herbicida, por exemplo, é aprovado na Alemanha. De forma geral, a carteira de produtos da
basf no setor de soluções para a agricultura é feita sob medida para determinados mercados regionais, uma vez que diferentes condições climáticas ou agronômicas geram diferentes necessidades na produção agrícola. Assim, entre outros, existem espécies diferentes de insetos ou ervas daninhas que não ocorrem no território europeu (por exemplo, a cigarrinha, da espécie Nilaparvata lugens). Também se trata parcialmente de produtos para plantas que, devido às condições climáticas, não podem ser cultivadas na Alemanha (como arroz, bananas, chá etc). Por este motivo, a oferta de produtos pode divergir de uma região para outra”.34


Mas será que seria apenas uma questão de adequação regional? É curioso ver como a Bayer argumenta de forma bem parecida.


Se é Bayer, é bom”


Consta que na famosa Semana da Arte Moderna de 1922 o bibliotecário, jornalista, poeta, compositor e publicitário Bastos Tigre inventou o slogan “Se é Bayer, é bom”, que se tornou um dos mais conhecidos na história da América Latina.


Repetimos com a Bayer o mesmo procedimento que fizemos com a
basf, cruzando os dados que constam em sua página na internet e escrevendo um e-mail para o setor de imprensa da empresa, que também vende agrotóxicos (fungicidas, herbicidas, inseticidas e reguladores do crescimento) no Brasil. Encontramos as seguintes substâncias comercializadas no país, mas que são proibidas na União Europeia: carbendazim, ciclanilida, disulfoton, etiprol, ethoxysulfuron, ioxynil, thidiazuron e tiodicarb.35


Resposta do setor de imprensa da Bayer:
A lista disponibilizada pelo senhor contém substâncias que são a base de defensivos agrícolas utilizados em importantes lavouras como café, arroz e cana-de-açúcar — plantas que não são nativas da Europa, onde são cultivadas em escala muito reduzida. Por isso, a Bayer — também por motivos econômicos — não solicitou a autorização para uso dessas substâncias em países europeus.”36 Esta argumentação bastante astuta da Bayer e da BASF explica por que na página da União Europeia com informações sobre os pesticidas37 não consta a palavra “proibido”, mas sim a expressão “não autorizada”.


Mas por que essas substâncias não foram autorizadas? Na lista da Rede de Ação sobre Pesticidas (
pan, na sigla em inglês)38 de 2015, dedicada aos pesticidas altamente tóxicos, a carbendazina, que é empregada, por exemplo, nos laranjais brasileiros, é definida como mutagênica e tóxica para a reprodução animal. Há vários anos, a rede Coordination gegen Bayer-Gefahren (coordenação contra perigos da Bayer) aponta enfaticamente para a carbendazina como “tóxica para organismos aquáticos”, “passível de prejudicar a criança no útero materno”, “capaz de provocar danos hereditários”.39 Na lista da pan, a disulfotona está na categoria 1a da oms por sua alta toxicidade.40 De acordo com as categorias da União Europeia, o ioxynil é classificado como substância que afeta os hormônios e como pesticida da classe ii.41 Ainda de acordo com a lista da pan, o tiodicarb, o chlorfenapyr e o imazetapir são classificados como “altamente tóxicos para abelhas”, sendo que o tiodicarb também é apontado pela Agência de Proteção Ambiental (epa) norte-americana como potencialmente cancerígeno. O tiodicarb — no Brasil, ingrediente do Larvin 800 wg, produzido pela Bayer — é usado na produção de algodão, soja e milho, ou seja, não parece ser uma substância empregada em “plantas não nativas da Europa”, como dizem as empresas. Segundo a oms, o Larvin é um pesticida da classe ii,42 mas antes havia sido colocado na classe i. Como as substâncias não alteram da noite para o dia suas características químicas e tóxicas, é possível que a Bayer tenha modificado a concentração. A própria empresa admite em sua página online que, de acordo com a classificação toxicológica, o Larvin é “extremamente tóxico” e que o efeito ambiental é “perigoso”, recomendando o uso no máximo duas vezes por campo e por temporada, e nunca a temperaturas acima de 27 graus Celsius — o que tampouco soa muito estranho para a Europa. Nos Estados Unidos, o tiodicarb foi tirado de circulação por seus riscos à saúde.43 Por último: o flufenoxuron, comercializado pela basf do Brasil, acumula-se no ambiente, sendo extremamente tóxico para organismos aquáticos, segundo a lista da pan.


Mas essas empresas insistem que não foram os riscos acima mencionados que fizeram com que esses pesticidas e herbicidas fossem proibidas na União Europeia, mas sim porque nunca se pediu autorização para a sua fabricação nos países do bloco, que, alegam, não faria sentido “por razões econômicas”, uma vez que se tratariam de substâncias empregadas em produtos agrícolas tropicais e em lavouras de arroz, cana ou café. Para cafeicultores de Minas Gerais, o café teve um travo amargo. No final dos anos 1990, mais de trinta cafeicultores foram intoxicados, e doze acabaram morrendo. Organizações de trabalhadores rurais estimam que o número de pessoas com problemas de saúde chegue a várias centenas. Associações ambientalistas apontam para graves danos ambientais e a Associação Mineira de Defesa do Ambiente (
amda) incluiu a Bayer na “‘lista suja’ das dez empresas mais perigosas”, diz a Coordination gegen Bayer-Gefahren. O motivo é o pesticida Baysiston, o mais usado nas lavouras de café brasileiras. O promotor Eduardo Nepomuceno processou a Bayer. “Em um processo civil indenizatório a empresa Bayer é a principal responsável, pelo fato de ter trazido o produto para o mercado”, disse o promotor. A Bayer rechaçou as acusações, mas pagou — voluntariamente, como foi enfatizado — o equivalente a cerca de 70 mil euros por meio de um acordo extrajudicial.


Se é Bayer é… veneno”


Em 2001, o Greenpeace publicou um estudo
44 sobre a maior fábrica da Bayer na América Latina, localizada em Belford Roxo, na Baixada Fluminense. Entre outras coisas, a fábrica da Bayer produz plásticos, pesticidas, inseticidas e herbicidas, além de produtos para curtumes, tintas e outras substâncias químicas. O Greenpeace coletou amostras de água e sedimentos nos arredores da unidade — próximo do local onde ficam o incinerador e o aterro de resíduos. Ao longo da fábrica, o Rio Sarapuí segue seu curso ondulado. Cientistas contratados pela ong ambientalista coletaram amostras rio acima e rio abaixo, bem como no lugar onde os rejeitos da Bayer são despejados. Outras amostras foram coletadas próximo ao incinerador e ao aterro. A análise foi feita no Departamento de Ciências Biológicas da Universidade de Exeter, na Grã-Bretanha. O resultado: presença de substâncias tóxicas em níveis extremamente elevados.


No caso do zinco, o nível era de 1.884 mg/kg, seis vezes acima do normal. De manganês, de 1.048 mg/kg, vinte vezes mais que o tolerável. De cobre, 1.115 mg/kg, trinta vezes mais. E o de mercúrio, 22 mg/kg, ou oitocentas vezes acima do normal. Os dados foram compilados pela Coordination gegen Bayer-Gefahren depois de analisar o relatório do Greenpeace.
45 O teor de mercúrio próximo ao aterro de resíduos atingiu uma concentração máxima de 244 mg/kg,46 equivalente a doze mil vezes os níveis normais de solos não contaminados.47 Na amostra de sedimentos também foram encontrados benzenos clorados, pcbs e derivados de ddt. Na amostra de efluentes, benzenaminas e benzenos, entre outros. A análise de sedimentos do aterro, segundo o Greenpeace, revelou elevada contaminação por metais pesados e um grande número de poluentes orgânicos, como pcbs, benzenos clorados e benzenaminas halogenadas.


Concluiu-se que “os processos de tratamento dos resíduos na fábrica da Bayer [em Belford Roxo] não são adequados para separar os metais pesados, levando à contaminação das águas e dos sedimentos do rio”.
48 A Bayer reagiu e mandou fazer três pesquisas independentes de esgoto em 2001 e 2002. O resultado: os valores estavam abaixo dos níveis críticos. Em seguida, a corporação questionou os métodos de pesquisa do laboratório contratado pelo Greenpeace. A ong respondeu: “É preciso considerar que as pesquisas da Bayer se limitaram a analisar o esgoto, sem colher amostras dos sedimentos contaminados. As substâncias encontradas pelo Greenpeace naqueles sedimentos eram tóxicas, de difícil eliminação e biocumulativas. Por isso, exigem atenção e devem ser analisadas em relação com sua fonte”.49 Segundo o Greenpeace, a Bayer não foi capaz de apontar a fonte da contaminação. “A firma nega os danos ambientais e não se sente responsável pelo saneamento e pela compensação do prejuízo. O incinerador continua funcionando, incinerando os dejetos de outras empresas. Um instrumento internacional que regulamentasse a responsabilidade e o comprometimento empresarial poderia ajudar a comunidade local no Brasil a exigir justiça diretamente da sede da Bayer.”50


Depois da divulgação do relatório do Greenpeace, a Coordination gegen Bayer-Gefahren analisou o estudo e chegou à conclusão de que a empresa “aparentemente faz uso de uma moral dupla (
double standard) no que diz respeito às regras ambientais”, revelando “em que dimensão um global player como a Bayer se aproveita dos baixos padrões ambientais dos países mais pobres como vantagem para si, colocando em perigo pessoas, animais e o meio ambiente”. Segundo a ong alemã, portanto, o lema da empresa deveria ser: “Se é Bayer, é veneno”.51


Já na década de 1970, sindicalistas brasileiros e alemães foram além da campanha de marketing da Bayer em busca de entender como a empresa operava no país. Era uma época de pesados conflitos políticos nas organizações trabalhistas alemãs entre as alas mais combativas e mais conservadores do sindicalismo. No setor químico, essa disputa era especialmente aguerrida, culminando, em 1980, com a exclusão de candidatos de esquerda das listas para os conselhos empresariais da Bayer em Leverkusen, da Hoechst em Frankfurt ou da Boehringer em Mannheim. Na fábrica da Bayer em Wuppertal, o conflito no interior dos sindicatos chegou ao ápice no fim dos anos 1980. Com o objetivo de enfraquecer a forte corrente sindicalista de esquerda nos conselhos internos das empresas, houve fraudes eleitorais e as eleições foram questionadas judicialmente. Para evitar uma sentença judicial desagradável para si próprio, o poderoso sindicato dos químicos, o
ig Chemie, decidiu anular os processos sob suspeição. Estas lutas, bem como os conflitos em torno de alguns temas, como as políticas ambientais, acabaram levando à criação do Chemiekreis, o Círculo dos Químicos, associação sindical de esquerda, que passou a enfrentar discussões sobre ecologia e solidariedade internacional.


