Apresentação

Queremos nos meter



O Brasil é o principal parceiro comercial da Alemanha na América Latina, como ressaltou o Ministério das Relações Exteriores germânico em 2008, por ocasião da recém-fundada “parceria estratégica” entre os dois países. Mas seria uma parceria em pé de igualdade?

Basta uma rápida olhada nos números para revelar a assimetria das relações econômicas entre essas nações europeia e sul-americana. Com quase novecentas empresas teuto-brasileiras, São Paulo é um dos principais centros econômicos da Alemanha no mundo. Em 2015, os investimentos diretos alemães no Brasil chegaram a 3,5 bilhões de dólares. Na outra direção foram apenas 44 milhões.

Nítidos superávits comerciais em favor da Alemanha também são a regra. Naquele mesmo ano de 2008, a balança pendeu para o lado alemão em 5,2 bilhões de dólares, correspondendo praticamente ao valor total das exportações brasileiras para lá. O tipo de exportação também expõe uma diferença qualitativa: enquanto o Brasil envia à Alemanha basicamente matérias-primas não processadas (ou pouco processadas), como minério de ferro, placas de aço ou soja, a Alemanha exporta bens de capital, como máquinas, ou industrializados, como produtos químicos e farmacêuticos.

A assimetria é sistêmica, e está alicerçada em um sistema econômico mundial profundamente injusto, cujas raízes históricas remontam à exploração colonial. As lutas pela emancipação das nações americanas puseram um fim à exploração direta das metrópoles europeias, mas essa exploração foi sucedida por uma dependência neocolonial dos países do Sul, ricos em recursos naturais, pelos grandes centros industriais.

O passado é mudo? Ou continuamos sendo surdos?”, perguntou Eduardo Galeano no prefácio de 2010 ao seu clássico As veias abertas da América Latina.

Sem as matérias-primas de países como o Brasil, nada funciona nas nações ricas do Norte. Faz quatrocentos anos que a economia capitalista consome intensivamente a força de trabalho humana e dos recursos naturais da Terra. “Se você usa roupa, come, anda de carro e usa celular, queiramos ou não, há nesse momento cerca de sessenta escravos trabalhando para você e para mim”, afirma a economista Evi Hartmann. Queiram ou não, os europeus se beneficiam da injustiça do sistema econômico mundial.

As consequências não são apenas sociais. A extração e a queima de combustíveis fósseis — condição para o tipo de economia e do consumo no Norte — são a principal causa para as mudanças climáticas em escala global. Mesmo as tentativas de reduzir o uso de fontes de energia baseadas na queima de carbono levam a novos problemas, como o chamado green grabbing. Com a moda dos biocombustíveis, a demanda mundial por óleo de palma explodiu. A fim de atender essa demanda, imensas áreas vêm sendo desmatadas na Ásia, na África e na América Latina para dar lugar aos palmares, que acabam inclusive ocupando o espaço de cultivos alimentares.

No Brasil, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a presidenta Dilma Rousseff tiveram a sua parcela de responsabilidade nessa tendência. Em suas gestões, conseguiram tirar mais de 30 milhões de pessoas da miséria absoluta com seus programas sociais. Para financiá-los, porém, investiram somas inéditas em megaprojetos — barragens, portos, aeroportos, plantio extensivo da soja — e na extração predatória de matérias-primas.

A divisão dos superávits não modificou em nada as estruturas da desigualdade no Brasil. As relações de poder tradicionais continuam intactas. Em consequência da virada macroeconômica de Dilma Rousseff, em 2014; de sua deposição truculenta pelo Congresso, em 2016; e dos desdobramentos posteriores, o fosso segue sendo aprofundado.

O conceito do estilo de vida imperial designa a posição privilegiada dos países do Norte nesta relação global de dependência. Estilo de vida imperial, para nós, é a exploração de pessoas e da natureza em nível global, ou seja, uma forma de viver baseada na desigualdade e na destruição ambiental, sobretudo no Norte global, mas também, e cada vez mais, no Sul. Eis a causa das crises e dos desastres sociais e ecológicos do nosso tempo.

