Capítulo 6

Os rios barrados e malditos da Amazônia


Além de “siderúrgicas, siderúrgicas, siderúrgicas”, o desenvolvimento precisa também de energia. Este é o mantra repetido eternamente por aqueles que propagam o desenvolvimento como crescimento econômico aliado à eletrificação a qualquer custo. Os defensores do modelo não permitem a existência de modos de vida alternativos, como o dos povos indígenas, dos ribeirinhos ou de comunidades que vivem de subsistência: em nome do progresso e em troca do pagamento de indenizações, sacrificam a diversidade social e cultural. No Brasil, os governos dos últimos anos — em qualquer lado do espectro político — viram na Amazônia uma grande fonte de eletricidade. A floresta deveria ser palco de hidrelétricas superdimensionadas, que produziriam gigawatts e terawatts para todo o país. A região já abriga uma série de grandes usinas. E, nos próximos anos, há planos de construir mais sessenta.
1 O resultado são reassentamentos forçados de milhares de pessoas, e destruição de modos de vida tradicionais. Além, é claro, de desmatamento.

Belo Monte, e como as empresas alemãs envolvidas reagem às críticas


A terceira maior hidrelétrica do mundo, Belo Monte, instalada no Rio Xingu, está sendo colocada em operação aos poucos. Durante muitos anos, as pessoas afetadas pela barragem, ribeirinhos e indígenas, juntamente com grupos de direitos humanos e ambientalistas, bem como vários procuradores altamente engajados, lutaram contra o empreendimento. Até agora as temíveis consequências de Belo Monte para o ser humano e para a natureza provaram-se verdadeiras: cerca de quarenta mil pessoas foram obrigadas a se realojar em casas que não correspondem aos padrões prometidos, distantes de transporte público e sem opções próximas de trabalho; o sistema de esgoto de Altamira não foi concluído, e a cidade que, que sofreu uma explosão demográfica durante a construção da usina, corre o risco de se transformar em uma imensa cloaca durante as cheias do Rio Xingu; várias obras, como escolas e hospitais, não foram concluídas dentro do prazo ou não receberam os equipamentos prometidos; e, com a conclusão da barragem, uma taxa de desemprego até então inédita na cidade fazem com que Altamira esteja à beira do caos social: atualmente, o índice de homicídios no município supera a média nacional e se equipara ao de Honduras, que ostenta as maiores cifras de assassinato em todo o mundo. Toneladas de peixes mortos retirados do Xingu nos meses anteriores à inauguração, pescadores artesanais e pescadores de peixes ornamentais famintos, temendo pelo futuro da sue profissão; aldeias indígenas que não receberam as prometidas medidas de proteção e de compensação determinadas judicialmente, e que eram “pré-condição” para o início da obra, em 2011. Todos esses temores se confirmaram. Indígenas, procuradores, pescadores, moradores das cercanias e pequenos comerciantes estão furiosos — e se sentem traídos.


A luta contra Belo Monte está perdida. Acima dos meandros da Volta Grande do Rio Xingu, erguem-se as quilométricas paredes da barragem do canal de Belo Monte, colocando-se como uma advertência para todos que lutaram contra a construção. No Brasil, a maioria dos políticos e economistas nunca quis ouvir as críticas das comunidades locais, rechaçando-as com argumentos de que o país precisa de energia, de que os indígenas eram “obstáculos ao desenvolvimento” (palavras do ex-presidente Lula) ou de que os ambientalistas e opositores a Belo Monte recebiam “ordens do estrangeiro” (palavras de Aldo Rebelo, membro do PCdoB
, ex-ministro do Esporte, ex-ministro de Relações Institucionais, ex-ministro da Defesa).


Grupos e organizações não governamentais ativos no exterior, como a International Rivers e a Amazon Watch, dos Estados Unidos, o Planète Amazone, da França, e a Belo-Monte-Netzwerk (Rede Belo Monte), da Alemanha, uniram-se em uma campanha para confrontar as empresas estrangeiras que participaram diretamente da construção da usina. Enquanto a Amazon Watch e a International Rivers protestavam nas assembleias gerais da General Electric — que adquiriu o fabricante de turbinas francês Alstom — e a Planète Amazone protestava contra a empresa francesa Engie — antigamente
gdf Suez e edf —, os ativistas da Alemanha se concentraram em 2013 na fabricante de turbinas VoithHydro, uma joint venture de Voith e Siemens, e nas seguradoras e resseguradoras de Belo Monte, como a Allianz e a Companhia Resseguradora de Munique (Munich Re ou Münchener Rückversicherungsgesellschaft).


O auge dessa campanha internacional foi a participação de ativistas do Brasil, dos Estados Unidos e da Alemanha na assembleia geral anual da Siemens em janeiro de 2014.
2 Só que ativistas de direitos humanos e ambientais geralmente não são acionistas. Como, então, chegar na assembleia para confrontar os executivos? Simples: comprando uma única ação. Dentre centenas de milhões de ações, uma única certamente não tem peso na votação, mas a legislação alemã define que cada acionista tem direito a se pronunciar durante, normalmente, dez minutos, e não importa quantas ações possua. Os ativistas se aproveitam disso, pois nesses dez minutos quem ouve não é apenas a assembleia de acionistas, que chega a reunir dez mil pessoas, mas também os diretores e os presidentes da empresa. Eles podem ser diretamente questionados e estão obrigados a responder a qualquer pergunta.


A Voith reagiu quando os ativistas protestaram em 20 de junho de 2012 — quando estavam sendo abertos os trabalhos da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20 — com cartazes em frente ao portão de sua fábrica na cidadezinha de Heidenheim, na Alemanha, e distribuíram material informativo aos trabalhadores confusos. Como mero fornecedor, a Voith “não seria o destinatário certo para muitos aspectos da discussão”. Ao mesmo tempo, a empresa “ainda seria da opinião de que as vantagens da proteção do clima e da geração confiável de energia elétrica superariam os prejuízos que são decorrentes de grandes obras de infraestrutura como esta, por meio de intervenções no ecossistema e dos efeitos sobre as pessoas que moram na região”.
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Devido à sua participação no projeto de Belo Monte, a Siemens, que possui 35% das ações na
joint venture conduzida com a Voith, a VoithHydro, também se viu publicamente confrontada com as críticas durante as assembleias de acionistas em 2013, 2014, 2015 e 2016. Em 2013, ativistas da organização Robin Wood escalaram o Estádio Olímpico de Munique para pendurar um cartaz de protesto,4 e na entrada representantes da Belo-Monte-Netzwerk recebiam os acionistas com panfletos e banners com o lema “Nenhum lucro às custas da Amazônia e das pessoas”. Representantes da Netzwerk fizeram discursos exigindo que essas demandas fossem levadas diretamente à diretoria e ao conselho supervisor da empresa.