Foi assim que se formaram redes com sindicalistas da fábrica da Bayer em Belford Roxo, onde pouco antes havia sido demitida toda a direção do sindicato, dez operários, todos filiados à Central Única dos Trabalhadores
(CUT), e que então eram minoria diante de um sindicato aliado à empresa. Depois de o sindicato alemão conservador ig Chemie fracassar em seus esforços de cooptação, os trabalhadores brasileiros conseguiram entrar em contato com sindicalistas de esquerda das fábricas da Bayer em Wuppertal e Leverkusen graças à mediação de monges franciscanos. Os grupos de esquerda alemães coletaram fundos para os colegas brasileiros e divulgaram o conflito para a opinião pública alemã. Em 1990 ocorreu a primeira visita ao Brasil de representantes sindicais não só das fábricas da Bayer, mas também de outras empresas, como basf, Merck, Hoechst e Schering. Essa associação solidária sindical aumentou a pressão sobre a Bayer, obrigando a direção a readmitir alguns dos funcionários que haviam sido demitidos. No mesmo ano, sindicalistas brasileiros visitaram a Alemanha, onde relataram detalhadamente problemas ambientais e de saúde que enfrentavam nas instalações da empresa no Brasil, como intoxicações, doenças, explosões na fábrica e a poluição dos rios vizinhos. Este contato se manteve ativo durante muitos anos, melhorando o nível de conhecimento e entendimento dos alemães em relação às fábricas de Belford Roxo. E isso teve consequências.


Em 9 de outubro de 1995, o
Frankfurter Allgemeine Zeitung, um dos maiores diários da Alemanha, publicou uma reportagem sobre a fábrica fluminense. O texto era uma apologia à atuação de multinacionais alemãs, que, segundo informações próprias, praticavam no exterior a mesma política ambiental conduzida na Alemanha. Não era, decididamente, um relato jornalístico. Como os trabalhadores do Chemiekreis já conheciam bem a realidade da Bayer em Belford Roxo, fizeram publicar uma crítica ferrenha ao jornal, acusando-o de haver usado como fonte exclusivamente “releases de imprensa oficiais dos departamentos de marketing das empresas citadas”, sem ouvir representantes dos trabalhadores ou de organizações ambientais locais, que relatariam acidentes e problemas internos, queixas dos vizinhos e do sindicato, transgressões a regras fundamentais de segurança do trabalho e de saúde empresarial, omissão em casos de doenças profissionais e acidentes internos, adoção de jornadas de trabalho maiores que as permitidas por lei, trabalho terceirizado de funções especializadas e perigosas e restrições à atividade de inspeção e supervisão por comissões especiais.


Os sindicalistas lembraram ainda que, em 1993, a Bayer conquistou o quarto lugar entre as “seis empresas mais sujas” do estado do Rio de Janeiro, e que a corporação era responsável pela poluição do Rio Sarapuí e, com isso, da Baía de Guanabara. Segundo os sindicalistas alemães, “o próprio diretor da fábrica, Wolfgang Mühlhaus, admitiu tudo isso em 1993. Teria sido inútil negar os fatos, documentados em um estudo da agência ambiental. Ademais, os trabalhadores que tinham assento no conselho interno da empresa escutaram de viva voz, em 1990, que a função da estação de tratamento de esgoto tinha nítidas limitações devido a complicações de infraestrutura”. Os sindicalistas trouxeram à tona o acidente ocorrido com dois operários sufocados em um carro-tanque no terreno da fábrica, “mas a Bayer
transferiu o óbito para fora dos limites da fábrica, a fim de escapar de investigações e indenizações”. Resgataram ainda o caso das oito pessoas mortas por acidente, “sendo três por ferimentos causados com ácido sulfúrico, sem falar nas contaminações com fosgênio, cromo e ácidos fosfóricos extremamente tóxicos”. Os representantes dos trabalhadores questionaram também o destino das águas usadas para apagar o incêndio no final de setembro de 1995, contaminadas com “parathion, um derivado do e605, substância química classificada pela oms na categoria 1a, de produtos ‘extremamente perigosos’, em razão de sua elevada toxicidade”.


O texto recordou o acidente ocorrido na Tibrás, então filial da Bayer. Crianças tiveram ferimentos nos pés devido à contaminação da areia da praia com ácido sulfúrico decorrente dos resíduos da produção de dióxido de titânio. Os sindicalistas repassaram ainda os vários casos de doenças laborais, bem como a pérfida tática da Bayer de não pagar horas extras e adicionais por turnos de trabalho. Classificaram como “vergonhoso” o fato de o plano de demissões e de contenção não ter sido acompanhado de medidas sociais, mandando para a rua colegas com muito tempo de empresa, em alguns casos dois ou três anos antes da aposentadoria. Em outubro de 1995, relataram os sindicalistas com sarcasmo, “a Tibrás forneceu mais um grande exemplo. Dois operários sofreram queimaduras parciais de terceiro grau consertando um aparelho de raio-
x. O médico que atendeu as vítimas solicitou que aquele acidente de trabalho fosse devidamente registrado, conforme a lei. Foi demitido cinco dias mais tarde, depois que uma colega da própria empresa lhe disse que os ferimentos não passavam de banais reações alérgicas”. Mas a Tibrás viu-se obrigada a aceitar os fatos perante o Instituto de Energia Nuclear e, com dez dias de atraso, acabou registrando a informação do acidente. Não menos importante, os sindicalistas falaram sobre a greve de 1989 “em Belford Roxo, quando a Polícia Militar foi chamada e, pouco depois, o então diretor de segurança da fábrica recebeu uma medalha militar, com direito a uma matéria laudatória no jornal. Enquanto isso, toda a diretoria do sindicato foi demitida”.52


O colapso ambiental da agricultura industrial


Ativistas ambientais constataram uma rápida expansão da produção de soja na Amazônia a partir de 2000, fruto da crescente demanda mundial pela oleaginosa. Assim, mais uma vez a floresta foi vítima de um antigo ciclo vicioso: quando a demanda mundial cresce, produz-se uma fase de pressão, como já ocorreu com o
boom da borracha, no início do século xx, e com as madeiras e as fazendas de gado, nos anos 1960 e 1970. A fim de evitar maiores danos ao meio ambiente, fábricas processadoras, agências ambientais e ongs como Greenpeace, wwf e a União Internacional para Conservação da Natureza (iucn, na sigla em inglês), firmaram em julho de 2006 a chamada moratória da soja. Nesse acordo, prorrogado em 2016, a Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais e a Associação Nacional de Exportadores de Cereais comprometem-se a não comprar soja originária de áreas desmatadas na Amazônia. A moratória teve resultados impressionantes. A participação da soja em áreas desmatadas na Amazônia caiu para 0,25%.53


Um grande êxito, portanto? Infelizmente, não. Os resultados mais recentes
54 indicam que a redução da lavoura de soja na Amazônia devido à moratória levou à expansão do plantio na região central do Brasil, no Cerrado, que é o segundo maior bioma da América do Sul, com pouco mais de dois milhões de quilômetros quadrados. O Cerrado representa 22% da área total do país, abrangendo os estados de Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Minas Gerais, partes de Maranhão, Paraná, Piauí e São Paulo, e está seriamente ameaçado. Por isso, os pesquisadores responsáveis pelo estudo de 2015 reivindicam uma urgente expansão da moratória da soja também para as chamadas “savanas brasileiras”.


Ocorre que atualmente prevalecem interesses opostos na política brasileira. A parte norte do Cerrado — nos estados de Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, abreviada com o acrônimo de Matopiba — está no foco de um dos mais recentes megaprojetos em desenvolvimento agrícola do país. A então ministra da Agricultura, Kátia Abreu, ela própria uma latifundiária, laureada em 2010 por defensores florestais com o duvidoso título de “Motosserra de Ouro”, anunciou em 13 de junho de 2015 o plano de desenvolvimento agropecuário para o Matopiba. Em cooperação com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), um plano estratégico de desenvolvimento agrícola para fins de produção agroindustrial será desenvolvido nessa área, que abrange 73 milhões de hectares. Junto com a bancada ruralistas no Congresso, o governo golpista de Michel Temer tem demonstrado grande interesse em expandir esta última fronteira agrícola. A Comissão Pastoral da Terra
(cpt) adverte expressamente sobre as consequências do aumento dos já numerosos conflitos fundiários na região, hoje já mais frequentes do que na Amazônia. Segundo dados da organização, no período de 2005 a 2014, 39% dos 11.338 conflitos fundiários no Brasil ocorreram no Cerrado e 38%, na Amazônia.55 “Essa abertura e a expansão do capital financeiro pelo governo favorecem o livre acesso do agronegócio, esmagando ainda mais a população local”, adverte Isolete Wichinieski, da cpt.56


Some-se a isso o chamado “efeito bumerangue”: a expansão da cultura da soja no Cerrado registrada nos anos passados claramente afeta a Amazônia, pois as possibilidades logísticas de transporte para escoar o grão do centro do Brasil até os portos do Atlântico estão limitadas aos caminhões e precisam urgentemente de alternativas, alertam incansavelmente os barões da soja. Como solução, a indústria e o governo avaliam a ampliação das malhas hidroviária, ferroviária e rodoviária. É aqui que o foco se dirige à região do Rio Tapajós e seus afluentes Juruena e Teles Pires, onde se planeja construir uma dúzia de barragens e eclusas a fim de interligar a agroindústria do Mato Grosso e do Cerrado com a Amazônia, garantindo o acesso ao mercado mundial. Além disso, cogita-se a pavimentação
br-163 no trecho paraense, bem como a construção da ferrovia Ferrogrão.