Embora essa ordem econômica obrigatoriamente produza vencedores e perdedores, a verdade é que o passado não é mudo e as injustiças do presente clamam por soluções. Por isso, a Fundação Rosa Luxemburgo e a medico international consideram um dever trabalhar com todas as forças contra essa relação de dependência, em direção a um estilo de vida solidário, e não baseado em exploração e destruição.

No Brasil, a medico international e o escritório regional da Fundação Rosa Luxemburgo trabalham em parte com os mesmos parceiros que volta e meia cooperam também com empresas alemãs. Sem o seu obstinado trabalho de base, esse livro não poderia ter sido escrito.

Um deles é a rede Justiça nos Trilhos, composta por ativistas jovens, que ajuda as vítimas da empresa transnacional Vale, antiga Vale do Rio Doce. O minério de ferro e a bauxita extraídos da Amazônia estão no início da cadeia de produção de componentes de milhões de carros de passeio e caminhões na Alemanha.

Sediada no Rio de Janeiro, a organização não governamental Pacs (Instituto Políticas Alternativas para o Cone Sul) acompanha há dez anos o escândalo da siderúrgica csa na zona oeste da cidade, especialmente as famílias de pescadores e moradores atingidas pela empresa. A totalidade dos lingotes produzidos no Rio de Janeiro é destinada à exportação, seja para a Europa, para os Estados Unidos ou para a China. Há pouco tempo, a alemã Thyssen-Krupp vendeu a fábrica.

Há ainda o Movimento de Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), que contrapõe uma alternativa concreta a um modelo agrícola tóxico e de monoculturas, marcado por grandes conglomerados agropecuários e químicos: uma lavoura biológica em pequenas unidades, aliada a um trabalho político e ao esforço em favor de uma genuína reforma agrária.

Algumas empresas alemãs são corresponsáveis pela violação, no Brasil, de direitos humanos fundamentais, como o direito à saúde. Na condição de fundação política e organização de direitos humanos, não nos limitamos a apoiar os nossos parceiros locais. Nossa tarefa também consiste em revelar e criticar essas conexões na Alemanha. Em tempos de sustentabilidade e de responsabilidade social corporativa, a reputação empresarial ganha cada vez mais relevância. Por isso, esta estratégia pode ser exitosa. O objetivo é exercer pressão sobre as empresas para que mudem de comportamento.

Essa é também a postura de Christian Russau, jornalista, ativista e autor deste livro. Na condição de membro da Associação dos Acionistas Críticos (Dachverband Kritische Aktionärinnen und Aktionäre, em alemão), ele pede a palavra nas assembleias anuais dos conglomerados alemães que querem se beneficiar das relações comerciais desiguais com o Brasil. Põe o dedo na ferida quando o balanço anual dessas empresas volta a suscitar questões de violação de direitos e destruição ambiental.

Membro da rede de solidariedade KoBra (Kooperation Brasilien), Russau é um dos que há muitos anos reportam sobre as condições do Brasil para os leitores alemães sem usar os clichês habituais. Sem seu trabalho incansável, por exemplo, a repercussão da notícia sobre o papel da Volkswagen durante a ditadura civil-militar (1964–1985) na imprensa alemã, em julho de 2017, não teria sido o mesmo.

Esse livro tem como objetivo principal revelar as consequências dramáticas dos interesses econômicos alemães para a população brasileira. Por isso, é publicado agora também no Brasil, para que os ativistas tenham mais uma ferramenta de defesa contra as empresas alemãs que geram lucros às custas do meio ambiente e das pessoas.

Last but not least, pela tradução, agradecemos a Daniel Martineschen e a Kristina Michahelles. E pela edição do livro e da página web, aos nossos grandes parceiros das editoras Autonomia Literária e Elefante.

Gerhard Dilger – Fundação Rosa Luxemburgo, São Paulo

Moritz Krawinkel – medico international, Frankfurt am Main

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