Belo Monte é o golpe mortal no coração dos povos indígenas no Xingu”, explicou o bispo de Altamira, Dom Erwin Kräutler, durante a assembleia de acionistas. A declaração de Kräutler foi lida por uma representante da Netzwerk. As empresas europeias obtêm “lucros astronômicos com esse projeto insano”, e precisamente por isso, segundo o bispo, Belo Monte não é eticamente defensável. Dom Erwin Kräutler recebeu em 2010 o prêmio Right Livelihood Award, uma espécie de “Nobel alternativo”, graças à sua atuação em prol dos direitos humanos na região do Xingu. “Cada empresa que participa de Belo Monte assina como corresponsável essa catástrofe ambiental e de direitos humanos”, denunciou.


As violações perpetradas pelo projeto têm que acabar, afirmou a Aliança de Ação. Os ativistas instaram a Siemens a “sair do projeto”, uma vez que “uma empresa como a Siemens também deve respeitar os padrões internacionais de meio ambiente e direitos humanos”. Assim, finalmente tiveram de ser criadas estruturas que excluíssem a participação futura da empresa em projetos deletérios como Belo Monte. Depois da palestra, a Aliança de Ação entregou ao presidente do conselho consultivo, Gerhard Cromme, um abaixo-assinado com quarenta mil adesões contra as empresas envolvidas na hidrelétrica.
5 O então presidente da Siemens, Peter Löscher, respondeu de maneira evasiva às perguntas e às acusações ao dizer que a Siemens não era parte do consórcio que construiu a barragem, ignorando a participação da corporação nas instalações da barragem por meio da joint venture com a Voith.


Em janeiro de 2014, a aliança dos grupos que protestavam contra a participação da Siemens em Belo Monte já era bem maior. Mônica Soares Brito, do Movimento Xingu Vivo para Sempre, viajou do Brasil para a Alemanha, e da Europa e dos Estados Unidos chegaram ativistas da Amazon Watch e da Planète Amazone, para mostrar que não deixariam de criticar a participação da Siemens no projeto da hidrelétrica. Em 2015, Belo Monte voltou a ser um tema na assembleia dos acionistas da empresa — e também em 2016, quando o Greenpeace participou do encontro. A Siemens sempre respondeu com evasivas, ressaltando que possuía apenas uma participação minoritária de 35% na VoithHydro, não podendo, portanto, ser o primeiro alvo das críticas.


A Münchener Rückversicherungsgesellschaft — ou Munich Re, maior resseguradora do mundo — também foi criticada nas assembleias de acionistas devido ao seguro emitido para Belo Monte entre 2013 e 2016. Graças a ele, foi excluída do índice de sustentabilidade Global Challenges Index “por infrações ambientais”.
6 Confrontado diretamente com críticas e acusações, o presidente Nikolaus von Bomhard não teve como não reagir: chamou Belo Monte de um “projeto monstruoso”, indicando que não seria simples sair de um contrato de seguros como esse sem mais nem menos. No ano seguinte, no final de abril de 2014, Von Bomhard deu um claro passo atrás. Ativistas ambientais da ong alemã Urgewald desmascararam as “diretrizes” da companhia com um simples “catálogo de perguntas” lido pela ativista Barbara Happe. Assim, soube-se que Belo Monte não tinha sido apenas um mero deslize dentro dos negócios “tão limpos” da Munich Re, que também tem participação em outras barragens bastante controversas, como a Usina de Santo Antonio, no Rio Madeira — um projeto cuja sustentabilidade ambiental fora declarada insuficiente pelo Supremo Tribunal Federal depois da maior enchente da história de Porto Velho, mas que foi tocado adiante mesmo assim. Além disso, a diretoria da Munich Re declarou que continuariam fazendo resseguros em projetos de grandes barragens no Brasil.


A assembleia de acionistas da Allianz realizada no início de maio de 2013 coincidiu com as ocupações do canteiro de obras de Belo Monte por mais de 150 indígenas da etnia Munduruku.
7 No final de 2011, a Allianz havia assumido 5% do seguro da construção de Belo Monte, cerca de oito bilhões de euros, contra quaisquer riscos. Com isso, segundo cálculos das organizações reunidas na Belo-Monte-Netzwerk, a Allianz cobre riscos de construção no valor de cerca de 400 milhões de euros. As organizações veem nisso uma violação dos critérios de sustentabilidade tão elogiados pela própria Allianz. Verena Glass, do Movimento Xingu Vivo para Sempre, descreveu Belo Monte como “um ataque massivo à sobrevivência de milhares de pessoas numa das regiões com maior diversidade de espécies do mundo”. Ela falou a cerca de 3.500 acionistas da Allianz sobre o perigo de expulsão de até quarenta mil pessoas e as violações cometidas pelo consórcio de operadoras e pelo governo brasileiro. Num primeiro momento, a Allianz ficou na defensiva. Os problemas advindos de grandes projetos seriam compensados pelas vantagens da produção de energia benéfica para o clima, disse a seguradora. Além disso, argumentaram seus executivos, o Brasil é um Estado de Direito e, se o governo e os órgãos públicos autorizaram o projeto, não há implicação nenhuma contra a participação da empresa.


Contudo, a Allianz questionou claramente o Estado de Direito no caso da barragem de Jirau, no Rio Madeira, obra que também foi assegurada pela empresa alemã. Em 2011 houve enormes protestos de trabalhadores contra as condições degradantes de trabalho e os baixos salários no canteiro de obras. O dano material causado pelos protestos chegou a estimados 550 milhões de dólares, que a seguradora simplesmente não quis pagar. Para tanto, recorreu a um tribunal internacional na Grã-Bretanha.
8 As seguradoras e resseguradoras ofereceram cerca de 100 milhões de euros à usina, e a jurisprudência do tribunal privado em Londres decidiu a favor das seguradoras. No caso de Belo Monte, a Allianz sempre chamou a atenção para a eficiência do Estado de Direito no Brasil — no caso de Jirau, não queria se fiar nele.