Erosão crescente e evaporação na região do Cerrado


O agronegócio tem consequências desastrosas para a qualidade dos solos e da água da região. O exemplo da monocultura de eucalipto é um exemplo impiedoso disso. Segundo dados do Serviço Nacional de Informações Florestais
(snif), a área ocupada por plantações de eucalipto praticamente dobrou no Brasil de 2006 a 2014. De 3,862 milhões de hectares,57 em 2006, subiu para 6,5 milhões de hectares, em 2011,58 e para 6,9 milhões de hectares em 2014. O eucalipto cresce de maneira veloz. Um hectare de eucalipto produz em média 44 metros cúbicos de madeira por ano. Com técnicas especiais (já existem, no Brasil, os primeiros pés de eucalipto geneticamente modificados), o ciclo do corte foi abreviado. Antes, era de sete anos, e agora caiu para cinco.59 Com raízes profundas, o eucalipto necessita de muita água, o que empobrece os solos. Já em 1993, especialistas da fao sentenciaram em Bangcoc que o empobrecimento do solo na lavoura de eucalipto “ocorre muito rapidamente”.60 Para manter as metas de crescimento, requer grandes quantidades de fertilizantes. Exige ainda quantidades crescentes de pesticidas e herbicidas. No Brasil, usam-se principalmente o glifosato Scout, da Monsanto, o cupinicida Evidence, da Bayer, o formicida Atta-mex, da Unibrás, e o herbicida Fordor, da Bayer Crop Sciences.


O cientista Tarso Sanches Oliveira, da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul, examinou as consequências da agricultura industrial na região do Cerrado, que abriga hoje 25% da pecuária e também da lavoura de cereais e de soja do Brasil.
61 De acordo com suas medições, as taxas de evaporação aumentam entre 4% e 20% nas áreas desmatadas de vegetação original e nas terras ocupadas com monocultivos. Nessas condições, o escoamento de água ocorre com uma velocidade até vinte vezes maior do que em terrenos ocupados pela vegetação endêmica. As taxas de erosão do solo em razão dos cultivos agroindustriais são de dez a cem vezes maiores, segundo os estudos de Oliveira.62


A vegetação do Cerrado tem uma característica especial: dois terços da biomassa das árvores estão por baixo da terra. Por isso, também se diz que o Cerrado é uma “floresta de cabeça para baixo”. Essa água armazenada nas raízes penetra até os aquíferos subterrâneos. Ocorre que este modelo equilibrado corre risco com a expansão das monoculturas, ameaçando solapar todo o sistema. A soja, o eucalipto, a cana-de-açúcar e outras monoculturas modificam a estrutura dos solos. A água deixa de penetrar nos solos e, consequentemente, de alimentar os aquíferos.


Altair Sales Barbosa, pesquisador da Pontifícia Universidade Católica de Goiás, é tido como um dos maiores conhecedores do Cerrado e de sua fauna e flora únicas. Ele aponta para as irreversibilidades da degradação de uma paisagem como o Cerrado devido à pecuária e à agricultura extensivas, com monoculturas de eucalipto para produção de celulose e produção de carvão vegetal para siderúrgicas, com lavouras de soja e de cana-de-açúcar. Tudo isso transforma a paisagem, a flora, a fauna e os solos — e também a oferta de água na região e nos aquíferos subjacentes. As plantas introduzidas e cultivadas nas novas monoculturas exigem que os solos do Cerrado, naturalmente ácidos e pobres em nutrientes, sejam modificados. A adaptação à agricultura comercial prejudica a vegetação nativa e suas raízes — e, sem elas, a água não pode mais penetrar nos solos.
63 A vegetação introduzida, como a soja ou o milho, exógena, só tem raízes superficiais. A consequência é que, com as chuvas, a água não penetra mais nas camadas inferiores, o que resulta em enchentes destruidoras em caso de chuvas fortes e escassez de água nas camadas intermediárias. Assim, o nível da água do subsolo se reduz, afetando os aquíferos, que ficam menores a cada ano.


Essas dramáticas transformações do regime de águas do Cerrado, induzidas pelas mudanças no uso do solo em grandes áreas, têm consequências imensas para todo o Brasil. Pela situação geográfica central, pela hidromorfologia e pela extensão, o Cerrado é o filtro das chuvas do Brasil. Dez das doze principais bacias hidrográficas têm origem no Cerrado, e recebem de afluentes nascidos no Cerrado a maior parte de suas águas. No caso dos afluentes do Rio Tocantins, que desemboca na Amazônia, esta proporção é de 65%. O sistema hidrográfico do Rio São Francisco, vital para o semiárido nordestino, recebe do Cerrado 57% de seus afluentes. No caso das bacias dos rios Paraguai, Paraná e Parnaíba, localizados no Sul e Sudeste do país, esse índice fica em 50%.
64


Os rios voadores ameaçados na Amazônia


Só quem conhece os números consegue avaliar as consequências da maciça perda de água provocada pelo agronegócio no Brasil central. Hidrólogo da Agência Espacial Norte-Americana (Nasa), o brasileiro Augusto Getirana analisou o regime de águas do Brasil entre 2002 e 2015 com ajuda de dados coletados por dois satélites. Descobriu que o Sudeste perdeu 56 trilhões de litros de água por ano, correspondendo à quantidade de água de duas barragens de Itaipu, como calculou o jornal
O Globo, ou 43 vezes a represa da Cantareira, o maior reservatório de água potável de São Paulo, que abastece 8,8 milhões de pessoas. Segundo Getirana, no mesmo período, o semiárido nordestino perdeu 49 trilhões de litros de água. Tudo leva a crer que, com o uso de extensas áreas da Amazônia para agricultura, pastos, corte de madeira e construção de barragens com a finalidade de produzir energia para indústrias voltadas para a exportação, como a do alumínio e do aço, reduz-se a capacidade da floresta tropical úmida de formar os chamados “rios voadores”.


O conceito de “rios voadores” foi cunhado pelo meteorologista do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais
(inpe) José Antonio Marengo, membro do Painel Intergovernamental das Nações Unidas sobre Mudanças do Clima (ipcc). Em 2002 e 2003, Marengo e mais de cinquenta colegas de oito países posicionaram setecentos balões com sensores sobre a Amazônia a fim de mensurar as correntes de ar dominantes em cada estação do ano. Descobriram que, nos meses de verão, as nuvens que se formam sobre a Amazônia numa altura de três mil metros se locomovem com uma velocidade média de 50 km/h, primeiro para oeste, onde são barradas nos Andes e desviadas para o sul, antes de descerem em forma de chuva sobre o Sudeste e o Sul do Brasil, além de Uruguai, Paraguai e norte da Argentina. “Essas correntes são como rios voadores que levam a umidade do norte para o sul”, explicou José Marengo. Sua colega de pesquisa Carolina Vera, da Universidade de Buenos Aires, acrescentou que essas correntes de ar são uma das principais causas das fortes chuvas que ocorrem nestas regiões durante o verão. Isso porque as nuvens aumentam a umidade do ar nas regiões mais ao sul em níveis de 20% ou 30%, chegando, em alguns casos, a 60%.65


Na mesma linha de raciocínio da “teoria dos rios voadores”, o cientista Antonio Nobre, também do
inpe, levantou a pergunta sobre o que acontece quando o sistema sofre rupturas por interferências externas. Ele relacionou66 a escassez de água no Sul com o desmatamento na Amazônia, apontando para a evaporação da água, que chega a vinte bilhões de toneladas por dia. Para fins de comparação, o Amazonas, maior rio do mundo, alimenta o Oceano Atlântico diariamente com dez bilhões de toneladas de água. Na floresta tropical úmida da Amazônia, as várias camadas de folhas da vegetação, numa altura de até quarenta metros, oferecem uma área de evaporação de oito a dez vezes maior em um metro quadrado de solo. Enquanto uma árvore consegue evaporar até trezentos litros de água por dia, essa taxa é oito vezes menor no caso do pasto. O conceito de “rios voadores da Amazônia” refere-se, portanto, ao processo de evaporação diária de vinte bilhões de toneladas de água através do sistema de folhagens da Amazônia. Metade dessas nuvens se precipita em forma de chuva na própria Amazônia, e a outra metade — ou seja, 10 bilhões de toneladas — viaja para lesta até a muralha formada pela Cordilheira dos Andes, dirigindo-se de lá para o sul e chovendo sobre as bacias hidrográficas da região. Se a evaporação se reduzir em consequência do desmatamento da Amazônia e dos novos usos do solo pela agroindústria, reduz-se também a incidência das chuvas no sul.


Nos últimos quarenta anos foram desmatados três milhões de árvores por dia na Amazônia. Isso resulta em um número assustador de duas mil árvores por minuto, ou uma soma de 42 bilhões de árvores.
67 Se os “rios voadores” da Amazônia secarem, o Sul e o Sudeste do Brasil, o Norte da Argentina, bem como o Uruguai e o Paraguai, sofrerão estiagens. As consequências já puderam ser sentidas em 2014 e 2015, quando a pior seca dos últimos oitenta anos castigou a parte mais povoada do Brasil — o Sudeste, com 77 milhões de pessoas, a maior parte concentradas nas metrópoles de São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte.68


Se este processo se confirmar e intensificar, essas três capitais sofrerão explosivas consequências ambientais e sociais. Enquanto isso, com cada quilo de café vendido para a Alemanha, o Brasil exporta virtualmente os 21 mil litros de água usados em sua produção. No caso do papel, a taxa é de 324 litros por quilo. Para a soja, 1.650 litros por quilo e, para a carne bovina, 17.100 litros.


Concentração de terras e conflitos fundiários: violência e mercado


Mato Grosso e Mato Grosso do Sul formam o coração do
boom da produção de cana-de-açúcar e etanol ocorrido no Brasil. Nestes estados do oeste brasileiro, a soja e a pecuária se expandem, enquanto quarenta mil indígenas Guarani-Kaiowá esperam desde 1988 receber de volta seus territórios tradicionais, que a Constituição mandava demarcar em um prazo máximo de cinco anos.69 Enquanto os Guarani-Kaiowá são ameaçados por pistoleiros em seus acampamentos provisórios ao longo das estradas federais, vítimas de assassinatos e chacinas, países como a Alemanha importam alegremente a soja mato-grossense e sul-mato-grossense para alimentar seu rebanho suíno, o etanol para seus tanques de combustível e a carne bovina para ser vendida nos freezers dos supermercados.