Seguradoras e resseguradoras alemãs possuem todas as condições de criar para si critérios realmente robustos em questões de sustentabilidade e respeito aos direitos humanos. Mas o antigo presidente da Allianz, Michael Diekmann, tem um lema: “se estou satisfeito comigo mesmo, não entendo porque os outros não estejam.”
9 Diekmann dizia que a Allianz estava orgulhosa de sua política ambiental, mas afirmou que a crítica dos acionistas críticos e das ongs o teria estimulado a repensar posições. “A primeira reação espontânea da nossa parte foi defensiva. Logo ficou claro que, apesar de todo nossos sinceros esforços, talvez tenhamos sido um pouco oportunistas.”10 O resultado foi que, a partir de 2012, a Allianz reestruturou seus critérios para meio ambiente, sociedade e governança e, em junho de 2016, publicou seu novo quadro normativo.11 Segundo o documento, a empresa considera as barragens como um dos treze “setores sensíveis” definidos para sua atuação. No futuro, a decisão sobre a participação da Allianz em projeto de hidrelétricas deverá levar em conta as posições da Comissão Mundial de Barragens, do Protocolo de Avaliação de Sustentabilidade de Hidrelétricas e os padrões internacionais de direitos humanos. Os projetos serão submetidos a um processo de rastreamento em que serão apurados os riscos que representam à biodiversidade, à governança, às comunidades locais, às áreas protegidas, à reputação da empresa e aos direitos trabalhistas. O direito de povos indígenas ao consentimento livre, prévio e informado, como postulado pela Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), passou a ser reconhecido pela Allianz. Será interessante observar como a empresa reagirá em cada caso. Os resultados concretos disso só serão mostrados pela atitude da empresa no futuro.


A parede vermelha no Xingu


Março de 2016, Volta Grande do Rio Xingu. Samambaias e musgos, bromélias e orquídeas cobrem o chão, aráceas e filodendros disputam o solo com dendezeiros, lianas enredadas se dependuram ao longo das cascas das poucas árvores restantes de jatobá e babaçu, e acima de todas ergue-se imponente a castanheira. Então a floresta se abre, dá espaço a uma pastagem e aparece uma parede: um imenso muro vermelho que superaria a altura das castanheiras se elas ainda existissem por ali.


Nesta parte, a parede tem 65 metros, enquanto as copas de árvores poupadas pelo desmatamento não passam de 25 metros. A cor vermelha vem da terra, colocada sobre as camadas de concreto, entulho e areia para permitir o crescimento de plantas nativas. A parede é a superfície inclinada do dique externo identificado com o número 6C, o mais alto da usina, e que faz fronteira com o flanco sul da represa. Belo Monte será a terceira maior barragem do mundo. Deve criar postos de trabalho. Estimular o desenvolvimento. Resolver o problema energético do Brasil inteiro. É o que afirmam seus apoiadores. Os críticos rebatem, dizendo que a eletricidade gerada pela usina vai alimentar a voraz fundição de ferro e alumínio no Pará e no Maranhão, voltadas à exportação, e os distantes centros urbanos no Sudeste do país.


Poucos quilômetros adiante, outro pedaço mais ou menos intacto de mata. Depois dele, antigas pastagens passam perto de plantações de dendezeiro. Mas depois a floresta é cortada de uma vez, como por uma lâmina. Um traçado de mais de cem metros de largura, que se perde no horizonte. Aqui estão as torres elétricas de alta tensão, alinhadas em quatro fileiras paralelas, que correm para o sul do país. Trezentos metros adiante, outro canal corta a paisagem, também em direção ao sul. Homens em macacões sobem e descem das torres, aparafusando peças. Chamam uns aos outros e acenam ao veículo que para. Posam para uma foto lá nas alturas. Com muito gosto. Sorriem.


Zé Carlos não sorri. Está furioso, mas ainda assim tenta se expressar de maneira clara. Precisa resumir em poucos minutos o que aconteceu em sua aldeia poucas semanas atrás. Até agora, ninguém falou sobre isso, simplesmente porque nunca nenhum jornalista perguntou. Zé Carlos Arara é o cacique da Terra Indígena Arara, localizada na margem direito da Volta Grande do Rio Xingu, um meandro natural de cerca de cem quilômetros, descendo o rio no primeiro estágio da barragem de Belo Monte, Pimental, e avançando rio acima a partir da casa de turbinas principal. Para encurtar o curso do rio, a operadora da barragem e as empreiteiras cavaram um canal com vários quilômetros que conduz a maior parte da água do rio para uma nova represa de cerca de quinhentos quilômetros quadrados, onde a barragem 6C contém a água. No final de fevereiro de 2016, o lago da barragem, que se estende até a hidrelétrica principal, estava cheio até a borda. Havia chovido tanto que a barragem encheu a olhos vistos, mais rápido do que os engenheiros tinham planejado. Ou os engenheiros erraram feio nos cálculos.


Na aldeia arara vivem mais de cem pessoas que se comunicam com o mundo exterior através do rádio. A conexão é estabelecida sempre entre oito e onze horas da manhã, e às três da tarde. Zé Carlos tem um celular que de vez em quando pega. Há algumas semanas, estava na cidade de Altamira, algumas horas de barco rio acima, para conseguir mantimentos para a aldeia. À noite, tocou o telefone. Um funcionário da Norte Energia ligou para lhe comunicar que iriam abrir naquele momento as comportas da primeira etapa da barragem, Pimental, e soltariam na Volta Grande tanta água que o nível do rio subiria rapidamente. Pediu que Zé Carlos avisasse os moradores.


Eu disse: ‘Norte Energia, agora estou em Altamira’. Eu perguntei à Norte Energia no telefone: ‘Não dá pra fazer isso amanhã? Hoje não consigo chegar na aldeia e avisar as pessoas, se fizermos isso amanhã de tarde, não tem problema’. E a resposta da Norte Energia: ‘Sem chance. Temos que fazer isso agora’”, conta Zé Carlos Arara para a procuradora Thaís Santi, que grava o depoimento. Depois do telefonema, Zé Carlos estava extremamente agitado. Abrir as comportas sem avisar os moradores da aldeia? Ficou muito inquieto, não conseguia dormir. “Levantei de manhã bem cedo e tentei descobrir o que tinha acontecido. Às oito da manhã consegui contatar a aldeia pelo rádio. Eles me contaram então que de noite toda a água do rio desceu e muitas coisas foram arrastadas pela enxurrada. Barcos, motores, redes, tudo que estava ali. O que não foi carregado foi destruído.” As pessoas fugiram, em pânico. Pensaram que a barragem havia se rompido. Em Pimental, as barragens têm onze metros de altura, e mais adiante, rio acima, os diques chegam a cinquenta, sessenta metros. No dique 6C, atinge 65 metros. Nem é bom imaginar o que aconteceria se um deles apresentasse rachaduras.


Isso mostra claramente que a Norte Energia age de maneira irresponsável. Eles não têm nem o menor plano de comunicação em caso de emergência. E isso afeta toda a Volta Grande”, diz a procuradora Thaís Santi. “Durante a construção de Belo Monte foi estabelecido desde o começo que, logo depois da licitação, quem recebesse a licença para construção da represa teria que começar com a implantação de um plano para proteger as populações indígenas. Isso tinha que ter acontecido já em 2010”, conta a procuradora. No Rio Xingu, segundo o plano de proteção, há mais de trinta aldeias indígenas. “Mas até hoje não foi feito absolutamente nada.”


O que se implantou foi uma política de “computer, cars and cash” [computadores, carros e dinheiro], como comenta Todd Southgate, um documentarista canadense que está concluindo no Xingu a sua longa observação de Belo Monte. No final de 2016, Todd apresentou seu filme
Belo Monte: depois da inundação a indígenas e ribeirinhos.12 Os “presentes” enviados pela Norte Energia afetaram a autonomia dos indígenas, segundo Southgate. Se, antes, as populações tradicionais conseguiam tirar seu sustento do Rio Xingu, agora bebem refrigerantes em garrafas pet, assistem aos programas das grandes emissoras e só comem peixe se forem à cidade comprar filés congelados no supermercado.



Além de impactaram o modo de vida indígena, os motores de popa, os carros, as motonetas, a gasolina, as tevês de tela plana e os computadores que a Norte Energia distribuiu nas diversas aldeias ao longo do Xingu como indenização pela construção de Belo Monte provocaram brigas. “Antes, éramos dezoito comunidades. Depois vieram os regalos da Norte Energia e houve inveja e briga entre os diferentes grupos, e alguns se separaram”, diz Gilliard, cacique juruna na pequena aldeia Muratu. Hoje são 45 comunidades, segundo ele. O antigo lema de dividir para conquistar?, pergunto. “Sim”, diz Gilliard, “essa foi a estratégia, quiseram nos separar para enfraquecer a nossa resistência.”


Para a procuradora Thaís Santi, a situação é ainda mais grave. “As investigações do Ministério Público Federal revelaram que os efeitos da construção da barragem não foram minimizados, como prometido, mas, ao contrário, se expandiram. Todos os documentos, todos os depoimentos de testemunhas e de pessoas afetadas, e todos os estudos da Fundação Nacional do Índio (Funai) fornecem a mesma imagem: em Belo Monte temos um etnocídio.” A procuradora faz uma pausa. Não é fácil verbalizar uma acusação de etnocídio. “Belo Monte é um etnocídio conduzido pelo Estado brasileiro e pela Norte Energia, operadora da barragem, que faz chegar aos indígenas doações que os deixam dependentes do Estado e da empresa. Com isso, a estrutura social e cotidiana das aldeias foi destruída. O que está acontecendo aqui é uma ruptura total do ciclo da vida, da alimentação, do mundo do trabalho dos indígenas”, diz.


Antes de se tornar procuradora, Thaís Santi trabalhou como professora universitária na área de Filosofia do Direito. Sua dissertação de Mestrado versou sobre a teoria desenvolvida por Hannah Arendt em
As origens do totalitarismo, de 1951. Ela conta que discutia com seus estudantes sobre um mundo às margens da legalidade, um mundo do terror, que passou a vivenciar quando assumiu o cargo no Ministério Público Federal em Altamira. Segundo a procuradora, Belo Monte mostra o lado extremo do Direito flexibilizável. A usina fere a Constituição e viola os direitos das comunidades locais, mas nos tribunais o que vale não são as leis, mas a força. “A operadora argumenta com dados sobre tudo o que foi gasto na obra, sobre quantos trabalhadores e trabalhadoras perderiam seus empregos. Mas tudo isso não é Direito nem lei. A existência de Belo Monte pertence ao mundo aterrorizante dos fatos, em que tudo é possível, em que já não existem os limites criados pelo Direito. Belo Monte só existe em um mundo onde tudo é possível.”


O Ministério Público Federal interpôs 25 ações contra Belo Monte. Algumas conseguiram deter temporariamente a construção da barragem, mas sempre havia um juiz em Brasília que revogava a suspensão e protelava as ações. E isso sem que as questões apontadas tenham sido analisadas juridicamente. A interdição dos procedimentos do Estado de Direito é feita por meio de decretos advindos da ditadura. Os direitos dos afetados são soterrados pelo chamado “interesse nacional”, a chamada “suspensão de segurança”.
13 O “interesse nacional” está acima do interesse das comunidades estabelecidas ao longo do Rio Xingu. Talvez dentro de alguns anos os processos judiciais sejam concluídos e as violações causadas por Belo Monte, punidas. Mas então a barragem já estará em operação, produzindo energia para o “interesse nacional”, e uma desconstrução será impossível, graças à força dos fatos.


Enquanto isso, o alcoolismo aumentou drasticamente entre os indígenas da região. “Os homens saíam cedo para pescar, bem cedo mesmo. Hoje muitos deles se levantam tarde, e dá pra ver a ressaca na cara deles”, queixa-se Leiliane Juruna, liderança da aldeia indígena de Muratu, na Volta Grande, que, cercada por crianças da aldeia, pendura roupas na área coberta atrás da casa, bem protegida da garoa. Quando acaba o serviço, Bel, como é conhecida, vê Gilliard chegar com o fruto minguado de sua pescaria. “Desde que levantaram a barragem, os peixes ficaram raros.” No início de 2016, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) constatou que dezesseis toneladas de peixe morreram em decorrência da construção de Belo Monte.


Bel e Gilliard não têm muito tempo. Em duas horas chegará uma visita à aldeia de Muratu. Victoria Tauli-Corpuz, relatora especial das Nações Unidas sobre os direitos dos povos indígenas, conhecerá em primeira mão as consequências de Belo Monte sobre a vida dos Juruna. A conversa durará uma hora. Depois de passar em Muratu, Tauli-Corpuz ainda tem uma reunião com a Norte Energia. Ambos os lados querem e devem ser ouvidos. Começa a chover. Uma chuva forte. E então chega a informação de que o avião que trazia a relatora especial das Nações Unidas não pôde pousar em Altamira devido ao mau tempo, e precisou seguir voo até Belém. Lá sua comitiva fretou uma pequena aeronave para que ela possa encontrar os indígenas. Quatro horas e quatro litros de chuva depois, chega a caravana internacional aparece. Viaturas com policiais fortemente armados escoltam — três na frente e duas atrás — o veículo 4 x 4 que traz os representantes da
onu. Ágeis, os policiais saltam dos veículos, colocam-se em semicírculo em torno dos carros e mantêm as armas automáticas cruzadas frente ao peito.


Bel e Gilliard Juruna se dirigem à relatora cortando as fileiras de policiais e ela se aproxima, abraçando-os calorosamente. O comandante da polícia manda os soldados para a beira do rio e explica a Bel e Gilliard que a presença policial não é tão necessária: trata-se “apenas de segurança preventiva”, diz o comandante. Perto de cinquenta pessoas se reúnem sob um telhado de palha. Os tradutores distribuem fones de ouvido para os recém-chegados das aldeias vizinhas de Paquiçamba e Furo Seco. Depois de uma saudação a todos os presentes, Tauli-Corpuz se apresenta: “Sou indígena, venho de uma região montanhosa nas Filipinas, onde nos anos 1970 e 1990 uma grande usina hidrelétrica ameaçava a vida de trezentas mil pessoas.” Apesar do Estado de exceção vigente na época, os indígenas se organizaram “para evitar que as nossas terras represadas e nossos campos de arroz ficassem debaixo d’água”. Apesar das mortes e das torturas, os índios venceram. “Nós obrigamos o Banco Mundial a se retirar, e o governo teve que parar o projeto em 1986. Eu queria contar isso a vocês.”