O Conselho Indigenista Missionário apoia desde 2015 um boicote a produtos agropecuários do Mato Grosso do Sul. Com o título “Por que pedimos o boicote ao agronegócio do Mato Grosso do Sul?”, o texto destaca os estragos provocados pela soja na região e pede aos consumidores europeus: “Não compre! Não coma!” Enquanto o agronegócio explora 35 milhões de hectares de terras, e enquanto 21 milhões de cabeças de gado pastam em vinte milhões de hectares no Mato Grosso do Sul, 46 mil Guarani-Kaiowá, Terena e Kadiwéu se espremem em apenas 35 mil hectares. As aldeias do estado viraram pasto, e por isso os indígenas estão morrendo. Segundo o Cimi, “a carne, a soja e a cana que
saem do Mato Grosso do Sul têm sangue indígena”.70


Em 2016, de acordo com a Comissão Pastoral da Terra, os conflitos fundiários no Brasil produziram 61 vítimas: treze indígenas, quatro quilombolas, seis mulheres, dezesseis jovens entre 15 e 29 anos e um adolescente. Nos últimos 25 anos os números da violência no campo só foram maiores em 2003, quando se registrou 73 assassinatos.
71 Além de pequenos camponeses, pescadores e ribeirinhos, são principalmente os povos e as comunidades tradicionais indígenas ou quilombolas as que têm sido privadas do solo e da água limpa na esteira da apropriação e da concentração de terras (land grabbing) para a agricultura e a mineração. Não raro, os pastos, as fazendas de soja ou as plantações de eucalipto são protegidos por pistoleiros armados, posicionados ao longo das cercas para evitar qualquer aproximação.


Onde os pistoleiros não dão conta do recado, os latifundiários às vezes recorrem a aviões. Em julho de 2009, houve um ataque aéreo sobre camponeses no Espírito Santo, que resultou na intoxicação de dezoito pessoas — uma mulher teria sofrido um aborto. Segundo o então porta-voz do
mst capixaba, Marco Antônio Carolino, o latifundiário empregou pesticidas diretamente como arma contra camponeses a fim de expulsá-los de uma área de catorze hectares que haviam ocupado. Essa área faz parte de uma fazenda de 1.300 hectares, desapropriada pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) em 2009 por improdutividade e distribuída aos sem-terra. Desde então, o dono da propriedade questiona judicialmente a decisão, e ataca os ocupantes.72 Algo semelhante ocorreu em 2013, quando latifundiários mato-grossenses fizeram chover toneladas de agrotóxicos sobre um assentamento, segundo relatou o semanário alemão Die Zeit. Além de ferimentos na pele e problemas respiratórios, os trabalhadores rurais constataram, nos seis meses seguintes, que nada mais crescia na região, “nem milho, nem bananas, nem mandioca, nem limão”. Assim, “os pequenos camponeses foram obrigados a sobreviver como boias-frias nas grandes fazendas próximas”.73


A violência é uma das faces do processo de apropriação e concentração de terras em prol da agroindústria e dos latifúndios. Muitas vezes, porém, nem é preciso lançar mão de ameaças ou empregar diretamente a força contra os camponeses. O mercado oferece uma solução bem mais elegante: o aumento do preço da terra.


Pesquisadores da Universidade de Brasília, junto com o Ministério da Agricultura, calcularam um aumento médio de 308,1% no preço do solo para uso agrícola no período de 2002 a 2013. Os números estimados apontavam para um preço médio de 10.619,77 reais por hectare em 2013. Segundo o estudo, a demanda crescente por soja, milho, café, açúcar e suco de laranja nos mercados mundiais é a principal responsável por essa explosão. A expansão das plantações de eucalipto e as pastagens extensivas também contribuíram. O maior aumento dos preços da terra foi registrado no Centro-Oeste: 444,6%, em média. Na região Norte, os preços subiram 383,5% no mesmo período.
74


Roubo legalizado: apropriação e concentração de terras


Este processo de apropriação e concentração de terras, que ocorre no âmbito da crise tripla — financeira, econômica e ambiental — e é encarada pelos investidores como uma suposta âncora de salvação, é hoje um dos principais problemas do Brasil para camponeses, sem-terra, indígenas, quilombolas e outras comunidades tradicionais. Os responsáveis não são apenas os donos do capital no Brasil, mas também empresas e fundos que atuam internacionalmente.


Em novembro de 2015, um estudo sobre o
land grabbing no Brasil por parte de fundos de pensão canadenses, norte-americanos e suecos75 esquentou os ânimos. Até mesmo o jornal New York Times dedicou ao assunto uma longa reportagem exclusiva, com informações de bastidores.76 As organizações não governamentais Rede Social de Justiça e Direitos Humanos, grain, Inter Pares e Solidarity Sweden–Latin America analisaram os dados disponibilizados pelos próprios fundos de pensão, que revelaram aquisições de terras no valor de centenas de milhões de dólares para lavouras de cash crops, ou seja, plantações em larga escala que objetivam o lucro em primeiro lugar, como a cana-de-açúcar, a soja e o eucalipto. As ongs alertam para as consequências sociais e ambientais destes investimentos, feitos, por exemplo, por encomenda de fundos de pensão privados mantidos com recursos de professores.77


A Alemanha também participa do
land grabbing no Brasil. Na assembleia de acionistas de 23 de abril de 2015, em Munique, a maior empresa de resseguros do mundo, a Munich Re, confirmou que possui cem mil hectares espalhados pelo planeta, sendo 32% na América do Norte, 44% na Ásia, Oceania e Austrália, 16% na América do Sul, 5% na África e 3% na Europa. Só em plantações de eucalipto brasileiras a empresa controla quinze mil hectares.78 Solicitada a informar quem são seus parceiros nesses projetos, a Munich Re apontou para as cláusulas de confidencialidade. Mas uma olhada no relatório anual de 2015 revela que a empresa tem uma participação de 43,47% na rms Forest Growth International l. p., sediada no paraíso fiscal das Ilhas Cayman. Essa empresa tem uma filial no Brasil, a rms do Brasil Administração de Florestas Ltda., com sede em Curitiba, que também possui plantações próprias ou as administra a mando de terceiros,79 como a Donnet Participações, a Timbó Empreendimentos Florestais e a Chopim Empreendimentos Florestais. A Donnet, por sua vez, pertence ao Plano de Pensão dos Professores de Ontário, no Canadá, que assim garantem sua aposentadoria.


Em maio e junho de 2009, o fundo de pensão da Deutsche Bank
(dws) também quis dar a seus clientes europeus a chance de participar do boom do eucalipto brasileiro, oferecendo dois fundos fechados no valor de 27 milhões de dólares voltados a “investimentos em florestas e outros ramos da indústria madeireira do Phaunos Timber Fund Limited”. Segundo os folhetos distribuídos pelo dws, os fundos poderiam render até 650 milhões de dólares. A crise financeira, porém, fez as expectativas encolherem.


Sediado no paraíso fiscal da Ilha de Jersey, o Phaunos Timber é um fundo florestal que investe em aplicações supostamente “verdes”, como plantações de eucalipto. No norte de Minas Gerais, a Phaunos Timber Fund possui plantações de dezenove mil hectares, que legalmente pertencem à empresa Mata Mineira Investimentos Florestais Ltda, filial da Phaunos Timber, comprada em 2010 junto à Suzano, uma gigante da celulose, pela Vale do Jequitinhonha Silvicultura e Participações. “O principal mercado para os pés de eucalipto é o mercado brasileiro de carvão vegetal, que, por sua vez, é um ingrediente necessário para produzir ferro-gusa”, diz o Phaunos Timber Fund.


Enquanto o carvão vegetal é usado como combustível em altos-fornos e siderúrgicas para o mercado mundial, o Brasil exporta derivados de eucalipto no valor de 51,8 bilhões de reais — números de 2010, valendo, ao câmbio da época, 12,6 bilhões de euros. A maior parte vai para Europa, China e Estados Unidos.
80 Cerca de 20% do total de importações alemãs de celulose vêm do Brasil, o que equivale a novecentas mil toneladas por ano.81 No Brasil também se produzem pellets de eucalipto, que têm ciclos curtos, de quatro anos, para fornos de biomassa, sendo exportados também para usinas na Europa, graças às diretrizes de energia renovável editadas pela União Europeia em 2009.


Empresas alemãs participam do mercado brasileiro de
pellets de madeira para exportação, ainda que de maneira indireta. O banco regional Landesbank Baden-Württemberg lbbw foi um dos financiadores da maior fábrica de pellets do Brasil, a Tanac, situada na cidade de Montenegro, no Rio Grande do Sul, que produz quatrocentas mil toneladas por ano. A quantia exata do crédito não foi especificada. O objetivo é fornecer anualmente 350 mil toneladas de pellets à britânica Drax, do setor de energia, que transformará a madeira em eletricidade.82 A matéria-prima dos pellets da Tanac é a madeira de acácia. Em torno da fábrica existem cerca de 170 mil hectares de florestas que serão gradualmente “peletizadas”, transportadas por navio e depois queimadas para fins de obtenção de energia. No futuro, os derivados de eucalipto devem ser usados também como carvão biológico, substrato no solo ou combustível de celulose para automóveis. Os desertos verdes — ou seja, as plantações de eucalipto — não servem apenas para fornecer matéria-prima para a indústria. Ao mesmo tempo, têm valor como “florestas plantadas”.83 Desta forma, plantações de eucalipto podem ser registradas para projetos climáticos através do Mecanismo de Desenvolvimento Limpo das Nações Unidas, recebendo certificação de sustentabilidade pelo Conselho de Manejo Florestal (fsc, na sigla em inglês).


Se a sustentabilidade da monocultura de eucalipto é duvidosa, a dimensão social dos desertos verdes é escandalosa. Em Minas Gerais e Espírito Santo, a ditadura (1964–1985) roubou às comunidades tradicionais a terra que usavam coletivamente
84 a fim de transferir a propriedade a fazendeiros de eucalipto brasileiros e estrangeiros sob o manto da modernização e do desenvolvimento. Hoje, mais de dois milhões de hectares da região se destina à produção de um terço do eucalipto do país. O mesmo ocorreu com os povos indígenas do sul da Bahia e com os Tupiniquim e Guarani do Espírito Santo. Se antes as terras eram comunais — o que facilitou seu assalto por parte do Estado, uma vez que não possuíam títulos fundiários —, hoje em dia uma das principais características das monoculturas de eucalipto na região é que são vigiadas por seguranças armados. Assim, os pequenos agricultores e indígenas que antes as utilizavam livremente não podem sequer se aproximar. O argumento é o risco de “roubo” — no caso, de lenha.