Em seguida, ela escuta durante uma hora os relatos dos indígenas, com atenção e paciência. A equipe olha o relógio, preocupada com o cronograma. A conversa com a Norte Energia já foi cancelada. Tauli-Corpuz prefere ouvir o que os indígenas têm a dizer. Bel e Gilliard Juruna relatam os muitos “presentes” que receberam da empresa, as consequências do consumismo e o fim da pescaria, os peixes mortos, o nível sempre inconstante do Rio Xingu, que agora depende da abertura e do fechamento das comportas de Belo Monte. Contam como a vida mudou, dizem que a Norte Energia trouxe eletricidade, mas que os indígenas não têm como pagar as horrendas contas de energia que chegam a cada mês. Falam das audiências realizadas pela Norte Energia, das poucas oportunidades que tiveram de falar e da total irrelevância que suas posições tiveram na tomada de decisões. Isso é o que mais inquieta a relatora da
ONU. De acordo com a Constituição de 1988 e com a Convenção 169 da OIT, lembra, as populações indígenas devem ser ouvidas sobre projetos que causam impactos a seus territórios e modos de vida. O governo federal afirma ter realizado audiências suficientes. Além disso, em uma interpretação sui generis da lei, defende que os índios não foram diretamente afetados, uma vez que nenhuma aldeia foi submersa pela barragem.


A Procuradoria da República, porém, enxerga as coisas de maneira bem diferente. As audiências foram anunciadas e realizadas de maneira juridicamente duvidosa, frequentemente sob intenso esquema policial, intimidando as pessoas afetadas. Além disso, a Convenção 169 não prevê meramente que os indígenas sejam ouvidos: exige o seu
consentimento. É sobretudo esse último ponto que ainda se encontra numa zona cinzenta.1415 Belo Monte reduzirá a vazão do Rio Xingu em até 80% ao logo de centenas de quilômetros, e justamente na Volta Grande, onde suas águas não são apenas fonte de alimento para os indígenas, mas também fonte de água potável, meio de transporte e geladeira natural. Os índios não verão suas aldeias serem alagadas, mas serão diretamente afetados pelas alterações no curso do rio. Portanto, seu direito ao consentimento prévio é indispensável. Por isso, os procuradores caracterizam a construção da barragem como um “ataque à Constituição brasileira”.16


O que está acontecendo aqui não é apenas um ataque físico, mas sim um ataque à cultura de vocês”, diz Victoria Tauli-Corpuz depois de ouvir pacientemente os Juruna. Sussurros de concordância se espalham sob o telhado de palha. “Se vocês perderem a identidade cultural, a existência da identidade de vocês como indígenas está ameaçada. O que vocês fazem ao protestar está correto, pois assim defendem todas as gerações futuras.” A equipe lembra à relatora das Nações Unidas que o cronograma saiu completamente dos trilhos, e ela indica que pretende ficar ainda mais tempo na aldeia. Mas os sinais do comandante da polícia são claros. Precisam estar na cidade antes do pôr do sol. São orientações da própria onu. Então os policiais retomam as rédeas. Com metralhadoras cruzadas frente ao peito, escoltam a saída de Tauli-Corpuz e sua comitiva. Motores rugem, e a caravana sobe o morro até a estrada de terra, as viaturas à frente e atrás do carro alugado pela onu, piscando luzes vermelhas, até desaparecer no entardecer da floresta.


Desrespeito sistemático à população local


Um mês e meio depois, 5 de maio de 2016. No Rio Xingu, atrás da Volta Grande. Após um sobrevoo de helicóptero sobre a obra, a presidenta Dilma Rousseff inaugura a primeira turbina da usina, rasgando elogios às suas dimensões faraônicas. “Esta obra é tão grande quanto este povo. Ela é grandiosa. É uma obra grandiosa. É a melhor forma de descrever Belo Monte: grandiosa.” Logo após o discurso laudatório, vai embora. Muitos outros compromissos a esperavam em Brasília. Eram dias turbulentos para o seu governo. Seria demais pedir que tivesse reservado um tempo para conversar com os moradores do Xingu, que vivem dia após dia o outro lado dessa “grandiosa” história. Dilma teria tido a oportunidade de perguntar às cerca de quarenta mil pessoas realocadas à força como estavam vivendo; teria conseguido encontrar os moradores das casas provisórias, gente que residia perto do rio e que viviam da pesca, e que agora vive na periferia de Altamira, onde não há ônibus nem trabalho. Teria podido perceber a opressão das monótonas casas enfileiradas. Teria visto o desespero dos pescadores que tentam persistir na atividade, mas que tiram do rio peixes mortos. Teria conseguido saber o que significa para uma cidade sem saneamento básico assistir à sua população crescer cerca de 50% em poucos anos. Teria escutado as histórias dos indígenas que recebem generosos pacotes de comida e de consumo como compensação pela perda de seu modo de vida tradicional, e assim talvez tivesse recebido uma sugestão: converse com os médicos e enfermeiras da região, que podem lhe falar sobre o enorme aumento de casos de diabetes e pressão alta entre indígenas graças aos refrigerantes que passaram a ser consumidos pela comunidade como se fossem água. Dilma também teria podido conversar com as mulheres de Altamira, que lhe contariam sobre o aumento da violência sexual na cidade. Mas a presidenta não fez nada disso. Festejou a barragem, e foi embora.


Os moradores do Xingu estavam acostumados com esse tipo de comportamento. Brasília nunca se interessou pela população amazônica, dizem. Assim fica mais fácil entender por que o mais importante movimento de resistência contra Belo Monte, o Xingu Vivo para Sempre, publicou uma carta aberta poucos dias antes da votação do
impeachment no Senado, acusando o comportamento ambíguo da presidenta:


Você veio ao nosso território inaugurar uma obra corrupta em sua raiz. Uma obra que enriqueceu de forma criminosa seus ex-aliados (e hoje inimigos). Vendeu caro as nossas vidas para canalhas que hoje cospem nos pratos de porcelana chinesa em que comeram o que você lhes serviu, enquanto nós começávamos a passar fome e frio. Que tipo de pessoa sente imenso orgulho de algo assim?