Um caso que se tornou tragicamente famoso ocorreu em fevereiro de 2007, quando Antônio Joaquim dos Santos entrou em uma plantação de eucalipto certificada pelo
fsc no município de Canabrava, na região de Bocaiúva, no norte de Minas Gerais, supostamente para catar lenha. Dois seguranças da dona da plantação, a companhia francesa Vallourec-Mannesmann, prenderam, amarraram e o torturaram o homem até a morte, que padeceu diante dos olhos da própria filha. Até hoje o assassinato não foi esclarecido, e existe o risco da impunidade, já que o processo judicial vai sendo adiado e adiado. A companhia nunca foi responsabilizada e, devido a protestos internacionais, abriu mão da certificação do fsc. Depois da fusão com o grupo francês Vallourec, o ramo dedicado à plantação de eucalipto foi rebatizado para v&m Florestal. Em 2013, a empresa passou a se chamar Vallourec Florestal, que possui hoje 233 mil hectares de terras, embora, segundo a Constituição de 1988, companhias transnacionais possam deter no máximo 6.600 hectares.85


Falemos, pois, de “roubo”. Roubo é quando o Estado ou uma empresa priva pequenos camponeses e comunidades tradicionais de suas matas, onde sobreviviam há muitas gerações. Era a mata que lhes fornecia lenha, caça e pesca. Até que, um dia, rugem as motosserras, e então o “conglomerado sustentável de investimento florestal” do estrangeiro planta monoculturas de eucalipto prejudiciais ao meio ambiente, mas que crescem a uma velocidade espantosa, destroem a biodiversidade e o solo, exploram as águas subterrâneas, derramam pesticidas, reduzem o lençol freático e ainda por cima cercam o terreno com arame farpado e seguranças armados. É isso o que as comunidades percebem como roubo. E os pequenos camponeses são obrigados a lutar pela sobrevivência.
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Apropriação de terras na Amazônia


O
land grabbing não é exatamente um fenômeno novo. Em maio de 1978, circulou a notícia de que a empresa de informática alemã Nixdorf estaria expulsando camponeses de suas terras na Alemanha a fim de entrar na produção e no comércio de mogno.87 Em 1977, a Nixdorf adquiriu da Companhia Agropecuária São Salomão cinquenta mil hectares de terra no sul do Pará. No início de 1978, a Comissão Pastoral da Terra da região do Tocantins e do Araguaia divulgou que a Nixdorf queria expulsar judicialmente as trezentas famílias que viviam nas terras, algumas delas assentadas havia mais de vinte anos. Para evitar o confronto aberto, a empresa informou que indenizaria os pequenos agricultores considerados donos das terras. O resultado foi que, a cada noite que passava, mais gente desmatava um pequeno pedaço de terra, declarando-o como de sua propriedade.


A ideia da Nixdorf era cultivar mogno e outras madeiras nobres em trinta mil hectares, e deixar gado pastando nos outros dezessete mil hectares — tudo para exportação. O plano deu errado. A sede da companhia, em Paderborn, na Alemanha, ordenou o cancelamento do projeto. A empresa de informática decidiu que não queria financiar a apropriação indébita de terras no Brasil, resumiu a revista
Der Spiegel em 1983.


Desde sempre foi preciso conseguir mão de obra para abrir as fronteiras da Amazônia por meio de grandes fazendas. E até hoje, na região, quem arregimenta esta mão de obra são os chamados “
gatos”, intermediários que atraem trabalhadores de lugares distantes com promessas que acabam não sendo cumpridas. O resultado é um regime de semiescravidão, em que as pessoas precisam trabalhar para pagar dívidas contraídas durante o próprio trabalho. Os fazendeiros contratam pistoleiros que impedem os trabalhadores de se defender ou de fugir.88 Estimativas dão conta de que, entre 1970 e 1993, havia 85 mil trabalhadores em regime análogo à escravidão ou em trabalhos forçados no Brasil.89


A escravidão foi abolida em 1888. Mas nunca deixou de existir. Por meio do chamado sistema de colonato, as fazendas de café de São Paulo empregavam imigrantes da Europa e da Ásia no final do século
xix, e seus gastos de viagem e alimentação geralmente eram convertidos em dívidas que tinham de pagar com trabalho. Durante o boom da borracha na Amazônia, no início do século xx, muitos seringueiros foram trazidos do Nordeste, sendo que a maioria deles terminou em regime de servidão por dívidas.90


A partir dos anos 1960, o regime militar concentrou esforços no “desenvolvimento” da Amazônia. Para isso, em primeiro lugar, cerca de 60% do território brasileiro foi incluído definido como Amazônia Legal.
Com ajuda de subsídios da Operação Amazônia e com a criação da Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia (Sudam), a região começou a ser explorada a partir de 1966, no governo militar do marechal Humberto Castelo Branco, principalmente por meio de gigantescas fazendas. No início, tudo caminhou lentamente, mas a rodovia Transamazônica, inaugurada em 1972 pelo general Emílio de Garrastazu Médici, criou a infraestrutura necessária para a exploração. As atividades guerrilheiras na região eram um fator de insegurança para investidores nacionais e internacionais. A partir de 1972, o Exército começou a atacar os grupos comunistas do Araguaia. Em 1973 e 1974, a guerrilha foi arrasada e seus membros torturados, assassinados, enterrados. Mas era preciso criar outros estímulos a fim de abrir o caminho para a exploração da Amazônia. Um dos instrumentos foi a isenção de impostos para grandes empresas que investissem, por exemplo, em projetos de pecuária. A aritmética fiscal transformava cada cruzeiro investido em três cruzeiros de subsídios.


Isso desencadeou uma corrida por terras. Os investidores compravam títulos fundiários, criando grandes negócios para os grileiros e produzindo as condições para um cenário de guerra permanente pela terra entre os camponeses, ribeirinhos, pistoleiros e novos proprietários. O governo federal percebeu que os investidores internacionais não eram atraídos por cenas de bangue-bangue, mas sim por calma e tranquilidade. Assim, ajudariam a “conduzir o capital até os tesouros de Carajás” e a “construir a indústria para explorar os recursos naturais”. Faroeste na Amazônia e altos investimentos eram incompatíveis.
91 O governo enviou, assim, 750 servidores à região, que abrange 4,5 milhões de hectares, para interromper as guerras particulares e, ao mesmo tempo, garantir um clima favorável a investimentos. Só então as empresas vieram, sedentas pela terra barata da Amazônia. Entre elas, estava a Volkswagen do Brasil.


A fazenda da Volkswagen no rio Cristalino: 
inocência, ignorância ou (novamente) cálculo financeiro?


No âmbito da febre de dinheiro da Sudam para abrir as fronteiras da Amazônia, uma área florestal antes praticamente intocada de 3,8 milhões de hectares foi transformada em pasto. Entre os investidores internacionais, encontravam-se conglomerados como o fabricante de vidro francês Saint-Gobain ou a norte-americana DuPont, gigante do setor químico. Mas quem atraiu a atenção da opinião pública foi a Volkswagen.


Bem-vindo ao mundo de
Marlboro, parece estar saudando constantemente esta fazenda situada no Rio Cristalino, na região do Araguaia, e até o homem com chapéu de gaúcho que me leva para conhecer a propriedade de 139.392 hectares a bordo de um sofisticado 4 x 4 parece ter saído diretamente de um comercial de cigarros. Vaqueiros a cavalo tocam magníficos rebanhos que saem do capim alto na frente dos carros abertos, e assim nós cruzamos esse faroeste tridimensional. Claro que eu fico impressionado, e este é justamente o objetivo do show para convidados especiais. Afinal, sou do país onde moram os acionistas da Volkswagen, e a fazenda pertence à Volkswagen do Brasil.


Assim a repórter da
Der Spiegel descreveu sua visita à fazenda, em 1983.92 A Volkswagen comprara a área em 1974 com subsídio da Sudam. Se o objetivo do regime militar ao subsidiar transações fundiárias com recursos públicos era “desenvolver” a Amazônia, a visão da empresa era bem menos idealista. Em uma audiência pública no parlamento alemão, os executivos da montadora admitiram: “Nossa motivação não foi a responsabilidade ética, e sim, em primeiro lugar, a obtenção de uma série de vantagens na tributação dos lucros”.93 Em 1974, a participação da Volkswagen no mercado automobilístico brasileiro, segundo relatório da empresa, era de 50%, chegando a 54% em 1975.94 Com 2,630 milhões de cruzeiros, a companhia era o maior pagador de impostos no Brasil em 1975.95 Com a compra da fazenda na Amazônia, o objetivo era iniciar em 1981 as operações de um abatedouro pertencente a uma joint venture formada pela Volkswagen do Brasil (20%), pela processadora de carnes alemã Atlas Handel (29%) e por empresas regionais (51%). Os planos era possuir um rebanho bovino de 110 mil cabeças até 1983. Para isso, era preciso desmatar 50% da fazenda, ou seja, 70 mil hectares de floresta.


Cheguei no avião da Cristalino, em que também estava inscrito o nome do patrocinador, a Sudam, e fui confortavelmente alojada na casa de hóspedes da fazenda, com direito a rede, pele de onça na parede e música agradável nos alto-falantes, entremeada por gritos de papagaios”, continua a correspondente da Spiegel.96 Em seguida, porém, a jornalista prestou atenção nas pessoas incumbidas de desmatar os 70 mil hectares:

Os oitocentos trabalhadores da fazenda Cristalino vivem à margem da infraestrutura feita para os operários nas bonitinhas casinhas de tijolo com energia elétrica e água corrente. É hábito que a classe baixa na Amazônia se vendam aos chamados ‘gatos’, e que esses gatos, por sua vez, vendam às empresas uma empreitada de desmatamento. Assim, a Volkswagen não tem nada a ver com esses trabalhadores terceirizados. Quem cuida deles são os gatos. Alguns dessa categoria têm fama de feitores de escravos. Outros, embora obtenham lucros com o comércio humano, acabam sendo reconhecidos como salvadores daqueles que não têm mínimas condições de sobrevivências nas difíceis condições da Amazônia.97


O historiador Antoine Acker, que também se dedicou ao caso da fazenda, tampouco viu “nada de particularmente novo no caso envolvendo a Volkswagen. O sistema de escravidão por dívida, que envolvia os ‘gatos’ da
CVRC [Rio Cristalino], estava ancorado nas relações de trabalho amazônicas, que afetaram centenas de milhares de seringueiros desde o primeiro ciclo da borracha, no último terço do século xix”. Segundo essa perspectiva, o sistema de gatos sofreu uma retração depois da queda dos preços da borracha, nos anos 1920, voltando temporariamente durante a Segunda Guerra Mundial e, com mais força, a partir do final dos anos 1960, alavancado pela forte demanda de mão de obra para as fazendas de gado da Amazônia. Está fora de questão que o sistema de gatos esteja sujeito a ciclos econômicos. O que surpreende é a conclusão da pesquisa, de que “a fazenda Volkswagen não era, de forma alguma, a primeira ou única a depender do trabalho dos gatos”. Além de tudo, diz o livro, é discutível se a empresa era diretamente responsável pelos muitos casos de trabalho forçado em associação com a fazenda Rio Cristalino. “Entretanto, em um clima político-econômico marcado por conflitos fundiários que proliferavam, a fazenda da Volkswagen tornou-se alvo ideal para ataques de nacionalistas brasileiros. Porque a Volkswagen era uma empresa multinacional de grande visibilidade, esse ataque não ficou restrito às fronteiras brasileiras, mas também teve repercussões no exterior.”98


De acordo com essa linha de argumentação, a corporação alemã não tinha responsabilidade alguma em relação às condições de trabalho das pessoas agenciadas por gatos e escravizadas em sua fazenda. Mas quem, no final dessa “cadeia de fornecimento de serviços”, lucrou com a mão de obra explorada em regime de trabalho forçado? Será que uma acusação de trabalho escravo pode ser resolvida de modo tão simples, apontando-se para o fato de que não foi a primeira nem a última empresa que usou o regime de agenciamento via gatos, um sistema laboral inscrito indelevelmente na Amazônia e dependente de demanda? Se fosse assim, por que os funcionários da Volkswagen tão bem-sucedidos no Brasil desde 1953 nem imaginaram que os feitores locais empregariam métodos de trabalho forçado e escravo? Inocência, ignorância ou cálculo? Se uma firma terceirizada for colocada no meio de uma cadeia produtiva, é ela a única responsável?


A “absolvição” dos historiadores se baseou no argumento de que a multinacional, com sua enorme visibilidade, era um alvo ideal. Tal argumentação forma parte de uma narrativa bastante bem-sucedida: a de que os grandes são a verdadeira vítima.


Hoje em dia, as empresas se dizem chocadas ao reagir a informações de casos comprovados de trabalho forçado em sua cadeia de fornecimento, expressam consternação e gostam de apontar para o trabalho tranquilizador da polícia, de instâncias governamentais e tribunais que revelam tais casos. Mas, depois, acabam não tomando nenhuma medida substancial para enfrentar o problema. Hoje em dia, pelo menos, as companhias muito raramente usam a desculpa já muito desgastada de que tais regimes de trabalho são “normais” em certas regiões. Geralmente, preferem esquivam-se com a frase: “não sabíamos de nada”. Mas a Volkswagen não podia se esquivar. Já naquela época, no Brasil e na Alemanha, havia a consciência de que o sistema era moralmente repudiável. Caso contrário, a
cpt não teria conseguido tanta atenção da mídia para o tema do trabalho escravo na fazenda Cristalino. Assim, no “caso da fazenda da Volkswagen na Amazônia”, pelo menos um aspecto é indiscutível: a da resistência globalizada, extremamente efetiva em um primeiro momento. A cooperação da cpt, que soubera dos casos de trabalho forçado, globalizou-se à medida que os sindicalistas de São Paulo e, depois, seus colegas na Alemanha tomaram conhecimento da história, unindo grupos de solidariedade nos dois países.99 Foi um dos grandes exemplos de trabalho em rede transnacional.100


Trabalho forçado no Brasil de hoje


De acordo com as estimativas mais recentes do Índice Global de Escravidão (Global Slavery Index) da Walk Free Foundation, 45,8 milhões de pessoas se encontram em regime de trabalho forçado ou escravo em todo o mundo. Segundo a mesma instituição, 155 mil pessoas trabalhavam nessas condições no Brasil em 2014.
101


Graças à Lei de Acesso à Informação, no início de junho de 2016 a
ONG Repórter Brasil conseguiu obter a lista mais recente das empresas e das pessoas condenadas judicialmente por manter pessoas em regime de trabalho escravo ou forçado no país: a chamada lista suja do trabalho escravo. Trata-se da quarta lista feita ao longo dos últimos treze anos. Entre 2003 e 2014, o documento era divulgado pelo Ministério do Trabalho. Em dezembro de 2014, no entanto, o Supremo Tribunal Federal vetou a divulgação. A disputa judicial durou cerca de dois anos. Representantes dos grandes latifundiários, bem como advogados de empresas, quiseram impedir a difusão. O veto foi abolido em maio de 2016, mas, mesmo assim, o Ministério do Trabalho não publicou a lista, alegando não possuir os dados. A Repórter Brasil, então, recorreu à Lei de Acesso à Informação e recebeu os dados coligidos pelo governo em parceria com o Instituto do Pacto Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo (Inpacto).102 A lista traz 349 nomes de pessoas e empresas processadas ou condenadas por se valer de trabalho escravo ou forçado. Na realidade, a relação continha 350 nomes. No entanto, um deles continua mantido em sigilo, uma vez que o Tribunal de Justiça da Bahia ordenou que não fosse divulgado, atendendo a um pedido de liminar de uma empresa local.


Em 2015, o Ministério do Trabalho libertou 936 pessoas de condições de trabalho análogas à escravidão.
Entre janeiro e meados de dezembro de 2015, o Grupo Especial de Fiscalização Móvel fez 125 inspeções em um total de 229 empreendimentos, investigando no total 6.826 pessoas. Em 936 casos, as autoridades constataram condições análogas à escravidão. O Ministério do Trabalho informou ainda que a maioria dos resgatados são homens jovens com baixa escolaridade, geralmente migrantes de outras regiões do país. Nada disso é desconhecido no Brasil. De acordo com uma pesquisa de opinião representativa, 70% dos brasileiros sabem que ainda há trabalho escravo no país.103 Tanto nas estatísticas do Ministério do Trabalho quanto nas análises da oit,104 os setores que mais lançam mão desse crime são a construção civil e a indústria agrícola e de processamento de produtos agrícolas, bem como a indústria têxtil.105 As diferenças regionais são nítidas. Se, nas grandes cidades, é o setor da construção civil — e, na Grande São Paulo, a indústria têxtil — que conta a maioria dos casos, na agricultura geralmente são as plantações de cana-de-açúcar e a pecuária, sobretudo a bovina. Em algumas áreas rurais, o triste ranking é encabeçado pela produção de carvão vegetal a partir do eucalipto.


O crime de exploração por trabalho em condições análogas à escravidão é definido pelo artigo 149 da Constituição, e se configura por um dos seguintes critérios: jornadas exaustivas, remuneração baixa e não pagamento de horas extras, servidão por dívida ou condições degradantes de trabalho. Tramita no Legislativo,
106 porém, uma série de projetos de lei apresentados pela bancada ruralista que pretendem mudar as leis que tipificam o trabalho escravo para que apenas a “falta de liberdade”, e não os outros critérios, seja levada em consideração em sua tipificação. Também existe uma tentativa de fazer com que os nomes de pessoas ou de empresas acusadas só sejam publicados depois de decisão em última instância.


O trabalho escravo, hoje, é um instrumento das modernas cadeias de produção em busca de mais competitividade”, disse Leonardo Sakamoto, diretor da ong Repórter Brasil, à onu em maio de 2016. Por meio dessas cadeias de produção, cada vez mais difíceis de serem identificadas, praticamente todos os consumidores estão conectados ao trabalho escravo. “Estamos ligados através do consumo. Um carro vendido aqui [nos Estados Unidos] foi construído em Detroit com aço produzido com ajuda de carvão vegetal nos campos na Amazônia, que possivelmente está relacionado com trabalho escravo.” De acordo com Sakamoto, foram identificados desde 2003 um total de setecentas cadeias de produção que empregou trabalhadores em condições análogas à escravidão. Além de “centenas de empresas brasileiras, também estão envolvidas multinacionais”. O trabalho escravo ou forçado, segundo Sakamoto, é o combustível “dos nossos carros, dos nossos prédios, da nossa moda”.107

1Ao Senhor Dirk Brengelmann, Embaixador da Alemanha no Brasil”, 11 de agosto de 2016. Disponível em <http://cimi.org.br/pub/doc/carta-embAlemanha_08-2016.pdf>.

2Indígenas pedem que países suspendam importação de commodities brasileiras”, em Cimi, 5 de julho de 2016. Disponível em <http://cimi.org.br/site/pt-br/?system=news&conteudo_id=8805&action=read>.

3Povos tradicionais protestam na Embaixada da Alemanha por produção sustentável”, em Agência Brasil, 11 de agosto de 2016. Disponível em <http://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2016-08/povos-tradicionais-protestam-na-embaixada-da-alemanha-por-producao-sustentavel>.

4Indígenas, quilombolas e pescadores pedem à Alemanha que não importe produtos de quem agride suas vidas e territórios”, em Cimi, 11 de agosto de 2016. Disponível em <http://www.cimi.org.br/site/pt-br/?system=news&conteudo_id=8864&action=read>.

5 Para outras estatísticas da fao sobre o Brasil, ver “faostat”. Disponível em <http://faostat.fao.org/site/339/default.aspx>.

6 Christian Russau. “Bohren, was das Zeug hält. Brasiliens extraktive Industrien wollen den grossen Sprung wagen” [Extrair enquanto for possível: as indústrias extrativas brasileiras querem dar o grande salto], em Lateinamerika Nachrichten, nº 459/460, setembro-outubro de 2012. Disponível em <http://lateinamerika-nachrichten.de/?aaartikel=ab-durch-die-roehre>.

7Statistisches Bundesamt: Aussenhandel. Rangfolge der Handelspartner im Aussenhandel der Bundesrepublik Deutschland” [Ranking dos parceiros comerciais da Alemanha, Instituto de Estatística da Alemanha], Wiesbaden, 2016, p. 2.

8 Christliche Initiative Romero & Global 2000. “Squeeze out: the truth behind the orange juice business” [Espremidos: a verdade por trás do negócio do suco de laranja], 2015. Disponível em <http://www.ci-romero.de/fileadmin/download/presse/Pressemappe_o-Saft_Studie_2015/sc_Squeeze_out_en.pdf>.

9 Para mais detalhes sobre as condições de trabalho na indústria da carne, ver o documentário Carne, osso, de Carlos Juliano Barros e Caio Cavecchini. Disponível em <http://carneosso.reporterbrasil.org.br/o-filme/>.

10 4:You Property Partners plc. “Brazil’s Main Agricultural Products and Exports”. Disponível em <http://www.4property.uk.com/brazil/main-agricultural-products-and-exports/>.