Hoje você disse “eu sou vítima de uma injustiça”, e reclamou de ritos ilegais que te atingem; mas tratou com escárnio dezenas de processos jurídicos contra Belo Monte, inclusive na Comissão Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos, a quem apelou quando se sentiu ameaçada em seu poder. Você fala em golpe do Congresso contra a sua pessoa, mas fez com que todas as nossas frágeis possibilidades de defesa no Judiciário fossem anuladas por meio da
agu, via nefastas Suspensões de Segurança. Entre você e nós, não temos dúvida de quem foi mais privado de Justiça.


Hoje você sobrevoou nosso rio, Dilma, mas obviamente não viu nem cheirou a podridão das centenas de toneladas de peixes mortos que a sua usina produz diariamente, e que geraram multa milionária à sua Norte Energia. Não se importando, você se ateve a falar tolices sobre preservação do meio ambiente.
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Apesar da aparentemente profunda incompreensão de Dilma em relação aos movimentos sociais contrários a Belo Monte, eles sempre se fiaram no Estado de Direito e na participação democrática, sobretudo nas semanas em que a Câmara e o Senado preparavam o caminho para o golpe parlamentar contra a presidenta. Será que, enquanto maltratava os movimentos sociais com sua política desenvolvimentista descompromissada com a Amazônia, Dilma percebeu tarde demais que tinha se metido com as pessoas erradas? Mesmo assim, muitos movimentos sociais lutaram até o final para que Dilma não fosse destituída. E isso não por que passaram a aprovar sua política para a Amazônia, mas por apreço à democracia.


O governo golpista de Michel Temer quer não apenas continuar os projetos amazônicos levados a cabo pelas administrações petistas, mas expandi-los. O Congresso mais conservador das últimas décadas deve ajudar a que sejam erguidas novas barragens nos rios Tapajós, Juruena e Teles Pires. Essas barragens, porém, serão provavelmente transponíveis: não porque os governantes tenham se dobrado às reivindicações ambientalistas e incluído no projeto rotas de passagem para evitar que os peixes sejam esmagados pelas turbinas, mas porque eclusas serão construídas para permitir que navios graneleiros transportem a produção de soja no Mato Grosso pelos rios amazônicos até o Atlântico, de onde será exportada. O Congresso já fez as contas: a hidrovia propiciará uma economia de 41% no transporte de soja.
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Belo Monte e Munich Re


Belo Monte é uma velha conhecida. Desde os primeiros projetos, em meados dos anos 1980, quando o plano da barragem ainda era chamado de Kararaô, houve maciços protestos por parte de defensores do meio ambiente e comunidades atingidas. Os protestos foram tão grandes que o Banco Mundial se distanciou do empreendimento, que, com isso, foi esquecido. Mas sairia da gaveta no início dos anos 2000, reduzido a duas barragens e renomeado como Belo Monte. Foi sobretudo o governo Lula que tocou a iniciativa, a partir de 2006. A obra começou em 2011, com a participação de empresas alemãs, como vimos.


Entre elas, a resseguradora Munich Re é uma das mais empolgadas. “A resseguradora cobre tudo, desde o primeiro serviço de engenharia até a última máquina fornecida”, diz Rodrigo Protásio, vice-presidente da
JLT Re, que também participa do projeto.19 A Munich Re assumiu 25% da soma do resseguro21 para a construção de Belo Monte e, com isso, o papel principal no consórcio de resseguro, recebendo por isso cerca de 15,5 milhões de euros em prêmios por um período de quatro anos.22 O resseguro de Belo Monte compreende o período de construção, estimado em nove anos, e na época, “oferecia cobertura total, no valor de 7,6 bilhões de euros”.


As resseguradoras jogam um papel importantíssimo em grandes obras. Não há barragem sem financiamento, e não há financiamento sem seguro. Nenhuma instituição financeira aceita o risco de ficar desamparada e arcar com todos os custos em caso de acidente. Ativistas contrários à realização de megaempreendimentos geralmente
superestimam o papel do financiamento e subestimam o papel das seguradoras e resseguradoras, que, com seu modus operandi, expandiram seus negócios para além da área de seguros. O envolvimento da Munich Re com o projeto da usina hidrelétrica de Bujagali, em Uganda, é um exemplo. “A usina hidrelétrica de Bujagali é um projeto enorme”, escreveu a própria empresa. “A Munich Re esteve envolvida desde o início para garantir o financiamento. Graças à Munich Re, um parceiro confiável, a construção do projeto pôde começar.”23


Há anos, grupos alemães de ambientalistas e de direitos humanos começaram a fiscalizar as atividades da Munich Re em Belo Monte. Confrontado publicamente pela primeira vez em abril de 2013 com críticas e acusações durante a assembleia anual de acionistas, o presidente da empresa, Nikolaus von Bomhard, lembrou que a Munich Re confia no Estado de Direito brasileiro, na rígida legislação ambiental do país e na avaliação de riscos feita pela própria empresa. Além disso, respondeu que seguia as diretrizes da Comissão Mundial de Barragens, criada em 1998 e inaugurada em 2000, por iniciativa do Banco Mundial e da União Internacional para a Conservação da Natureza, após enormes protestos contra grandes barragens em vários países. No processo de discussão participaram construtoras, operadoras e fornecedoras de barragens, mas bancos privados e seguradoras ficaram de fora — e escapam de qualquer poder regulador ou fiscalizador da comissão. Por isso, é confortável para o presidente da Munich Re dizer que a empresa respeita suas diretrizes.


Fragilidade, incoerência e uma ampla margem de interpretação dos autocomprometimentos e das diretrizes voluntárias — práticas comuns entre as seguradoras e resseguradoras — não contribuem para que os projetos em que se envolvem respeitem os direitos humanos, sociais e ambientais. O Instituto Leibniz para Ecologia Aquática e Pescaria Interna (
IGB) estima que nas próximas duas décadas possam ser construídas 3.700 grandes barragens em todo o mundo.24 O setor de hidrelétricas passa por um verdadeiro boom, com grandes projetos em andamento no Brasil, na Colômbia, no Peru, na Índia, no Congo, na China, na Turquia, nos Bálcãs, na Malásia e no Laos, por exemplo. E os críticos veem uma correlação direta entre o número crescente de megausinas e o aumento das violações de direitos humanos fundamentais das pessoas atingidas.


Barragens verdes?