11 Gerhard Dilger. “Greenpeace-Report zu Amazonas-Rindern: ‘Schmutziges Fleisch’ bei Aldi und Lidl. Aldi, Lidl und Makro verkaufen Rindfleisch von ‘illegalen’ Farmen aus Amazonien, so ein Greenpeace-Report. bmw und Adidas nutzen Leder aus dubiosen Viehbeständen” [reportagem sobre relatório do Greenpeace sobre carne bovina proveniente de fazendas ilegais vendida em supermercados alemães], em taz, 2 de junho de 2009.

12 wwf. “Produção e exportação de soja brasileira e o Cerrado 2001–2010”, 2012, p. 17.

13 Ministério da Agricultura. “Balança Comercial 2015”. Disponível em <http://www.agricultura.gov.br/internacional/indicadores-e-estatisticas/balanca-comercial>.

14Exportações do complexo soja rendem US$ 27,96 bi em 2015”, em Canal Rural, 11 de janeiro de 2016. Disponível em <http://www.canalrural.com.br/noticias/soja/exportacoes-complexo-soja-rendem-2796-2015-60384>.

15Soja em números”, em Embrapa. Disponível em <http://www.embrapa.br/soja/cultivos/soja1/dados-economicos>.

16 Instituto Alemão Federal de Estatística (Statistisches Bundesamt). “Tiere und tierische Erzeugung”, em DStatis. Disponível em <https://www.destatis.de/DE/ZahlenFakten/Wirtschaftsbereiche/LandForstwirtschaftFischerei/TiereundtierischeErzeugung/TiereundtierischeErzeugung.html;jsessionid=75B9994D9AF390BA16C80449DA6E6B0A.cae1>.

17 Um atlas de nossa agricultura envenenada”, em Abong, 6 de julho de 2016. Disponível em <http://www.abong.org.br/biblioteca.php?id=9482&it=9844>.

18 Studie: Agrargifte in Muttermilch im Bundesstaat Mato Grosso” [Estudo: pesticidas no leite materno em Mato Grosso], em Amerika 21, 1º de abril de 2011. Disponível em <https://amerika21.de/meldung/2011/04/27412/agrargifte-muttermilch>.

19Pesticidas pueden contaminar el interior del Acuífero Guaraní”, em abc Color, 11 de dezembro de 2002. Disponível em <http://www.abc.com.py/edicion-impresa/economia/pesticidas-pueden-contaminar-el-interior-del-acuifero-guarani-676313.html>.

20Guarani Aquifer: Strategic Action Program. Argentina, Brazil, Paraguay, Uruguay, 2009”, em Agência Nacional da Água. Disponível em <http://www.ana.gov.br/bibliotecavirtual/arquivos/20100223172013_PEA_GUARANI_Ing.pdf>.

21Uso de agrotóxicos no Brasil mais que dobra em 10 anos, diz ibge”, em Sul 21, 20 de junho de 2015. Disponível em <http://www.sul21.com.br/jornal/uso-de-agrotoxicos-no-brasil-mais-que-dobra-em-10-anos-diz-ibge/>.

22Carcinogenicity of tetrachlorvinphos, parathion, malathion, diazinon, and glyphosate”, em The Lancet, 20 de março de 2015. Disponível em <http://www.thelancet.com/journals/lanonc/article/PIIS1470-2045%2815%2970134-8/fulltext>.

23MPF reforça pedido para banir glifosato”, em Revista Globo Rural, 20 de abril de 2015. Disponível em <http://revistagloborural.globo.com/Noticias/Agricultura/noticia/2015/04/mpf-reforca-pedido-para-banir-glifosato.html>.

24Campeão mundial de envenenamento: pesticidas intoxicam trabalhadores rurais e contaminam alimentos”, em Ecodebate, 1º de julho de 2009. Disponível em <https://www.ecodebate.com.br/2009/07/11/campeao-mundial-de-envenenamento-pesticidas-intoxicam-trabalhadores-rurais-e-contaminam-alimentos/>.

25 “‘Não tem como voltar para a capinação’, diz gerente da basf sobre herbicidas”, em Revista Globo Rural, 20 de junho de 2015. Disponível em <http://revistagloborural.globo.com/Noticias/Agricultura/Soja/noticia/2015/06/nao-tem-como-voltar-para-capinacao-diz-gerente-da-basf-sobre-herbicidas.html>.

26basf: 480 Millionen Euro Entschädigung für Arbeiter” [480 milhões de euros em indenizações para trabalhadores], em Amerika 21, 7 de abril de 2011. Disponível em <https://amerika21.de/meldung/2011/04/27707/basf-entschaedigung-gericht>.

27Relatório anual 2011”, em basf. Disponível em <http://bericht.basf.com/2011/de/anhang/erlaeuterungenzurbilanz/anmerkung24.html>.

28 Idem.

29Anvisa interdita 800 mil litros de agrotóxicos da Basf em sp”, em ihu Unisinos, 9 de março de 2010. Disponível em <http://www.ihu.unisinos.br/noticias/30515-anvisa-interdita-800-mil-litros-de-agrotoxicos-da-basf-em-sp>.

30Anvisa autua Basf por reaproveitar lotes de agrotóxicos vencidos”, em mst, 19 de agosto de 2011. Disponível em <http://antigo.mst.org.br/node/12310>.

31Nachhaltigkeit bei basf. Chemie, die verbindet — für eine nachhaltige Zukunft” [Sustentabilidade na basf. Química para um futuro sustentável], em basf. Disponível em <https://www.basf.com/de/de/company/sustainability.html>. Acesso em 10 de agosto de 2016.

32Soluções para Agricultura”, em basf. Disponível em <http://www.agro.basf.com.br/agr/ms/apbrazil/pt_BR/content/APBrazil/solutions/index>.

33Plants. eu Pesticides database”, em Comissão Europeia. Disponível em <http://ec.europa.eu/food/plant/pesticides/eu-pesticides-database/public/?event=activesubstance.selection&language=en>.

34 E-mail da BASF ao autor, 21 de janeiro de 2016.

35Produtos”, em Agro Bayer Brasil. Disponível em < https://www.agro.bayer.com.br/produtos>.

36 E-mail da Bayer ao autor, 27 de janeiro de 2016.

37Plants. eu Pesticides database”, op. cit.

38Highly Hazardous Pesticides”, em pan Germany. Disponível em <http://www.pan-germany.org/gbr/project_work/highly_hazardous_pesticides.html>.

39usa: Orangensaft mit bayer-Pestizid Carbendazim belastet” [Suco de laranja contaminado com o pesticida carbendazim], em cbg, 13 de janeiro de 2012. Disponível em <http://www.cbgnetwork.org/4222.html>.

40Disulfoton — Identification, toxicity, use, water pollution potential, ecological toxicity and regulatory information”, em pan Pesticides Database — Chemicals. Disponível em <http://www.pesticideinfo.org/Detail_Chemical.jsp?Rec_Id=PC33305>.

41Ioxynil — Identification, toxicity, use, water pollution potential, ecological toxicity and regulatory information”, em pan Pesticides Database — Chemicals. Disponível em <http://www.pesticideinfo.org/Detail_Chemical.jsp?Rec_Id=PC33032>.

42Thiodicarb — Identification, toxicity, use, water pollution potential, ecological toxicity and regulatory information”, em PAN Pesticides Database — Chemicals. Disponível em <http://www.pesticideinfo.org/Detail_Chemical.jsp?Rec_Id=PC34586>.

43 Joanne Whalen. “Larvin Insecticide Cancelled”, em University of Delaware, 3 de abril de 2014. Disponível em <https://extension.udel.edu/weeklycropupdate/?p=6603>.

44Poluição por metais e compostos orgânicos associada à unidade da Bayer em Belford Roxo”. Greenpeace: Rio de Janeiro, 2000. Disponível em <http://www.greenpeace.org/brasil/PageFiles/4950/bayer_relatorio.pdf>.

45 Jan Pehrke. “Wenn es von bayer ist, ist es Gift”, em Stichwort Bayer, número 02/01. Disponível em <http://www.cbgnetwork.org/Ubersicht/Zeitschrift_SWB/SWB_2001/SWB_02_01/Bayer_Brasilien/bayer_brasilien.html>.

46 Greenpeace, op. cit., p. 8.

47 Idem, p. 12.

48 Idem, p. 16.

49 Idem, p. 26.

50 Idem, p. 27.

51 Jan Pehrke, op. cit.

52Ideologiegesteuerte Dichtung: Vorbilder am Zuckerhut” [Lirismo ideológico: Empresas-modelo na terra do Pão-de-Açúcar], dezembro de 1995.

53The Soy Moratorium in the Amazon Biome Monitored by Remote Sensing Images”, em Remote Sensing, 2011, 3, pp. 185-202.

54Brazil’s Soy Moratorium”, em Science, janeiro de 2015, vol. 347, nº 6.220, pp. 377-8.

55Conflitos no Campo 2015”, em cpt, abril 2016, p. 199. Disponível em <http://www.cptnacional.org.br/index.php/component/jdownloads/send/41-conflitos-no-campo-brasil-publicacao/14019-conflitos-no-campo-brasil-2015>.

56Em nome do lucro, Kátia Abreu e cia. decretam a extinção do Cerrado”, em 18 de junho de 2015. Disponível em <http://www.mst.org.br/2015/06/18/em-nome-do-lucro-katia-abreu-e-cia-decretam-a-extincao-do-cerrado-brasileiro.html>.

57As Florestas Plantadas”, em Sistema Nacional de Informações Florestais. Disponível em <http://www.florestal.gov.br/snif/recursos-florestais/as-florestas-plantadas>.

58 Repórter Brasil. “Deserto verde: Os impactos do cultivo de eucalipto e pinus no Brasil”. Repórter Brasil: São Paulo, 2011, p. 3.

59Short rotation woody crop plantations in Brazil and the Unites States”, em Biomass and Energy, 1991, pp. 305-6.

60 fao. “Bio-physical and Environmental Impacts of Eucalyptus Plantations”, em Regional Expert consultation on Eucalyptus, 4 a 8 de outubro de 1993, Bangcoc. Disponível em <http://www.fao.org/docrep/005/ac777e/ac777e0a.htm>.

61 wwf, op. cit., p. 10.

62Runoff and soil erosion for an undisturbed. Brazilian Cerrado site under natural rainfall. Earth Surface Processes and Landforms”, 2015, e “Trends in water balance components across the Brazilian Cerrado”, 2014. Disponível em <http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1002/2013WR015202/abstract>.

63O Cerrado está extinto e isso leva ao fim dos rios e dos reservatórios de água”, em Jornal Opção, 6 de outubro de 2014. Disponível em <http://www.jornalopcao.com.br/entrevistas/o-cerrado-esta-extinto-e-isso-leva-ao-fim-dos-rios-e-dos-reservatorios-de-agua-16970/>.

64Alterações do balanço hídrico no Cerrado podem afetar importantes setores da economia brasileira. Entrevista especial com Paulo Tarso Sanches Oliveira”, em Instituto Humanitas Unisinos, 26 de fevereiro de 2015. Disponível em <http://www.ihu.unisinos.br/entrevistas/540205-alteracoes-do-balanco-hidrico-no-cerrado-podem-afetar-importantes-setores-da-economia-brasileira-entrevista-especial-com-paulo-tarso-sanches-oliveira>.

65O mapa dos ventos”, em Revista Pesquisa, agosto de 2005. Disponível em <http://revistapesquisa.fapesp.br/2005/08/01/o-mapa-dos-ventos/>.

66Sem chuva da Amazônia, sp vira deserto. Entrevista com Antonio Nobre, pesquisador do Inpe”, em Valor Econômico, 12 de janeiro de 2009.

67 Antônio Nobre. “O Futuro Climático da Amazônia. Relatório de Avaliação Científica”. São José dos Campos: Edição ara, ccst-inpe e inpa, 2014, p. 30. Disponível em <http://www.ccst.inpe.br/wp-content/uploads/2014/10/Futuro-Climatico-da-Amazonia.pdf>.

68Fliegende Flüsse, umgestülpte Wälder und die trockene Stadt”, em Lateinamerika Nachrichten, edição 489, março de 2015. Disponível em <http://lateinamerika-nachrichten.de/?aaartikel=fliegende-fluesse-umgestuelpte-waelder-und-die-trockene-stadt>.

69Ab durch die Röhre”, em Lateinamerika Nachrichten, edição 439, janeiro de 2011.

70 Fórum Unitário dos Movimentos Sociais e Sindicais do Campo e da Cidade. “Por que pedimos o boicote ao agronegócio do Mato Grosso do Sul?”, em Cimi, 16 de outubro de 2015. Disponível em <http://www.cimi.org.br/site/pt-br/?system=news&action=read&id=8415>.

71 Comissão Pastoral da Terra, Secretaria Nacional, Assessoria de Comunicação. “Violência: os recordes de 2016”. Disponível em <https://www.cptnacional.org.br/component/jdownloads/send/58-dados-2016/14059-violencia-os-recordes-de-2016-cpt-assessoria-de-comunicacao.>

72Grossfarmer greift Landlose mit Agrarchemikalien na” [Fazendeiro ataca sem-terra com agrotóxicos], em Amerika 21, 18 de julho de 2012. Disponível em <https://amerika21.de/meldung/2012/07/53389/farmer-angriff-landlose>.

73Giftgasattacke im Bauerndorf”, em Die Zeit, 13 de maio de 2016. Disponível em <http://www.zeit.de/gesellschaft/2016-05/landraub-brasilien-bauernsiedlung-grossfarmer-kampf>.

74Landgrabbing befördert auch in Brasilien die Bodenpreise” [O land grabbing aumenta os preços da terra também no Brasil], em Kooperation Brasilien, 3 de março de 2015. Disponível em <https://www.kooperation-brasilien.org/de/themen/landkonflikte-umwelt/landgrabbing-befoerdert-auch-in-brasilien-die-bodenpreise>.

75Foreign pension funds and land grabbing in Brazil”, em Grain, 16 de novembro de 2015. Disponível em <https://www.grain.org/article/entries/5336-foreign-pension-funds-and-land-grabbing-in-brazil>.

76tiaa-cref, u.s. Investment Giant, Accused of Land Grabs in Brazil”, em New York Times, 17 de novembro de 2015. Disponível em <http://www.nytimes.com/2015/11/17/world/americas/tiaa-cref-us-investment-giant-accused-of-land-grabs-in-brazil.html>.

77Foreign pension funds and land grabbing in Brazil”, op. cit.

78Wie würden Sie reagieren, wenn eine Baufirma daher kommt und die Münchener Frauenkirche mit Bulldozern einreisst?” [Como você reagiria se uma empreiteira viesse derrubar a Frauenkirche de Munique?], em Kooperation Brasilien, 28 de abril de 2015. Disponível em <https://www.kooperation-brasilien.org/de/themen/landkonflikte-umwelt/belo-monte/wie-wuerden-sie-reagieren-wenn-eine-baufirma-daher-kommt-und-die-muenchener-frauenkirche-mit-bulldozern-einreisst>.

79Diário pr: Com. Ind. e Serviços”, em Radar Oficial, 11 de junho de 2014. Disponível em <http://www.radaroficial.com.br/d/6600454926499840>.

80 Réporter Brasil, op. cit.

81(Natur)Wald oder (Papier)Berge? Weiter so?”, em fuge-News, fevereiro de 2015. Disponível em <https://fuge-hamm.org/2015/07/01/fuge-news-ausgabe-02-2015/>.

82End support for Drax power station: stop harmful subsidies for biomass”, em Biofuelwatch, 22 de abril de 2015. Disponível em <http://www.biofuelwatch.org.uk/wp-content/uploads/DECC-open-letter-biomass-coal-april-2015.pdf>.

83Forestry/Land-use projects in the CDM”, em Carbon Market Watch. Disponível em <http://carbonmarketwatch.org/category/sustainable-development/forestry-land-use-projects/>.

84Unsichtbare Wirtschaftsformen traditioneller Gemeinschaften im Norden von Minas Gerais” [Formas de economia invisíveis de comunidades tradicionais no norte de Minas Gerais], em Traditionelle Völker und Gemeinschaften in Brasilien, [Povos e comunidades tradicionais no Brasil], Kassel University Press: Kassel, 2011, pp. 69-85.

85 “‘Eine grosse grüne Wüste’. Eukalyptusplantagen in Brasilien sind die kommerziellen Wälder der Bioökonomie” [“Um grande deserto verde”. Plantações de eucalipto são as florestas comerciais da bioeconomia no Brasil], em Lateinamerika Nachrichten, dossiê 13, número 498, dezembro de 2015, pp. 30-4.

86 Christian Russau. “Rede auf der Münchener Rück-Hauptversammlung” [Fala durante a assembleia geral da Munich Re], em Kritische Aktionaere, abril 2015. Disponível em <http://www.kritischeaktionaere.de/fileadmin/Dokumente/Reden_2015/Rede_Christian_Russau_Kritische_Aktionaere_MunichRe-April-2015.pdf>.

87 Brasilien Nachrichten, nº 24, maio de 1978, p. 23.

88 oit. “Perfil dos Principais Atores Envolvidos no Trabalho Escravo Rural no Brasil”, 2011, p. 14f. Disponível em <http://www.oitbrasil.org.br/sites/default/files/topic/gender/pub/perfil%20atores%20trabalho%20escravo%20rural_632.pdf>.

89 Idem, p. 14.

90 Idem, p. 13s.

91Aufbruch zur letzten Grenze” [Partindo para a última fronteira], em Der Spiegel, 3 de outubro de 1983. Disponível em < http://www.spiegel.de/spiegel/print/d-14023679.html >.

92 Idem.

93VW do Brasil. Entwicklungshilfe im besten Sinne?” [Volkswagen do Brasil: ajuda ao desenvolvimento no melhor sentido?], Brasilien Nachrichten, novembro de 1978, p. 71.

94 Idem, p. 129.

95 Idem, p. 135.

96Aufbruch zur letzten Grenze”, op. cit.

97 Idem.

98 “‘O maior incêndio do planeta’: como a Volkswagen e o regime militar brasileiro acidentalmente ajudaram a transformar a Amazônia em uma arena política global”, em Revista Brasileira de História, vol. 34, nº 68, p. 26.

99 Benjamin Buclet. “Entre tecnologia e escravidão: a aventura da Volkswagen na Amazônia”, em Revista do Programa de Pós-Graduação em Serviço Social da puc-Rio, nº 13, 2005.

100Zwangsarbeit auf Farm-Gelände von VW Brasilien”, em ndr, 10 de agosto de 2017. Disponível em <https://www.ndr.de/nachrichten/niedersachsen/braunschweig_harz_goettingen/Zwangsarbeit-auf-Farm-Gelaende-von-Volkswagen-VW-Brasilien,vwfarm100.html>.

101Escravidão moderna atinge 45,8 milhões de pessoas no mundo”, em Agência Brasil, 30 de maio de 2016. Disponível em <http://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2016-05/escravidao-moderna-atinge-458-milhoes-de-pessoas-no-mundo>.

102 “‘Lista de Transparência’ traz 349 nomes flagrados por trabalho escravo”, em Repórter Brasil, 6 de junho de 2016. Disponível em <http://reporterbrasil.org.br/2016/06/lista-de-transparencia-traz-349-nomes-flagrados-por-trabalho-escravo/>.

103País sabe que escraviza, mas não a gravidade do problema, diz pesquisa”, em Blog do Sakamoto, 28 de dezembro de 2015. Disponível em <http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2015/12/28/pais-sabe-que-escraviza-mas-nao-a-gravidade-do-problema-diz-pesquisa/>.

104 oit. “Perfil dos principais atores envolvidos no trabalho escravo rural no Brasil”, 2011. Disponível em <http://www.oitbrasil.org.br/content/perfil-dos-principais-atores-envolvidos-no-trabalho-escravo-rural-no-brasil>.

105Construção lidera casos de trabalho análogo à escravidão”, em O Estado de S. Paulo, 15 de maio de 2014. Disponível em <http://economia.estadao.com.br/noticias/geral,construcao-lidera-casos-de-trabalho-analogo-a-escravidao,185004e>.

106Sklaverei in Brasilien. Brasilianisches Arbeitsministerium veröffentlicht Schwarze Liste über Sklaverei: 609 Betriebe und Farmer lassen Menschen unter sklavenähnlichen Zuständen auf ihren Ländereien arbeiten” [Relatório sobre escravidão no Brasil], em Greenpeace, 15 de julho de 2014. Disponível em <https://www.greenpeace.de/themen/sklaverei-brasilien>.

107Estamos todos conectados ao trabalho escravo contemporâneo, diz brasileiro em evento na onu”, em onu, 18 de maio de 2016. Disponível em <https://nacoesunidas.org/estamos-todos-conectados-ao-trabalho-escravo-contemporaneo-diz-brasileiro-em-evento-na-onu/>.