Segundo uma apresentação da própria empresa, a Munich Re alertou o mundo pela primeira vez sobre os problemas decorrentes da “mudança climática” em 1973.
25 Em um comunicado de 2016, a companhia diz: “Mudança climática — um tema que também afeta a nós. Há mais de quarenta anos a Munich Re trata do tema da mudança climática, dos seus efeitos para a companhia de seguros e dos riscos e oportunidades resultantes.”26 Na assembleia de acionistas de 2014, com as declarações do presidente Nikolaus von Bomhard, a empresa havia sido ainda mais enfática: “Como agentes sujeitos a riscos, realmente não precisamos temer que os riscos desapareçam do mundo: economias globalizadas e densamente interligadas, tecnologias complexas, mudanças demográficas e desastres naturais criam uma alta demanda no negócio de seguros.”27 A ameaça das mudanças climáticas justifica, assim, o envolvimento da Munich Re em grandes barragens. E não importa que sejam duramente criticadas. A Munich Re admitiu publicamente, já em 2009, que “não interessa quão eficientes e grandes sejam os projetos de hidrelétricas, eles sempre têm grandes efeitos sobre o ambiente. Paisagens fluviais naturais são afetadas, os habitats de pessoas, a fauna e a flora são modificados”.


Ou seja: a crise ambiental exige a geração de energia “limpa”, como as hidrelétricas, que são uma máquina de produzir riscos, e riscos produzem dinheiro para as seguradoras. Ou, nas palavras da Munich Re, os negócios hidrelétricos “criam uma enorme demanda por seguros, que a empresa pode cobrir com suas grandes capacidades. Com muitos anos de experiência em riscos envolvidos em hidrelétricas no Brasil e outros locais no mundo, a Munich Re pode contribuir para tornar o uso da energia hidrelétrica seguro e sustentável, impedindo futuramente novas emissões de gás carbônico”.
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O presidente Von Bomhard usou o mesmo tom durante as assembleias de acionistas em 2013, 2014, 2015 e 2016, quando perguntado a respeito da barragem de Belo Monte. Admitiu que era um “projeto monstruoso”, como já vimos, mas que, em face da mudança climática, atestou que “as vantagens da produção de energia amigável para o clima superariam as suas desvantagens”.29


E isso apesar de já existirem há muito tempo estudos científicos apontando para as proporções desastrosas de metano e óxido de nitrogênio produzidas pelas barragens, sobretudo nas regiões tropicais;
30 e apesar de cientistas como Philip Fearnside, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, avisarem há anos que Belo Monte, na primeira década de operação, produziria mais gases de efeito estufa do que toda a cidade de São Paulo, pois a biomassa submersa apodrece e lentamente se transforma em metano — que é 22 vezes mais danoso ao clima do que o dióxido de carbono. Assim, é um erro de pensar que as grandes barragens da Amazônia seriam benéficas ao clima.31


Recentes pesquisas científicas revelaram também que a emissão de metano por área do reservatório de Belo Monte é cerca de 25% maior do que se considerava até então.
32 Mas esses argumentos parecem não interessar à Munich Re. Na assembleia de acionistas de maio de 2016, Von Bomhard declarou que as pesquisas provinham de uma minoria de cientistas, e que a Munich Re iria confiar nos 95% de pesquisadores que defendem as barragens como alternativas para a produção de energia elétrica benéfica para o clima. Nikolaus von Bomhard só não esclareceu de onde tirou esses percentuais nem quem são esses cientistas.


Já não espanta que a Munich Re proclame em alto e bom som “Let the water flow!” [Deixe a água fluir],
33 não em referência aos rios que correm livremente, mas à canalização dos rios por turbinas de acionamento de geradores. Assim, é apenas coerente que a Munich Re atue como resseguradora no mundo todo, em projetos de grandes barragens extremamente controversos. A Munich Re, quando perguntada pelos Acionistas Críticos sobre quantas e quais barragens pertencem à sua carteira de clientes, recusou-se a responder por motivos de “confidencialidade com os clientes”.34 Assim, os únicos projetos hidrelétricos em que sabidamente a Munich Re estão envolvida são aqueles que as queixas da sociedade, os acidentes e as catástrofes — Bujagali, em Uganda; Zagorsk PSP-2, na Rússia; Hidrosogamoso, na Colômbia; ou Teles Pires, Santo Antonio e Belo Monte, no Brasil — fizeram com que os casos fossem investigados e publicados pela imprensa.


Mas, às vezes, o comportamento dos próprios executivos da empresas não colabora com a versão da Munich Re. Assim aconteceu na assembleia de acionistas em 2015, em Munique. Primeiro, os diretores tiveram de engolir as acusações de serem hipócritas, uma vez que apoiam a recuperação do Rio Isar, em Munique, ao mesmo tempo em que asseguravam os riscos de projetos que estavam arruinando grandes rios amazônicos. Depois, Verena Glass, do Movimento do Xingu Vivo para Sempre, fez a seguinte pergunta para a diretoria: “Em Teles Pires as empreiteiras explodiram uma enorme cachoeira: essa cachoeira se chamava Sete Quedas. As Sete Quedas eram o lugar mais sagrado para os indígenas Kayabi, Apyaka e Munduruku. Como os senhores reagiriam se uma empreiteira chegasse com tratores e botasse abaixo a Frauenkirche de Munique?” O presidente von Bomhard ficou sem resposta.

1 Tina Kleiber & Christian Russau. “Der Belo Monte-Staudamm und die Rolle europäischer Konzerne” [A barragem de Belo Monte e o papel das empresas europeias], em GegenStrömung, 2014. Disponível em <http://www.gegenstroemung.org/web/blog/neues-dossier-der-belo-monte-staudamm-und-die-rolle-europaeischer-konzerne>.

2 Para informações sobre protestos, pedidos reconvencionais e comunicados de imprensa ocorridos em janeiro de 2014 durante a assembleia dos acionistas da Siemens, ver Kritische Aktionäre. Disponível em <http://www.kritischeaktionaere.de/siemens.html.>

3 Carta resposta da Voith Hydro à GegenStrömung, 19/12/2012.

4 Rudolf Stumberger. “Proteste gegen Staudamm-Bau. Siemens-Hauptversammlung in München von Kritischen Aktionären heimgesucht” [Protestos contra construção de barragem. Assembleia-geral da Siemens em Munique castigada por acionistas críticos], em Neues Deutschland, 24 de janeiro de 2013. Disponível em <http://www.neues-deutschland.de/artikel/810828.proteste-gegen-staudamm-bau.html>.

5Belo Monte: Euer Profit zerstört unser Leben”, petição da organização Rettet den Regenvald e.v. [Salvem a Amazônia], sediada em Hamburgo. Disponível em <https://www.regenwald.org/aktion/876/belo-monte-euer-profit-zerstoert-unser-leben>.

6 GXINDEX: Munich Re wegen Umweltverstoss ausgeschlossen“Global Challenges Index der Börse Hannover: Im zweiten Quartal weiterhin im Plus”, em Global Challenges Index, . 8 de março de /3/2012. Disponível em <, disponível em http://gcindex.boersenag.de/de/news.php>.

7 Russau, Christian Russau. “Besetzung von Belo-Monte-Baustelle beendet”. [Uso do canteiro de obras de Belo Monte terminou], em Amerika 21, 13 de maio de /5/2013. Disponível em <https://amerika21.de/2013/05/82807/ende-besetzung-belo-monte>.

8 Russau, Christian Russau. “Hoffentlich Allianz versichert… und mit privatem Schiedsgericht doppelt abgesichert! Ganz ohne Verträge im ttip-Style: Wie Versicherer und Rückversicherer juristischen Streit zwischen Grossbritannien und Brasilien säen”. [Com sorte a Allianz cobre… e duplamente segurado com um tribunal particular! Sem contratos no estilo ttip: como seguradoras e resseguradoras semeiam conflitos jurídicos entre a Grã-Bretanha e o Brasil], em GegenStröemung, . 10 de setembro de 2015. Disponível em <http://www.gegenstroemung.org/web/blog/hoffentlich-allianz-versichert-und-mit-privatem-schiedsgericht-doppelt-abgesichert/>.

9 Herbert Fromme, Herbert. “Grüner Wandel. Passend zum 125. Firmengeburtstag gibt sich die Allianz selbstkritisch und bekennt sich zum lange unterschätzten Thema Klimaschutz. Auch Konzernkritiker werden gelobt”. [Virada verde:. N emo seu 125º aniversário, a Allianz faz autocrítica e se revela no tema por muito tempo subestimado da proteção climática: c. Críticos da empresa também são elogiados], em. In: Süddeutsche Zeitung, 22 de abril de /4/22015. Disponível em <, acessível em http://www.sueddeutsche.de/wirtschaft/allianz-gruener-wandel-1.2446791.>

10 Idem.

11Allianz ESG Integration Framework”, 26 de junho de 2016. Disponível em < https://www.allianz.com/v_1467708774000/media/responsibility/documents/Allianz_ESG_Integration_Framework_2016.pdf>.

12 Para mais informações sobre o filme, ver < http://www.belomonteaftertheflood.com/index_port.html>.

13 A suspensão de segurança é definida pelo dicionário jurídico acessível em http://www.stf.jus.br/portal/glossario/verVerbete.asp?letra=S&id=218.

14 Der Belo Monte-Staudamm und die Rolle europäischer Konzerne.

15 Der Belo Monte-Staudamm und die Rolle europäischer Konzerne. [A barragem de Belo Monte e o papel de empresas europeias]. Por Tina Kleiber e Christian Russau em colaboração com Heike Drillisch (GegenStrömung) e Herbert Wasserbauer. Berlim, 2014, p.12.

16 Idem, p. 16.

17Fazem com você o que você fez conosco; mas nem assim, Dilma…”, em Movimento Xingu Vivo para Sempre, 5 de maio de 2016. Disponível em < http://www.xinguvivo.org.br/2016/05/05/fazem-com-voce-o-que-voce-fez-conosco-mas-nem-assim-dilma/>.

18Navegação em trechos dos rios Tapajós, Teles Pires e Juruena é aprovada em comissão”, em Câmara Notícias, 9 de novembro de 2015. Disponível em <http://www2.camara.leg.br/camaranoticias/noticias/transporte-e-transito/499590-navegacao-em-trechos-dos-rios-tapajos,-teles-pires-e-juruena-e-aprovada-em-comissao.html>.

20 Ibidem.

21BB Mapfre lidera seguro de Belo Monte”, em VValor Econômico, . 11 de julho de /7/2011. Disponível em <http://www.valor.com.br/arquivo/897629/bb-mapfre-lidera-seguro-de-belo-monte>.

22Munich lidera resseguro de Belo Monte”, em Valor Econômico, . 15 de junho de /6/2011. Disponível em <, acessível em http://www.valor.com.br/arquivo/893273/munich-lidera-resseguro-de-belo-monte>.

23 Idem.

24 Leibniz-Institut für Gewässerökologie und Binnenfischerei (IGB). “Global boom in hydropower expected this decade” [Boom global de hidrelétricas esperado para esta década], em igb., 24 de outubro de /10/2014. Disponível em <, acessível em http://www.igb-berlin.de/press_releases_details/items/global-boom-in-hydropower-expected-this-decade.html>.

25 Grimm, TobiasG. “Erneuerbare Energien – Investitionen in Anlagen, Hessischer Fördertag – Eltville, 21/9/2011.

26 Münchener Rück. “Klimawandel. Ein Thema, das uns alle betrifft” [Mudança climática. Um tema que afeta a todos nós], em Munich Re. acessível Disponível em <https://www.munichre.com/de/group/focus/climate-change/index.html>.

27 Citação do final da fala de Nikolaus von Bomhard, reproduzida pela Munich Re em um comunicado de imprensa de 30/04/ 2014. Cf. Münchener Rück.“ Munich Re schüttet mehr als 1,25 Mrd. € an Aktionäre aus” [A Munich Re despeja mais de 1,25 bilhão de euros nos acionistas], em Munich Re,. 30 de abril de /4/2014. Disponível em <https://www.munichre.com/de/media-relations/publications/press-releases/2014/2014-04-30-press-release/index.html.>

28 Munich Re. Munich Re Renewables. Our contribution to a low-carbon energy supply. Munique, 2009, p. 39. Disponível em <, acessível em https://www.munichre.com/site/touch-publications/get/documents_E178227533/mr/assetpool.shared/Documents/5_Touch/_Publications/302-05955_en.pdf#page=41>.

30 Philip Fearnside, Philip. “Greenhouse Gas Emissions from a Hydroelectric Reservoir (Brazil’’s Tucurui Dam) and the Energy Policy Impactions” [Emissões de gases de efeito estufa de uma represa hidrelétrica (barragem Tucuruí no Brasil) e os impactos na política energética], em . In: Water Air and Soil Pollution 133(1) : 69-96, janeiro de 2002. Disponível em <, acessível em https://www.researchgate.net/publication/226151950_Greenhouse_Gas_Emissions_from_a_Hydroelectric_Reservoir_Brazil%27s_Tucurui_Dam_and_the_Energy_Policy_Impactions>.

31 Philip Fearnside. “Belo Monte e os Gases de Efeito Estufa. 17: Implicações para a política de desenvolvimento”. Disponível em < http://estaticog1.globo.com/2010/05/globoamazonia/belomonte17implicacoesparapolitica.pdf>.

32 Oxford Journals, Science & Mathematics., BioScience,: 66(11), 2016, pp. 949-64.

33 Munich Re. Munich Re Renewables. Our contribution to a low-carbon energy supply, op. cit.

34 Durante sua assembleia de acionistas de 2015, a AllianzA Allianz pelo menos mencionou o númeroque assegurava um total de 89 total de barragens seguradas em 2014 durante a assembleia geral de 2015: 89. No entanto, assim como a Munich Re, também se recusou a informar os nomes e locais por motivo de “confidencialidade com os clientes”.